Em polonês, “erupcja” significa erupção. Este é o ponto de partida para o novo filme do diretor norte-americano Pete Ohs: a visita de um casal britânico à Varsóvia. Bethany (Charlie XCX) já viveu na cidade, e tem amigos de longa data ali, mas o namorado Rob (Will Madden) nunca havia visitado o país. Ele pretende pedi-la em casamento na Polônia, embora a namorada sinta, na verdade, que o relacionamento está ruindo.
Quando o vulcão Etna entra em erupção na Itália e bloqueia o espaço aéreo, os dois são obrigados a permanecer por mais tempo no local. Esta é a oportunidade para Bethany reatar com Nel (Léna Gora), polonesa com que faz “a Terra tremer”, nas palavras da britânica. Entre festas e passeios, ela vai se afastando do namorado e encontrando outras pessoas — caso do artista plástico norte-americano Claude (Jeremy O. Harris), que representa o modelo de liberdade procurado pela visitante.
Erupcja estreou no Festival de Toronto, antes de passar por outros festivais prestigiosos como Guadalajara, SXSW, Miami e Indie Lisboa. Agora, em 21 de maio, chega aos cinemas brasileiros, pela Imovision. O Meio Amargo aproveitou para conversar com Pete Ohs e Jeremy O. Harris a respeito deste processo de criação bastante livre, efetuado em conjunto com o elenco.

Por que escolheram Varsóvia? A cidade se torna uma personagem à parte no filme.
Pete Ohs: Escolhi Varsóvia por motivos sentimentais. Na primeira vez que fui à Polônia a trabalho, eu conheci uma polonesa e tive uma experiência do tipo Antes do Amanhecer. Peguei um trem, fui pra Varsóvia, me apaixonei. Mantivemos uma relação à distância, até eu me mudar para lá. Então eu vivi na Varsóvia antes de fazer o filme, e a cidade me inspirou bastante.
Quando eu fui para a Polônia pela primeira vez, esperava algo em preto e branco, mas encontrei um lugar colorido e vibrante. Quis fazer um filme no país, e por isso Varsóvia se torna um personagem. Eu me inspirei nos parques, nos prédios, como se eu conversasse com este local enquanto contava a minha história.
Quando eu fui para a Polônia pela primeira vez, esperava algo em preto e branco, mas encontrei um lugar colorido e vibrante. Quis fazer um filme no país.
Jeremy, você interpreta o personagem que vive na Varsóvia, mas não pertence àquele lugar.
Jeremy O. Harris: Eu sempre tive o sonho de viver em outro lugar, e ter a experiência de uma cidade nova — praticando uma arte diferente, quem sabe, tal qual um artista expatriado. Então essa foi uma boa oportunidade para viver isso. Eu interpreto quase um substituto do Pete, de certa forma.
Assim que Charlie XCX entrou no filme, eu disse ao Pete que meu personagem não precisava mais existir nessa história. O processo do Pete é bem particular, e no início, nós tínhamos pensado num filme muito diferente. Mas quando Charlie entra, esta se torna a história sobre duas mulheres, e o namorado junto. Todos eram lindos, brancos, britânicos ou poloneses. Então me perguntei: onde me encaixo nisso? Eu não queria impor a minha presença naquele contexto.
Mas quando eu fui para a Varsóvia e vi tantas pessoas que se parecem comigo, consideramos importante e empolgante representar uma vida que talvez não se assemelhe ao que imaginamos. Muitas pessoas devem pensar que todos na Varsóvia são como Léna Gora, mas existe uma diversidade que ainda não tínhamos incluído no projeto inicial.

Todos os atores são creditados como co-roteiristas no filme, ao lado de Pete. Como se deu esta colaboração?
Pete Ohs: Eu tenho feito filmes desta maneira. Fiz cinco filmes em cinco anos, utilizando este processo. Toda filmagem envolve muita colaboração, mas no nosso caso, é ainda mais colaborativo. Cada ator é convidado a determinar os rumos de seu personagem, e o que vai acontecer na trama, desde o princípio. Com um grupo diferente de atores, teríamos um filme totalmente diferente. Eles batizam seus personagens, e decidimos os rumos de cada um a partir de conversas em conjunto. Eles falam de suas próprias vidas, e dos personagens que gostariam de interpretar. Contam o que já fizeram, ou ainda não fizeram.
Então, filmamos tudo em ordem: nós criamos a história conforme a filmamos. Só temos uma pequena ideia da primeira metade da narrativa. Jogamos ideias de um possível final, mas o descobrimos juntos, quando chegamos neste momento. Sempre, ao longo do processo, as conversas com os atores sobre seus sentimentos são incorporadas. Os atores são os donos de seus personagens. É um processo ativo e estimulante, porque nos oferece inúmeras possibilidades. Então fazemos escolhas ali, na hora, e lidamos com as consequências em seguida.
Cada ator é convidado a determinar os rumos de seu personagem, e o que vai acontecer na trama, desde o princípio. Com um grupo diferente de atores, teríamos um filme totalmente diferente.
Esta deve ser uma experiência particularmente empolgante para o elenco.
Jeremy O. Harris: Sem dúvida. Um bom exemplo disso é a maneira como chegamos ao diálogo sobre vulcões. Meu personagem diz “Mas vulcões matam pessoas; por que isso seria engraçado?”. Da maneira como Pete trabalha, ele nos permite viver como nossos personagens.
Pete Ohs: Processos de filmagem sempre são intensos. São corridas contra o tempo, envolvendo muitas questões de produção e logística. Mesmo que nosso estilo de trabalho seja bastante incomum, ainda lidamos com circunstâncias que não podemos controlar. Por exemplo, tínhamos previsto uma filmagem na rua, quando começou a chover. Mudamos tudo para filmar num espaço fechado. Coisas do tipo. Esses desafios acontecem sempre.
Para essa cena, sobre o diálogo do vulcão, imaginamos que as duas garotas iriam para a casa de Claude, mas não sabíamos como seria a conversa. Pensamos em filmar na sacada, mas choveu, então isso não era mais possível. O tempo estava passando, e precisávamos definir na hora o que eles conversariam. Todos lançaram ideias, e eu anotava tudo no meu iPhone, num bloco de notas. Depois, compartilhei com todos no nosso grupo em comum.
Então eu lancei: “E se a gente começasse com esta frase aqui?”. Aí eu viro a próxima pessoa e digo: “O que você responderia?”. Assim chegamos à conexão mágica das duas, que fazem vulcões explodirem. Essa é uma piada entre elas. Então eu virei para Jeremy e perguntei: o que Claude responderia? E ele: “Mas vulcões matam pessoas; por que isso seria engraçado?”. Digitei no celular, e pronto. Não temos tempo de ficar remoendo estas escolhas. Precisamos confiar na intuição e seguir em frente. É uma maneira deliciosa de existir e de criar.

Então, a ideia de sincronicidade, sobre a qual os personagens falam, impacta a próxima criação, certo? Incorporando os acasos que as circunstâncias oferecem.
Pete Ohs: Sem dúvida. Tinha aparecido a ideia de envolver vulcões enquanto metáfora para o amor e os relacionamentos turbulentos. Aí, no meio do processo, o vulcão Etna entrou em erupção, e por isso, o incorporamos à história.
Jeremy O. Harris: Isso acabou entrando no roteiro porque encontramos um amigo, por acaso, e almoçamos com ele. Falamos sobre a filmagem na Varsóvia, e ele disse: “Engraçado, eu estive na Varsóvia dez anos atrás. Um vulcão entrou em erupção, e eu fiquei preso lá”. Todos achamos uma ótima ideia. No caso dele, era um vulcão da Islândia. Curiosamente, o Pete morava na Islândia quando a erupção aconteceu. Tudo isso parecia precioso, e precisava entrar no filme.
A ascensão do cinema brasileiro no cenário internacional, ultimamente, também nos mostra esta capacidade de trabalhar com os recursos à disposição. Usamos quem pode e quer participar, e celebramos isso.
Como se formou o grupo de atores, entre aqueles muitos experientes — caso de Jeremy e Léna — e os novatos, como Charlie XCX, ainda em suas primeiras experiências?
Pete Ohs: Todos vieram por escolha do universo — por acaso. Estavam à nossa volta, na nossa órbita. Conhecemos a Charlie por acaso num bar, no bairro onde Jeremy vive. Eram três da manhã. Ela me disse que queria fazer cinema, e nós tínhamos acabado de filmar juntos. Ela disse: “Eu também quero participar”. E nós dissemos que sim. Tinha conhecido Léna num festival de cinema na Polônia. Já tinha feito filmes com o Will Madden, e queria fazer mais. Tudo é bastante orgânico. Nunca existem testes ou listas de seleção. Nenhuma estratégia. São descobertas intuitivas de quem está disponível, e do que nos atrai. Depois, escolhemos o que fazer a partir das pessoas disponíveis.
Jeremy O. Harris: Talvez, para quem olha de fora, isso pareça caótico. Mas, na verdade, é muito tranquilo trabalhar assim, porque você usa aquilo que está disponível, não aquilo que gostaria de ter. A ascensão do cinema brasileiro no cenário internacional, ultimamente, também nos mostra esta capacidade de trabalhar com os recursos à disposição. Usamos quem pode e quer participar, e celebramos isso.
É preciso ter um conhecimento imenso de cinema para empregar poucos recursos e criar um filme de grande impacto. Nós ficamos muito inspirados com artistas que trabalham dessa maneira. Talvez a gente não tenha um milhão de dólares, mas temos uma ótima história a contar, e conheço grandes atores e artistas dispostos a colaborar. Esse modelo nos força a buscar aquilo que já temos em nossas vidas, ao invés de buscar recursos que não poderíamos ter.

As escolhas estéticas são surpreendentes: a janela da imagem mais próxima do quadrado, os flashes coloridos entre cenas, a trilha sonora.
Pete Ohs: Eu encaro o cinema como um processo holístico. Tudo é uma jornada. Isso exige estar presente e responder àquilo que acontece. Sou uma pessoa bem intuitiva neste esquema: eu faço o trabalho de câmera, faço o som, e costumo editar também. Mas os atores também são colaboradores, que sempre me trazem muitas ideias e propostas.
Erupcja aparentemente contém referência às Nouvelle Vagues francesa e polonesa — as pessoas sempre me dizem isso. É uma loucura, porque eu nem vi estes filmes! Não sei de onde isso veio! Na verdade, sei sim: isso veio dos colaboradores que me trazem estas propostas e formam um resultado em diálogo com inúmeras fontes. Para mim, isso é empolgante e surpreendente, porque muitas decisões não partiram de uma intenção minha. Elas foram resultado deste processo.
Erupcja aparentemente contém referência às Nouvelle Vagues francesa e polonesa — as pessoas sempre me dizem isso. É uma loucura, porque eu nem vi estes filmes!
As reações ao filme foram muito distintas desde a estreia em Toronto?
Pete Ohs: Fico muito feliz de ver como Erupcja foi bem acolhido. Mesmo dentro desta recepção calorosa, há grupos diferentes: tem aqueles que se solidarizam com Rob, outros que se identificam com Bethany, sem falar naqueles que amariam ter a vida de Claude. É surpreendente ver como cada um deste grupos defende fervorosamente as suas impressões.
É claro que isso depende das experiências amorosas de cada espectador. Alguns já foram a Bethany no passado, ou já foram o Rob. Ou ainda a Nel. Acho lindo que o filme tenha gerado reações tão fortes, e motivado tantas conversas. Mas eu confesso que fico nervoso quando sei de casais que assistem ao filme juntos!
Jeremy O. Harris: É engraçado porque, como somos muito transparentes a respeito do processo, várias pessoas nos contam que adoraram, que se sentiram inspiradas a fazerem seu próprio filme. Isso é maravilhoso. Pete e eu acreditamos que nossa criação não deveria ser um mistério. Quando se trabalha numa grande estrutura, você gera essa impressão de que filmes são misteriosos, inacessíveis. Mas nós simplesmente fomos lá e fizemos.
Na verdade, eu adoro a sensação de que um processo criativo implica na possibilidade de falhar. As pessoas têm percebido essa liberdade como algo inspirador. Alguns poucos apontaram que jamais fariam um filme assim, que essa história não era possível. Eu me sinto mal por eles. Tenho vontade de abraçar cada um e dizer: “É possível sim. Nós vivemos assim, e trabalhamos assim. É possível”. Você não precisa necessariamente se sentar por três anos e se torturar no desenvolvimento de um roteiro.
Quando você se sentar com quatro amigos para escrever algo juntos, necessariamente vai sair algo sobre as vidas de cada um. Todos os atores do filme estão em relacionamentos duradouros. Somos jovens millennials pensando: vamos nos arriscar com os vulcões do nosso passado, ou vamos decidir ser um pouco chatos, previsíveis, fazendo aquele esforço diário de um relacionamento duradouro, pedindo desculpas quando erramos?
Vários criadores se concentram em temas gigantescos e complexos, mas eu acredito na importância de falar sobre as pequenas coisas do cotidiano, sobre nossas vivências diárias, na nossa comunidade. Existe algo muito sincero e profundo nisso. Às vezes, o gesto mais radical que você pode fazer é pedir desculpas a alguém por tê-lo magoado.

Vocês prestam atenção às críticas, tanto de profissionais quanto de espectadores nas redes sociais?
Pete Ohs: Eu leio absolutamente todas as críticas. Não me importo que sejam positivas ou negativas — elas são provas de que alguém assistiu. É uma maneira saudável de encarar as coisas. Gosto de estar ciente das coisas: quero ter a consciência do que eu fiz, e isso pode vir de uma reação positiva ou negativa. É ali que eu percebo o que foi bem recebido e o que não foi, se algumas escolhas foram bem recebidas ou não. Estou conseguindo me conectar com outras pessoas? Elas me entendem? E se não entendem, eu posso ajustar nos próximos projetos.
Às vezes perguntam para nós: “Você pensa no seu público enquanto cria?”. Costuma ser difícil responder a isso, porque o processo de criação tende a ser bastante egoísta para mim. Tenho a consciência de que faço filmes inteiramente para a minha satisfação pessoal e espiritual. Mas na verdade, sinceramente, eu me importo profundamente com os outros humanos na Terra.
E sim, penso nas pessoas que vão assistir depois. Não quero desperdiçar o tempo delas. Quero que isso seja proveitoso para elas — tudo bem se não gostarem, mas quero se sintam algo, e se sintam correspondidas de alguma forma. Quando leio uma crítica, tento decifrar por que elas não gostaram da experiência. Às vezes, é porque elas estão feridas, devido a algo que aconteceu em suas vidas. Eu as vejo, e tento entendê-las pelo que são.
Jeremy O. Harris: Eu já trabalhei como crítico, e acredito que tanto Pete quanto eu temos um olhar bastante crítico sobre as criações dos outros. Então, sabemos que as reações fortes demais a uma opinião negativa significam uma maneira errada de lidar com a crítica. A crítica é apenas uma informação nova. É uma informação sobre como nossa história chegou às pessoas — ou não chegou.
Consigo pensar em muitos filmes que eu vi pela primeira vez e detestei. Mas, anos depois, quando eu fiquei mais velho, assisti de novo e amei. Então, precisamos entender em qual nível de conexão nosso filme se encontra com o público e com o mundo naquele contexto específico. Tem sido comovente ver que Erupcja tem se comunicado com o público no momento certo para ele, numa época em que consegue ressoar os problemas do mundo e dos espectadores. Isso é lindo.



