Alma Negra: Do Quilombo ao Baile | “O soul conecta África, Estados Unidos e Brasil”

Inicialmente, o diretor Flávio Frederico (Boca, Em Busca de Iara) pretendia fazer um filme a respeito da música soul no Brasil, analisando os bailes black e sua relevância para a cultura nacional. Entretanto, durante a pesquisa, compreendeu a importância de estender a investigação para toda a negritude no país, discutindo o histórico de racismo e a luta pelos direitos civis.

Assim nasce Alma Negra — Do Quilombo ao Baile, projeto gestado durante dez anos. Ao lado de um precioso material de arquivo, encontram-se falas de grandes nomes da música (Tony Tornado, Zezé Motta, Seu Jorge) e da pesquisa em ciências sociais (Ednéia Gonçalves). Juntos, eles avaliam a maneira como a luta social e a identidade cultural se tornam indissociáveis.

Em entrevista ao Meio Amargo, o cineasta discute o desenvolvimento do projeto. O documentário já em cartaz nos cinemas, com distribuição da Synapse:

O que te levou a este tema, em particular?
Flávio Frederico: O documentário tem desses processos. Muitas vezes você não pensa exatamente em fazer um filme sobre aquilo, mas acaba ocupando anos da sua vida. Bom, eu tenho uma produtora, com a Mariana Pamplona. E o Bid, um produtor musical, comentou que queria fazer um documentário musical. Isso foi antes de a gente dirigir Rumo (2019), para você ter uma ideia. Ele sugeriu: “Por que você não faz um documentário sobre o soul brasileiro?”. Ninguém tinha feito, na época, algo sobre essas músicas. Comecei a escutar o repertório, e achei incrível.
Durante a pesquisa, com a Mariana, a gente começou a realmente se deparar com uma coisa muito mais ampla do que um um gênero somente. Foi um movimento, uma verdadeira revolução preta brasileira nos anos 70. Este momento foi crucial para todo um empoderamento negro a partir dali, que culminou no Manifesto Negro Unificado contra a Discriminação Racial (MNU).
Este é um assunto que me toca, de verdade — a questão do racismo, da nossa história, da afrobrasilidade. Em 2008, eu fiz um documentário chamado Quilombo — Do Campo Grande aos Martins, então eu já tinha interesse nato por essa história. Quando vi a profundidade daquele tema, liguei para o Bid e disse que concordava em fazer, mas ia demorar muito mais do que ele imaginava. Eu disse: “Não dá para falar sobre o soul brasileiro sem falar do movimento negro brasileiro. Não dá para falar do movimento negro brasileiro sem falar do racismo. Não dá para falar do racismo sem falar do que aconteceu na falsa abolição”. Então as coisas foram se concatenando.
É claro que eu não esperava que fosse demorar dez anos. Mas o projeto ficou bloqueado na Ancine por dois anos. Quando terminou o prazo dele, a gente pediu renovação, mas era a época do Bolsonaro, quando a Ancine estava travada. Eu perdi patrocinador, e achei que nem fosse terminar o filme. Pelo menos, a gente continuou aprofundando a pesquisa, tanto pelo lado musical, quanto desse movimento mais amplo.
E aí, de cara, a gente já se deparou com uma voz e um pensamento que me marcou muito, da Beatriz Nascimento. Este foi o caminho, conforme a gente pensava em como unir tudo isso num longa-metragem. Resolvemos buscar a obra da Beatriz, a conexão com Quilombo, que já era uma coisa que me marcava profundamente. A gente foi atrás de pessoas que pudessem falar sobre isso, e encontramos a Edinéia Gonçalves, uma socióloga educadora, espécie de reencarnação da Beatriz. A gente chamou ela, e fizemos uma longa entrevista que permeia o filme inteiro. Também trouxemos a Zezé Motta, que era uma figura importante. Enfim, cada vez mais eu fui me sentido pressionado a fazer um filme profundo nesse sentido, porque é muito importante para a sociedade brasileira como um todo.

Ao mesmo tempo, era importante para vocês que o resultado ainda funcionasse enquanto filme musical?
Flávio Frederico: Sim, a gente nunca podia perder isso. O Bid ainda é coprodutor, com voz ativa ali, e ele sempre alertava quando a gente tirava músicas demais. Olha, eu devo ter passado uns seis anos de vida na edição. A Mariana também, como roteirista, foi para a ilha de edição, e a gente conseguiu achar esse caminho através das experimentações. Mas a gente não queria abrir mão de ser um documentário musical, em hipótese alguma. Senão ele ia ficar enfadonho, e perderia muito da sua força.
Eu acho que o segredo do documentário musical não está só na música. Eu já vi muitos documentários musicais que, sinceramente, parecem contar bem a história, mas você não sente a música pulsar. Também vi outros que às vezes deixam passar coisas importantes da história do artista, mas você sente muito a música. Então a gente se preocupou em fazer esse filme com ritmo de musical, com altos e baixos, com silêncios.
Na verdade, a construção da mixagem do filme é primorosa. O início é silencioso, para você ter vontade de ouvir a música, de repente ele descamba às vezes para um momento super musical, super alto e as músicas foram todas praticamente remixadas também para diferentes momentos. Então, ainda bem que a gente não abandonou o aspecto musical, porque este é um ponto de conexão forte com o público no cinema.

Gostaria de perguntar sobre os materiais de arquivo. Quando a gente fala da história de pessoas negras no Brasil, os materiais costumam ser mal preservados, ou de difícil acesso.
Flávio Frederico: A gente só tem essa quantidade de materiais graças ao tempo. Às vezes, o fato de demorar esse tempo todo é algo bom, né? Essa duração prejudica porque você perde o dinheiro, não consegue entregar para a Ancine, etc. Mas, para o documentário, o tempo acaba sendo sempre positivo, porque você pode continuar a pesquisa.
No início do projeto, a gente se preocupou muito em trazer para todas as áreas do filme pessoas apaixonadas por música black, ou pelo soul. Alguns materiais só existiam na Cinemateca, e a gente conseguiu um material muito importante, meio inédito. Esse tempo todo, a gente foi futucando, futucando. Achamos o material do Gerson King, que não tinha sido telecinado no Arquivo Nacional. A gente telecinou, e aí ele apareceu no filme do Gerson King, antes até do nosso.
Mas também, por outro lado, a gente teve o material da ZDF. Na época a gente sabia que esse vídeo existia, e a ZDF não tinha interesse em telecinar. Mas, com o passar dos anos, eles já tinham telecinado, e a gente pôde voltar nesse material.
Além disso, tem um acervo muito importante da negritude brasileira, que é o acervo do Dom Filó. Ele é uma peça-chave do filme também, para a parte musical, além deste material da Beatriz Nascimento. Outra vontade nossa, desde o início, era de trazer filmes brasileiros — dos anos 70, principalmente —, que ou tocassem na temática, ou tivessem sido por feito por diretores negros. De certa forma, esse cinema era a criatividade brasileira naquele momento.

Como você acredita que se se resolveu o paradoxo de criar uma identidade tipicamente brasileira a partir de um gênero de raiz norte-americana?
Flávio Frederico: O movimento negro americano irradiou para todo o mundo. Ao mesmo tempo, o movimento de independência dos países africanos também irradiava. Então o Brasil assimila um pouco essas duas coisas. Só que, realmente, quando vejo o Tim Maia trazendo o soul, ou então o Jorge Ben com suas experiências, ou até o Tony Tornado, percebo imediatamente que se trata de um soul brasileiro. É algo raríssimo, mesmo quando é cantado em inglês, no caso do Gerson King. Ainda assim, é um inglês de Madureira, né?
O Jorge Ben já trazia uma brasilidade a partir das raízes africanas, porque o soul também tem influência direta da África. O soul é um triângulo musical que conecta África, Estados Unidos e Brasil. E o brasileiro deu seu próprio toque. O grande artífice disso é o Tim Maia, até porque o Jorge Ben já descamba rapidamente para o samba rock, que vira um subgênero. Mas o Tim experimenta muito coisa, com a qualidade musical dos grandes músicos, né? Todos eles transformam esse som americano em algo diferente. O som brasileiro é outra coisa.

Percebe uma influência forte destes pioneiros na música negra feita no Brasil hoje?
Flávio Frederico: Na verdade, esse movimento soul acabou dando origem ao hip-hop. Até porque, no final dos anos 70, no início dos anos 80, a disco music solapa o soul. Então, tem a explosão dessa outra revolução que é o hip-hop, mais em acordo com aquele momento histórico ali. Ele corresponde à tecnologia daquele momento, e dialoga com a dinâmica da violência das favelas. Mas o hip hop bebeu do soul. Então vem o funk carioca, e assim por diante. São vertentes muito diferentes, mas todas elas vieram do soul.
Hoje em dia, ainda existe aquilo que alguns chamam de neo-soul. São artistas jovens fazendo um trabalho de soul mesmo, como é o caso do Mahmundi. Mas, certa forma, isso influenciou toda a música negra que veio depois. Como o Dom Filó fala no filme, até o samba bebeu um pouquinho dessa fonte. A black music penetrou inclusive a MPB. Atualmente, o hip-hop virou o grande carro-chefe dessa cultura negra e periférica, e influencia todo o resto.

Alma Negra também expõe de maneira incisiva o racismo brasileiro e esse mito da cordialidade. Por que quis incluir depoimentos tão francos e dolorosos a respeito?
Flávio Frederico: Desde o início, isso era algo importante na nossa proposta. A partir do momento que a Mariana entra no projeto como roteirista, a gente força mais nessa direção do movimento negro e da luta anti-racista. Para mim, a questão anti-racista é algo essencial. Como cineasta, não posso me calar diante disso. Por isso, eu entendo que o filme tem um lado muito pesado mesmo. Talvez se pense que um documentário musical não deva ter esse lado pesado, mas era importante para a gente ter esse lado pesado mesmo, porque é algo chocante.
O depoimento do Tony Tornado foi histórico. Eu nunca vi ele contando estas histórias exatamente com essas palavras, porque ali ele afronta a Globo. Ele é contratado da emissora, né? A Zezé também fica muito emocionada naquela lembrança. É absurdo escutar aquilo hoje em dia, mas você vê como era na época. Se você for olhar hoje em dia, este racismo ainda está lá. É evidente que evoluímos muito. A gente até usa aquele depoimento da Zezé Motta dizendo que as coisas evoluíram — não tanto quanto a gente gostaria, mas evoluíram, porque agora existem leis.
O maior problema continua sendo o racismo estrutural, que não é pego pela lei. É o racismo que a gente não vê: só quem vê é a população negra. Isso está implícito em pequenas atitudes, em bloqueios, em situações que a pessoa não consegue avançar na vida dela, na carreira dela, etc. Mas, ao mesmo tempo, tem a questão das cotas, por exemplo. As universidades mudaram totalmente em relação à época em que eu estudei na USP, por exemplo. Então existe uma evolução, ainda que lenta.

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