Quase Inverno (2026)

Autoimportância

título original (ano)
Quase Inverno (2026)
país
Brasil
gênero
Drama
duração
93 minutos
direção
Rodrigo Grota
elenco
Simone Iliescu, Ondina Clais, Luiza Quinteiro, Guilherme Kirchheim, Erom Cordeiro, Esther Góes, Fernando Alves Pinto, Sabrina Greve, José Maschio
visto em
15º Olhar de Cinema (2026)

Para além de uma trama, Quase Inverno possui uma atmosfera, um imaginário bastante preciso do que significa um drama intimista. Assumidamente inspirado em Tchekhov, o longa-metragem também busca se inserir na linhagem de projetos que mergulham na psique feminina e nas angústias das altas classes — a exemplo dos clássicos de Bergman e Antonioni. Estes referenciais aparentam servir de base para certa postura de rigidez e solenidade, que atravessa a obra na íntegra. A dificuldade de nos conectar com os personagens reside, de imediato, na escolha da direção em limitar seus personagens a arquétipos de outros tempos (a mulher experiente e libidinosa, a jovem frágil e virginal, etc). Por isso, nunca se assemelham a indivíduos verossímeis.

A este propósito, os grandes autores citados acima obtiveram êxito em sua exploração humana porque descreveram em detalhes a subjetividade de cada personagem — sua história, seus objetivos, seus traços de personalidade, seus amores, seus traumas. Em consequência, ações bruscas ou violentas se justificavam aos nossos olhos. Ora, no caso paranaense, estas figuras jamais são trabalhadas a contento. É difícil compreender de onde vem a indiferença materna de Catarina (Ondina Clais), a rigidez excessiva de Elena (Simone Iliescu), os ataques e crises de Valentina (Luiza Quinteiro). Se tal indefinição atinge as protagonistas, os recém-chegados à casa (interpretados por Erom Cordeiro, Sabrina Greve, Fernando Alves Pinto) mostram-se ainda mais opacos em suas intenções.

O drama soa desconectado de um cinema contemporâneo, gerando incômodo no retrato dos gêneros, das relações familiares.

A construção se prejudica devido à ausência de conflitos reais. As três irmãs se reúnem devido ao prenúncio de morte da matriarca, entretanto, este conflito se converte num anticlímax, que não interessa de fato à direção — nem quando se concretiza, nem no impacto emocional subsequente. Todos seguem com suas vidas, como se nada tivesse ocorrido na véspera. Assim, a dúzia de personagens se limita a caminhar de lá para cá, de um cômodo ao demais, parando diante da janela para fumar, enquanto contempla a paisagem ao longe. O trabalho de mixagem de som reforça tanto o claque das botas no assoalho de madeira que desperta dúvida quanto à importância que a direção atribuía a estes ruídos insistentes. Mas, em geral, nenhum destes adultos têm nada a fazer, porque não deseja nem planeja coisa nenhuma.

Na ausência de dilemas específicos, colados a subjetividades plurais, eles transparecem uma segmentação incômoda: as mulheres são histriônicas e emotivas, ao passo que os homens representam a ação e a razão. Elas choram, gritam, vivem de picuinhas, enquanto eles sacam armas. A menina (interpretada por uma mulher de 21 anos), em sua inocência, veste-se com saias virginais e roda sem parar, de um canto ao outro. A diva Catarina, solteira e interesseira, relaciona-se com vários rapazes e performa um monólogo aos parentes apáticos. Todos se encontram muito próximos da caricatura de um núcleo patriarcal. O ponto de vista da direção jamais demonstra qualquer tipo de crítica ou subversão desta fórmula.

Ora, algumas vozes poderiam retrucar que a trama se passa nos anos 1970, a partir do espetáculo Três Irmãs, escrito mais de um século atrás. Mesmo assim, este é um filme contemporâneo, do século XXI, que necessitaria de um mínimo distanciamento em relação aos códigos de antigamente. Em paralelo, a textura excessivamente digital e nítida da direção de fotografia prejudica a imersão neste universo de outra geração, enquanto a direção de arte efetua escolhas de figurinos incompatíveis com suas respectivas décadas. As idas e vindas no tempo tampouco são demarcadas esteticamente a ponto de se diferenciarem com clareza. Logo, desperta alguma confusão sobre o paradeiro de cada irmã, seus próximos passos, e o peso das tentativas de suicídio, do possível assassinato e da tirania governamental na tragédia familiar.

A situação se complica diante dos diálogos pomposos, que aspiram a uma profundidade maior do que a magra construção de personagens consegue abarcar. “O tempo vai passar. Nós passaremos e seremos esquecidas”, lamentam as mulheres. “O que a gente precisa é aceitar o ciclo da vida. Morrer, viver…”, pondera outra, antes de reclamar de “você e teu casamento com essa solidão!”. Em surto, a menina repete, a si própria: “Eu não consigo entender nada do que dizem”. Os demais personagens a acompanham na tendência a se expressar através de longos monólogos, a si próprios, a-quem-interessar-possa, posto que os outros ocupantes da casa permanecem entediados em algum sofá ou poltrona. Para um projeto tão dedicado ao texto, teria sido fundamental que a escrita se aprimorasse. O elenco, certamente competente, faz o que pode a partir de frases de efeito que beiram a paródia.

De fato, Quase Inverno se reveste de tamanha autoimportância, tamanha gravidade injustificada pela narrativa, que nunca insere respiros nestas vivências sepulcrais. Nem o humor do desconforto, alguma metáfora do realismo fantástico, ou um elemento próximo do terror, do delírio. Nenhuma ferramenta permite canalizar as violências percebidas pelo diretor como profundas, marcantes, atravessando gerações. Aposta-se numa forma de elegância tão rígida que engessa também as emoções e o trabalho do elenco. As sucessivas imagens de pessoas paradas na janela, das três irmãs posando lado a lado, ou a representação meramente alegórica do sexo (“Pensei que fôssemos íntimos”, dispara a amante perversa) nos afastam tanto do naturalismo quanto da verossimilhança.

Em suma, fica difícil acreditar no sofrimento da matriarca em fim de vida, nos delírios de Valentina, na hombridade dos rapazes, no pretenso erotismo envolvendo Natasha. Falta estranhamento à mise en scène, ou alguma disposição para se sujar, dentro deste quadro tão perfeitamente arrumado, ornado, e obsessivamente desenhado em silhuetas via contraluz. O drama soa desconectado de um cinema contemporâneo, gerando incômodo no retrato dos gêneros, das relações familiares, e desta época em particular. Ele nem ilustra de maneira eficaz os tempos da ditadura militar, nem acena às conexões entre as opressões de antes e aquelas do Brasil atual. 

Quase Inverno (2026)
2
Nota 2/10

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