
Exceto por uma pequena inserção inicial no escuro, referente ao ensaio de um texto artístico, Adulto/Homem é inteiramente composto por um único plano — um travelling lateral lentíssimo, de 70 minutos, diante dos rostos de 20 homens sentados lado a lado. Eles esperam por sua vez num teste de elenco, enquanto refletem, em voz over, a respeito dos prazeres e das dificuldades da profissão de ator. Discutem as inseguranças dos testes de seleção, a angústia pela espera dos resultados, a precariedade desta atividade. Ao mesmo tempo, ressaltam a paixão pelo ofício, repetindo frases como “Eu realmente vejo a beleza da vida através do teatro”, e “Eu não saberia fazer outra coisa”.
De certo modo, o diretor Pedro Diógenes transmite uma visão afetuosa do cinema de trupe. Convoca alguns dos seus principais colaboradores, tanto atrás das câmeras (a produtora Caroline Louise, o diretor de fotografia Ivo Lopes Araújo) quanto no elenco (Brunu Kunk, Yuri Yamamoto, David Santos). A montagem inclusive preserva as falas em off do próprio cineasta, conversando com estes personagens-amigos, num misto assumido entre personagens fictícios e atores. Juntos, discutem os entraves do trabalho artístico. Algumas falas são verdadeiramente divertidas, quanto atingem este patamar de papo de bar, enquanto outros convidados demonstram maior pudor em se abrirem de maneira íntima.
Enquanto discussão profissional e vocacional, o resultado se prova tão eficaz quanto singelo. As conversas são curtas — cada testemunho dura poucos minutos, em pequenas frases —, e giram em torno de questões bastante específicas (as seleções, a insegurança, a perseverança na área). Obviamente, muitos temas correlatos poderiam se misturar às digressões: os editais, questões raciais e de identidade, os métodos de preparação, a remuneração, etc. Em contrapartida, a narrativa raramente estabelece um diálogo propriamente dito. Em diversos instantes, aproxima-se do monólogo improvisado, confessional, no qual os atores tecem comentários espontâneos sobre qualquer apontamento que lhes passe pela cabeça. Que demais interações eles poderiam oferecer ao filme, caso conversassem um com o outro? Se pudessem contestar e completar a fala alheia?
Adulto/Homem possui plena consciência de sua pequenez. Mas esta iniciativa soa como a semente de algo maior.
De fato, a impressão inicial de um naturalismo extremo (os homens sentam e esperam, simplesmente) logo adquire ares menos realistas. Afinal, passado o primeiro ator, chamado para entrar na sala de testas, esta fila não aparenta andar. Nenhum nome é solicitado pelos assistentes (não existe som direto neste caso), e os candidatos jamais interagem entre si. Raramente olham para os lados, e nem mesmo se levantam para irem ao banheiro. Evitam qualquer manifestação de impaciência, ansiedade, curiosidade a respeito do que se passaria na sala de testes, fora de quadro. Resumem-se a um catálogo de atores, literalmente, cujos rostos são oferecidos ao espectador enquanto forma de apresentação. Aparentam, assim, revelar seus tipos físicos para nós, espectadores, como se nós comandássemos este teste de elenco.
Adulto/Homem corre o risco de concentrar em sua banda sonora uma discussão muito mais interessante do que a imagem pode comportar. Afinal, nos testemunhos em voz off/over, e nas diferentes leituras do trecho de Teobaldo Morto, Romeu Exilado (2015), fazem prova da infinidade de entonações e interpretações a partir das mesmas frases. A comunhão de artistas e o encantamento pela profissão residem unicamente na porção sonora. Quem dera a imagem, comportada e rígida, se dispusesse a brincar de maneira semelhante. Quantas interações poderiam ocorrer dentro de um único plano-sequência? Que sugestões fora de quadro poderiam existir, caso os criadores apostassem no som direto? O que aconteceria se as luzes mudassem, se o rígido deslizar da câmera se interrompesse, ou alterasse a velocidade? (O mínimo solavanco após a passagem por David Santos sugere alguma transformação do gênero, ainda que a imagem siga seu percurso inabalável).
Ao espectador, a empolgante curiosidade inicial se dilui quando se percebe que o filme inteiro seguirá um único estímulo, um único ritmo e dispositivo, do primeiro ao último minuto. Ainda que as falas despertem interesse, caberia à manufatura estética explorar a dinâmica desta cena-filme, além das possibilidades de desenvolver e aprofundar seu conceito unitário. Adulto/Homem possui plena consciência de sua pequenez, e do alcance que pode obter a partir de um conceito tão simples. Justamente por isso, não busca nada mais do que esta fagulha de deslumbramento diante de tantos rapazes, que representam alguns dos nomes mais importantes do cinema e teatro contemporâneos no Ceará. (Aliás, porque apenas homens, e não mulheres? Os relatos delas certamente trariam dilemas distintos e enriquecedores ao painel).


No palco do Olhar de Cinema, Pedro Diógenes relembrou, com orgulho, que o filme foi realizado sem nenhuma verba pública, nem privada, e que as filmagens ocorreram durante uma única tarde. Assim, felicita-se pela possibilidade de seguir em movimento, filmando, criando, e rompendo com o habitual sistema de complexa captação, produção e finalização. Nota-se um posicionamento político firme na disposição a encontrar brechas no modus operandi tradicional. A principal astúcia do longa-metragem reside em sua própria existência, reduzida ao mínimo denominador comum do cinema. Constata-se que sim, é possível efetuar um projeto audiovisual em tempo recorde, a partir de meios limitadíssimos. Em paralelo, esta obra pode contar com imagens competentes (as luzes contrastadas e as cores fortes de Ivo Lopes Araújo), além de um trabalho muito profissional de som, por parte de Tiago Campos e Breno Furtado. Em nenhum momento o pequeno escopo se confunde com amadorismo.
Em contrapartida, esta iniciativa soa como a semente de algo maior. Um pontapé, um teste da capacidade de realizar arte em tais condições. Passada a confirmação de sua hipótese, cabe imaginar o potencial que Diógenes e outros criadores poderiam atingir a partir de uma estrutura semelhante. De que forma a única tarde, com alguns atores, poderia dar origem a interações cênicas, narrativas, sonoras e imagéticas ainda mais instigantes? Como os atores, tão competentes e proativos, poderiam ocupar e subverter a rigidez do travelling? De que maneira as diferentes profundidades de campo poderiam ser utilizadas, além do espaço fora de quadro, e das sugestões sonoras em off? Como o mundo lá fora entraria nesta perspetiva? Muito ainda pode ser feito, preservando o núcleo diminuto de dramaturgia e cinematografia. O baixo orçamento e a agilidade do processo não nos impedem de pensar em voos maiores.




