
A reconstituição histórica dos fatos levando à criação da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) pode não soar como a proposta mais sedutora para uma sessão de cinema. Caso esta fosse a aula de um curso universitário, um professor mais cartesiano poderia privilegiar as datas, as principais instituições, nações e líderes envolvidos na batalha econômica e política daquele período. Popularmente, é comum pressupor que acontecimentos deste porte necessitem da compreensão mais fatual, fria e “imparcial” possível — nada mais do que uma ilusória sucessão de acontecimentos.
Ora, Um Calendário Incompleto oferece uma viagem alucinante pela geopolítica mundial entre os anos 1950 e 1970. A diretora Sanaz Sohrabi começa com um coral, entoando canções típicas do folclore iraniano. Analisa a música, os instrumentos, a vestimenta dos cantores. Em seguida, revela ao espectador algumas revistas a respeito da OPEP, e um livro ilustrado sobre o tema. A imagem promove uma sobreposição destes arquivos enquanto, na pequena tela-dentro-da-tela, um vídeo prossegue com a melodia anterior. Nas cenas seguintes, selos, envelopes e cartas se unem à pilha (literal) de objetos reunidos. O foco da direção parece residir precisamente nos elos inesperados entre pequenos objetos e grandes acontecimentos políticos, ou ainda, entre um pequeno coral (destinado a entoar as músicas da OPEP) e o xadrez político global.
Um Calendário Incompleto se dedica a enxergar a poesia na geopolítica, e a geopolítica da poesia. Pensa, em paralelo, no “projeto de Terceiro Mundo” das superpotências.
Deste modo, a História se torna concreta. É muito mais simples compreender as escolhas artísticas para o teto de uma sala de concertos na Venezuela do que todas as motivações de Irã, Iraque, Arábia Saudita e tantos outros em retirar o dólar da valoração do petróleo. É mais factível seguir o caminho de um selo raro, com a ilustração dos dutos petroleiros, do que mergulhar nas pressões religiosas e políticas que levariam ao fim do grupo enquanto conceito de unidade democrática. Busca-se o palpável, o acessível, o cotidiano. A cineasta abre cartas e filma o interior dos envelopes; arranja os papéis na mesa com as próprias mãos; filma um venezuelano lendo um poema libanês diante de uma plateia vazia. Os ícones e símbolos estão ao alcance do olhar e das mãos. Mesmo os raros letreiros são digitados na tela, enquanto percebemos o cursor piscando sobre o fundo preto.
Em paralelo, testemunhos de pensadores se convertem em conversas em off. Há espaço para ironia, sarcasmo, mudanças de opinião durante a fala, conforme representantes dos países mencionados refletem acerca daquele momento. Novamente, discutem a partir de aspectos metonímicos — as partes capazes de representar o todo. Uma pequena foto tirada no Cairo, no instante em que fracassou o projeto de um socialismo egípcio, é colada ao vidro de um carro, permitindo enxergar a cidade capitalista através das transparências. As estratégias de comunicação se mostram surpreendentes, atípicas. Retiram-nos da expectativa de solenidade e rigidez, comumente associadas ao peso histórico de fatos graves. Felizmente, o despojamento se equilibra com a responsabilidade ética da pesquisa em arquivos.
Mais do que isso, o longa-metragem introduz uma inusitada poesia, face a uma temática tão árida. Trata-se de um lirismo estético, forjado por meio dos enquadramentos, sons, e da duração dos planos. Sohrabi demonstra seu encantamento com o projeto de união entre América Latina, África e Oriente Médio, destinado a enfrentar as potências colonizadoras. Por isso, a montagem valoriza a voz de uma entrevistada que admira a beleza de uma cantora árabe, enquanto admite a incompreensão das letras entoadas. Relembra o canto de latino-americanos em farsi a partir de uma memorização fonética. Concentra-se na diagramação das revistas, na estética do disco com canções do coral da OPEP. Transforma seus capítulos em notas de rodapé, por meio de uma formatação tipicamente literária. Pensa o teto da casa de concertos enquanto projeto político, e utiliza a sombra de um espelho como forma de intervenção num museu. Isso sem falar na piscina de petróleo, evidente símbolo de uma riqueza contestável nos dias atuais.
Um Calendário Incompleto se dedica a enxergar a poesia na geopolítica, e a geopolítica da poesia. Sugere que o desmantelamento da OPEP teria ocorrido durante um desfile, de evidente vocação performática, enquanto busca as raízes politicamente estratégicas do nascimento do coral. Pensa, em paralelo, no “projeto de Terceiro Mundo” das superpotências, na definição de modernidade, na maneira como a consolidação do capitalismo extinguiu propostas de cooperação e coletividade. Reflete acerca de “imagens que precisam ser ouvidas” e “cidades que engoliram imagens”, enquanto expande o conceito de que “a verdadeira OPEP é seu povo”. Impressiona a habilidade de saltar entre tantos temas e elementos, sem soar presunçosa ou aleatória. A montagem consegue unificar tais estímulos num percurso coeso, graças às colagens e composições.


Em outras palavras, o filme faz prova de uma ambição singular, e invejável domínio do seu tema. A narrativa nunca se torna árida, presa a jargões, nem apela para a cronologia enquanto justificação de acontecimentos (a falácia de pensar que a sucessão entre dois eventos implica numa relação de causalidade entre eles). Pelo contrário, prefere representar tamanha complexidade por meio de singelos indícios. A autora parte do micro para o macro — nunca o contrário. Na ausência de imagens de arquivo em alta resolução, restringe-os a um pequeno quadrado, ao passo que constrói seus próprios mapas e calendários via mosaico de cartas e selos. Na contramão dos documentários endinheirados, que manipulam digitalmente todos os seus materiais, preserva um aspecto analógico que também nos aproxima desta realidade.
Ironicamente, a iniciativa se torna ainda mais relevante no ano em que testemunhamos a grave invasão da Venezuela pelos Estados Unidos, além da guerra no Irã, e os ecos da invasão ao Iraque nas novas ameaças de conflitos. Um derradeiro elemento permitindo a identificação do espectador com o discurso reside na proximidade dos questionamentos com os noticiários atuais. Quem diria que um coral árabe dos anos 1950 estaria tão relacionado à política de Trump, à ascensão da extrema-direita, aos modelos totalitários? Por fim, abordar o petróleo equivale menos a discutir comércio internacional do que modelos de coletividade. São formas de se organizar e pensar no futuro, entre estatizar e privatizar, entre disponibilizar para todos ou concentrar riquezas. Os selos e cartas, por fim, são uma questão de ideologia.




