Uma Infância Alemã (2025)

Nazismo e conciliação

título original (ano)
Amrum (2025)
país
Alemanha
gênero
Drama
duração
93 minutos
direção
Fatih Akin
elenco
Jasper Billerbeck, Laura Tonke, Lisa Hagmeister, Kian Köppke, Detlev Buck, Matthias Schweighöfer, Diane Kruger
visto em
Cinemas

Alemanha, Segunda Guerra Mundial. O pequeno Nanning (Jasper Billerback) sofre com a ausência do pai, enviado ao campo de batalha. Na pequena ilha de Amrum, vive à espera de notícias que indiquem o fim do conflito e o retorno do patriarca. Ao mesmo tempo, testemunha a chegada de exilados ao local, enquanto trabalha para sustentar a mãe grávida e a tia. Conforme escuta diversas súplicas pela queda de Hitler, o menino se sente perdido. Afinal, seu pai luta pelas forças nazistas, e ele foi criado para acreditar que o Führer estaria fazendo o melhor possível para seu país e seu povo. Mas então… seus pais estariam errados? 

Uma Infância Alemã corresponde a uma fábula de perda da inocência e passagem à fase adulta (coming of age) através de uma experiência traumática. De repente, o garotinho bondoso e dedicado começa a suspeitar que seus pais não sejam as figuras mais caridosas do planeta. Duvida das qualidades do líder austríaco, e começa a compreender a rejeição das outras crianças em relação à sua família. Depara-se com a fome, o suicídio, os assassinatos — ele próprio precisa matar animais para alimentar as mulheres de casa. Os ditames nazistas, que sempre interpretou como a ordem natural das coisas, começam a despertar algum estranhamento. Talvez seja estranho o padeiro ter perdido um dos braços na guerra. Talvez haja um motivo para tantos homens da região terem se mudado para Nova Iorque.

Logo, embora parta do olhar do desconhecimento (coincidindo com aquele do espectador, a quem se explica o contexto histórico de modo simplificado), o projeto aborda traumas profundos da Alemanha. Por isso, seria esperado que o horror daquele período se transmitisse através da estética do drama, contaminando a vida idílica do vilarejo de baleeiros. Ora, aí reside o elemento mais perturbador do novo filme de Fatih Akin: não a guerra, nem as mortes, mas a linguagem paradisíaca empregada para representar um extermínio. Durante a maior parte da narrativa, a câmera se concentra em praias ensolaradas e campos esverdeados. Os dias estão sempre dourados, e os personagens se destacam perfeitamente do fundo, tais quais modelos de um spot publicitário.

O que um cineasta experiente como Akin teria visto representação do nazismo pelo filtro da conciliação e dos bons sentimentos?

O esmero da direção de fotografia de Karl Walter Lindenlaub (responsável por projetos hollywoodianos como Independence Day e Anjos da Noite: Guerras de Sangue) se traduz num profundo embelezamento da miséria. A ilha sofre com a falta de mantimentos básicos. Não se encontra farinha de trigo, mel, manteiga, ovos. Os personagens sonham com alguma proteína, precisando recorrer à caça e pesca. Mesmo assim, o diretor de fotografia registra esta região como se Nanning vivesse as melhores férias escolares da sua vida. Ao invés de cadáveres e animais mortos, parece que vai encontrar uma menina por quem se apaixonará, a cada cena. A maneira de filmar o rosto angelical do menino, as roupas asseadíssimas do elenco, e a paisagem bucólica de Amrum minimizam a carnificina da guerra. Pior que do isso, convertem-na num pano de fundo distante, alheio, apartado da realidade.

Lindenlaub vai além: durante a madrugada em que o menino visita a praia, opta por uma luz estranhíssima — uma provável noite americana, decorada por refletores e fontes de luz incompatíveis com o naturalismo. O céu brilha, o horizonte está iluminado, a areia da praia reflete a água do mar. A grande lua cheia (provável acréscimo digital em pós-produção) reforça a aparência de uma artificialidade fantasiosa. Durante o sonho com o tio, a luz se faz ainda mais superexposta, como se o jovem protagonista tivesse chegado aos céus. É difícil apontar uma única cena em que o tumulto interno do menino se transmita na natureza ao redor, ou reflita na sua percepção de mundo. Mesmo os instantes pontuais de violência gráfica — o tiro na foca, o testemunho de um suicídio — ocorrem por meio de bela luz natural, de uma preocupação em tornar o instante palatável e inofensivo ao público. Denuncia-se a guerra dentro de uma incômoda estética do feel good movie.

Em paralelo, conveniências narrativas aproximam a emancipação do menino do heroísmo e da masculinidade clássicos. Não basta reavaliar sua confiança na virtude paterna; ele precisa literalmente salvar o menino que o maltratava, e ser admirado pela garota da sua idade. Não basta estar presente para a mãe; ele ainda limpa as vísceras de animais e conquista a admiração dentro de casa. Não basta conseguir o sonhado pão com manteiga e mel para a mãe grávida; ele ainda se descobre macho ao bater no irmãozinho incapaz de compreender os esforços empreendidos nessa tarefa. Torna-se adulto equivale a tornar-se bruto, a vencer outros rapazes e ajudar um feminismo frágil, delirante, hormonal. Nanning se converte em sujeito de ação, enquanto as mulheres e meninas da narrativa somente lamentam os acontecimentos.

A comprovação do modelo hollywoodiano opera por meio de outras conveniências e improbabilidades. O parto da mãe simultaneamente à notícia traumática da morte de Hitler. Ao abrir um álbum de retratos, a fotografia que se descola e cai no chão corresponde àquela relacionada a um trauma familiar. Todos os adultos encontrados por Nanning nas lindas estradas de areia lhe oferecem valiosas informações ou lições de vida. Paira a noção de uma obra utilitária, tão focada nas virtudes e valores (o bem e o mal, a inocência e a malícia, a fé e a razão) que dispensa uma inserção social e histórica deste conflito determinante do século XX. Por isso, as acusações de que o garoto nascido em Hamburgo seria “continental”, e portanto, estrangeiro à ilha, resultam fortuitas. O mesmo pode ser dito das próprias circunstâncias da guerra, que nunca causam alarde nestes adultos apáticos de Amrum.

O final ainda apela a outros ornamentos melodramáticos — o pôr do sol, a câmera lenta, a leitura de cartas inspiradoras em off. Nenhum recurso sentimental das histórias de formação está ausente deste filme polido e doce como um bombom de vitrine. Se não fosse pelas boas atuações, tanto do elenco infantil, quanto dos veteranos, poderia resultar numa exploração emocional, e uma romantização da guerra, ainda mais problemática. Cabe imaginar o que um cineasta experiente como Akin teria visto nesta proposta de enxergar o nazismo pelo filtro da conciliação e dos bons sentimentos. Uma Infância Alemã acredita que o autoritarismo pode ser vencido mediante amor ao próximo, ou um acesso súbito de caridade. Trata-se de uma perspectiva ainda mais inocente do que aquela de seu garotinho. Após tantas obras retratando o período, espera-se que sua representação cinematográfica se complexifique, ao invés de se simplificá-lo ao limite do contraproducente.

Uma Infância Alemã (2025)
4
Nota 4/10

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