2DIE4: 24 Horas no Limite (2026)

O piloto inspirador

título original (ano)
2DIE4: 24 Horas no Limite (2026)
país
Brasil
Linguagem
Documentário
duração
61 minutos
direção
Abdala Brothers
com
Felipe Nasr
visto em
Cinemas

2DIE4: 24 Horas no Limite busca se valorizar por sua singularidade. O trabalho de marketing é voltado ao caráter excepcional da empreitada: trata-se do primeiro filme brasileiro em IMAX, e o primeiro com tamanho acesso aos bastidores da corrida de Le Mans. Esta seria uma experiência imersiva a partir de uma equipe composta por apenas oito pessoas, visando destacar o talento de Felipe Nasr, piloto que, apesar de largar nas últimas posições, demonstrou seu talento na pista, enfrentando de igual para igual as escuderias favoritas. Somos apresentados, portanto, à narrativa de azarões confrontando-se as favorecidos, ou ainda de Davis contra Golias. 

Além disso, o média-metragem (de 61 minutos) procura enaltecer tanto a si próprio quanto ao seu personagem. Os autores obviamente exibem suas capacidades a partir de recursos limitados —mesmo contando com lentes Panavision, “as mais belas lentes do cinema”, segundo os letreiros finais. Enquanto isso, sublinham o talento do protagonista, e exibem incontáveis vezes a marca da Porsche, colaboradora da obra. Por este motivo, o resultado se aproxima de uma obra institucional para as marcas relacionadas (Porsche, mas também de Nasr), além de um projeto de vaidade (vanity project) para seus criadores. Em suma, um filme-portfólio, destinado a seduzir o universo empresarial a partir de capacidades audiovisuais.

O filme demonstra uma compreensão tão eficaz quanto publicitária da beleza. Já a narração em off não faria feio em uma palestra de coach motivacional.

As habilidades, no caso, dizem respeito a uma compreensão tão eficaz quanto publicitária da beleza. André Abdala e Salomão Abdala empregam fartamente as câmeras lentas, os flares, os pingos de chuva sob a luz dos holofotes, a sombra nas árvores ao redor, ou ainda os planos inclinados. Em conjunção com a música operística, beirando o teor religioso, esta plasticidade aproxima o resultado, ainda mais, de um comercial para carros, relógios, pneus e afins (vide as marcas exibidas nos banners que circundam a pista). Convida-se o piloto a caminhar e parar nos pontos exatos do enquadramento, agindo de modo engrandecedor, ou interagindo de maneira bastante artificial com o garçom de um café. Embora constitua um documentário, o filme possui as ambições de controle e de intervenção no real dignas das ficções.

Em contrapartida, não há uma narrativa propriamente dita. Os realizadores nunca partem desta corrida para refletir acerca do universo esportivo em geral, nem das dificuldades mecânicas, econômicas, ou ainda de disputas políticas internas. Os dois outros pilotos que dividem a corrida e o carro com Nasr nem mesmo têm seus rostos apresentados — eles nunca são elevados ao status de personagens. Todos os dirigentes e técnicos reduzem-se a figuras uniformizadas, anônimas e intercambiáveis, disparando comandos mínimos ao piloto, que monopoliza a atenção do projeto em sua busca tão simples quanto obsessiva pela vitória. Ele reclama da troca de pneus, da visibilidade ruim durante a chuva, da posição ingrata da largada. Dorme, medita e prepara um chá, diante de uma câmera estetizante, logo à sua frente, pensada para aproximar cada deslocamento de um ensaio fotográfico.

Por isso, a corrida em si permanece um tanto misteriosa. Como compreender o ganho de várias posições pelo colega, assim que assume controle do carro? Por que mal se menciona a colisão que devolve a Porsche à 17ª posição? Por que nenhum outro piloto oferece qualquer contraponto ao discurso de Nasr? Como interpretar a recepção um tanto fria da equipe técnica, cada vez que o piloto brasileiro sai das pistas e visita os bastidores? Caso a câmera mergulhasse no discurso dos adversários, na angústia dos mecânicos, nas estratégias díspares de cada escuderia, poderia gerar uma tensão bastante cinematográfica. Em contrapartida, o documentário se restringe à observação do desempenho de seu personagem central, preservando ao máximo as falas mencionando Felipe enquanto piloto mais veloz de cada volta.

Ainda na chave da ficcionalização, o discurso permite ao herói se converter em narrador em off, aconselhando o espectador a respeito das chaves da vitória e dos segredos da perseverança. O discurso nada espontâneo não faria feio em uma palestra de coach motivacional: “Dizer que você é capaz é fácil. Difícil é dizer para as suas inseguranças que você dá conta”. “Qual é a diferença entre sonho e realidade? Qual dos dois eu devo buscar?”. “Tem algo aqui dentro que me bota numa busca incansável pelo meu sonho”. “No fundo, você só sabe que precisa chegar lá”. “É interessante o que aprendemos sobre nós mesmos quando a vida nos leva ao limite”.

As incontáveis frases de efeito chegam a limites cômicos (“As pessoas confundem muito fácil gentileza com ingenuidade. Por isso eu uso óculos”), ou eticamente contestáveis (“Já sei o que você vai falar: eu deveria desistir, né? Mas esta é a diferença entre eu e você”). Ora, quem acreditou ser uma boa ideia antagonizar o espectador, ou falar em nome dele, a respeito do que o interlocutor estaria pensando? A mensagem passa rapidamente de um incentivo à persistência a um retórica auto-congratulatória, caso de “O cara que pilota aquele carro sou eu de verdade”, além de outras frases destinadas a sugerir que Nasr teria vencido a corrida, se não fossem as escolhas equivocadas dos colegas de equipe e dos outros dois pilotos. Uma coisa é escutar, em documentários hagiográficos, elogios de entrevistados às virtudes do protagonista. Outra coisa é o próprio protagonista ser convidado a se vangloriar diante das câmeras — e topar a proposta.  

Por fim, 2DIE4 surpreende pela seriedade sepulcral de sua abordagem: os criadores realmente estimam trazer uma experiência inovadora, profunda, além de ensinamentos complexos a partir de nosso piloto-guru. Devido à incapacidade de observar o cenário mais amplo (a corrida na sua totalidade, e não apenas o desejo de Nasr), resume-se a uma ode à personalidade. Ainda mais irônica seria a decisão de se vender como pioneiro no cinema brasileiro — logo um filme intitulado 2DIE4, assinado pelos “Abdala Brothers”, com letreiros em inglês (“Written, edited & directed by”) e falado majoritariamente em língua estrangeira. Ora, o projeto busca ao mesmo tempo se sobressair por sua pequenez e por sua grandiosidade; por seu aspecto internacional e por sua brasilidade. A conta não fecha.

2DIE4: 24 Horas no Limite (2026)
3
Nota 3/10

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