Eu Não te Ouço (2025)

Road movie da inércia

título original (ano)
Eu Não te Ouço (2025)
país
Brasil
gênero
Comédia, Drama
duração
72 minutos
direção
Caco Ciocler
elenco
Márcio Vito, Caco Ciocler
visto em
Cinemas

Eu Não Te Ouço parte de uma divisão — literal, num primeiro momento. O cartaz oficial coloca dois homens num banheiro público, lado a lado, isolados pela parede na exata metade da imagem. Durante a integralidade do filme, estarão separados pelo vidro de um caminhão — o motorista, sentado em seu banco, e o “patriota”, agarrado à parte da frente. Eles gritam um ao outro, porém, conforme sugere o título, literalmente não se escutam. Há muitas metáforas bastante evidentes aqui, a partir do caso do sujeito bolsonarista que se agarrou a um caminhão durante as manifestações a favor do ex-presidente.

Ora, Bolsonaro, atualmente em prisão domiciliar, não é citado nesta trama. Lula também não. Fala-se de um golpe, e do tipo que teria assumido em seguida, embora Dilma e Temer jamais sejam nomeados. O longa-metragem se articula a partir de uma referencialidade óbvia, somada à vontade de adotar um mínimo distanciamento para que a representação signifique algo além do episódio tragicômico da política nacional. É sobre isso, mas não apenas sobre isso, nos alerta, insistentemente, a obra. O roteiro se equilibra entre a menção direta a um episódio, e a intenção de se descolar do mesmo. Deseja reproduzi-lo, mas também afirmar que ele consiste mera metáfora para uma discussão ampla.

Eu Não te Ouço oferece uma analogia eficaz da polarização política brasileira, embora ignore as origens do fenômeno, suas transformações, limites e alternativas. Além disso, tem pouco a oferecer esteticamente.

Isso porque, em segundo lugar, o dispositivo visa nos alertar a respeito da divisão simbólica da sociedade brasileira. Devido à recusa deliberada em rotular os campos, estes não seriam petistas contra bolsonaristas (o motorista recusa-se a aderir a qualquer um dos dois polos), mas democratas e antidemocratas. Cidadãos crentes nos processos políticos (eleições, contrapesos entre poderes, constituição) versus aqueles para quem só existe a política do grito, das redes sociais, do espetáculo, da performance. A ideia de que o sistema, ainda que falho, corresponde à melhor organização possível, em oposição ao pressuposto de que seria legítimo quebrar tudo, invadir o Congresso, venerar pneus, grudar na carroceria do caminhão — o desespero midiático enquanto martírio do homem de bem.

Pois a narrativa cumpre muito bem esta proposta expositiva — nos cinco primeiros minutos, aliás. Está dada a separação, a simetria entre se situar dentro das normas e fora das normas (ou, nesta analogia, dentro do caminhão e fora do caminhão), somadas ao fato de ambos os personagens serem interpretados pela mesma pessoa. Márcio Vito encarna com invejável desenvoltura tanto o condutor mais ponderado do veículo, quanto o fanático à sua frente. Desenvolve o mesmo palavrório infinito, espécie de ruminação sem rumo acerca da vida, da política, do atual estado das coisas. Nossa dificuldade de distinguir entre a fala roteirizada e aquela espontânea somente atesta as qualidades do grande ator. Por meio da dualidade, sugere-se que ambos compõem um único homem, ou um único país, e que seria impossível separá-los (tal qual o roteiro sublinha rumo à conclusão).

Enquanto isso, Eu Não Te Ouço assume a vocação ao realismo fantástico (ou teatro do absurdo, como preferem os letreiros iniciais), por meio da figura do entrevistador. Afinal, tanto o motorista quanto o invasor conversam com a câmera, que os provoca. No caso do condutor, ele seria entrevistado para um projeto cinematográfico de contornos vagos. Seria plausível, ainda que pouco provável, que um documentarista (o próprio Caco Ciocler) o seguisse durante horas, sentado no banco dos passageiros, conforme o “homem comum” elucubra a esmo. Em contrapartida, como ele se encontraria simultaneamente na parte de fora do veículo, grudado à parte metálica em movimento, junto do segundo personagem? Este olhar mágico e invisível, partindo de um ouvinte igualmente dividido em dois, corresponde ao olhar cúmplice do espectador, a quem se pede que ouça, com respeito semelhante, ambos os pontos de vista.

Logo, a pequena fábula atesta a dificuldade de comunicação contemporânea, enquanto insinua que somente a superaremos mediante tentativas de convivência. É difícil entender o outro lado, entretanto, precisamos fazê-lo. Na totalidade, a obra corresponde a este movimento de conter o escárnio em relação ao campo adverso, driblando o meme, de modo a humanizá-lo novamente. Por mais tentador que seja rir dos patriotas bebendo detergente, ou saltando com o pé direito na frente de uma loja de chinelos, precisamos escutá-los e, se possível, compreendê-los. Em seu delírio coletivo, estas personas folclóricas transpareceriam o atual estado do país — sem falar na noção de que, para eles, os malucos somos nós. A trama nunca sabe exatamente de que forma iniciar esta conversa, nem o que poderíamos fazer para apaziguar as partes. Prefere esta sugestão singela, anterior, a respeito da necessidade de tentar. O como ficaria para outro momento.

Em contrapartida, passados os minutos iniciais, quando tanto o dispositivo quanto a mensagem se fazem claríssimos, Eu Não Te Ouço possui pouco a oferecer esteticamente. O arsenal imagético se esgota muito rápido, repetindo os dois únicos enquadramentos no interior do caminhão, e a mesma perspectiva lateral com o sujeito do lado de fora. Roteiros mais maliciosos sugeririam paradas do veículo, interação com outros carros, exploração do restante do caminhão, hesitações de uma parte ou de outra. Os homens poderiam efetuar ou receber telefonemas de pessoas de fora. Ora, neste texto, o motorista segue dirigindo tal qual um dia comum de trabalho. Já aquele grudado não cansa, não escorrega, não desiste. A ideia da persistência em suas trincheiras (de acordo com a fantasia, eles permanecem três anos nesta rota) faz parte da insinuação de imobilidade ideológica, criticada pelo cineasta. Curioso conceito de um road movie da inércia.

A reflexão política tampouco se aprofunda, desenvolve ou apresenta contradições. As mesmas sugestões do princípio serão repetidas até a conclusão, tornando o curto longa-metragem numa experiência cansativa e arrastada. Resta a impressão de que Ciocler tinha em mãos o conceito ideal para um curta-metragem de impacto, porém, enfraqueceu consideravelmente a proposta devido ao esgarçamento de sua fina estrutura narrativa, para muito além daquilo que roteiro, fotografia e montagem estão dispostos a oferecer. Neste sentido, a continuidade de luz sofre com desníveis, enquanto a tão-aguardada parada do veículo se converte num anticlímax. 

Nem a revelação final de que o caminhão se encontrava parado num estúdio, com painéis luminosos ao redor, serve de revelação ou excitação aos sentidos. Então os criadores possuíam todo o controle possível sobre um palco em 360º, e ainda ofereceram tão modesto banquete em termos de decupagem? Eu Não te Ouço se conclui enquanto filme-constatação — um cinema retórico. Seu ponto de partida corresponde precisamente ao ponto de chegada. Ele oferece uma analogia eficaz da polarização política brasileira, embora ignore as origens do fenômeno, suas transformações, limites e alternativas. Intui que precisamos superar isso, e seguir caminho juntos. Certo. Mas de que maneira poderemos enfrentar o impasse daquele vidro impenetrável, acusticamente protegido, que ainda separa os dois homens idênticos? Mistério.

Eu Não te Ouço (2025)
5
Nota 5/10

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