
Cinco da Tarde busca inspiração na magia do cotidiano. Acredita nos instantes de beleza entre duas jovens, trocando conversas simples, no interior de apartamentos silenciosos. Elas são solitárias, mas também bastante afetuosas nas poucas oportunidades de interação que lhes aparecem. Por isso, conversam tanto a respeito de acontecimentos importantes — Anabel (Bárbara Luz) acaba de perder a avó; Meiko (Sharon Cho) perdeu a mãe — quanto de banalidades do dia a dia (a disponibilidade de chá verde em casa, a melodia de uma cantiga infantil, a receita de um doce japonês).
O diretor Eduardo Nunes privilegia um cinema acolhedor em relação aos tempos mortos e aos minúsculos processos destas vivências. Assim, a montagem de Flávio Zettel inclui longas cenas que, na maioria dos filmes, seriam suprimidas ou encurtadas em nome da agilidade. Os criadores valorizam os olhares perdidos ao longe; os silêncios confortáveis ou constrangedores; além de inúmeras portas se abrindo e fechando. Em geral, as personagens estão sentadas no sofá, ou de pé na cozinha, sem efetuar nenhuma ação de fato. Nenhuma delas precisa fazer nada, tampouco possui planos ambiciosos a concretizar. Apenas passam o tempo, na presença uma da outra, descobrindo certa complementaridade — uma simbiose tácita.
Trata-se de uma versão do naturalismo por parte de um autor que sempre amou a máxima ingerência no mundo.
Mais do que isso, o autor procura a abertura ao acaso. O longa-metragem investe em comportamentos abruptos por parte das protagonistas que nos soavam, então, bastante cuidadosas. “Posso entrar?”, pergunta Anabel, diante da casa da vizinha desconhecida. Adiante, a outra lhe responde, de supetão, “Você quer passar uns dias aqui?”. A dança ao som de uma canção familiar se converte num instante inesperado para as protagonistas, assim como as conversas com a mãe e avó falecidas, ainda perambulando pelos apartamentos tristes. Anabel invade a casa de outra, violentamente, tirando os sapatos e se jogando no sofá. Depois, dispara à mãe alheia: “Como foi perder o seu marido?”, antes de se arrepender da pergunta invasiva. Os autores são seduzidos por certo grau de espontaneidade, em decorrência do alto grau de intimidade desenvolvido entre as heroínas.
Em contrapartida, as escolhas estéticas de Cinco da Tarde soam simetricamente opostas às ambições detalhadas acima. Para a perspectiva de leveza e delicadeza, aplica-se uma linguagem rigidamente controlada. Para a impressão de espontaneidade, recorre-se a movimentos de câmera e diálogos afetados. Logo, o preto e branco bastante contrastado do diretor de fotografia Mauro Pinheiro Jr. prenuncia uma estetização do real. Os fortes contraluzes (favorecidos pelas janelas da sala e da cozinha) acentuam as silhuetas e reforçam a impressão de isolamento de Anabel e Meiko. Em alguns planos, elas estão paradas na sala, esperando a câmera deslizar na frente de uma e de outra. Conforme a jovem prova um iogurte, a câmera avança em sua direção. A mise en scène insiste em chamar atenção a si própria.
As conveniências narrativas reforçam a artificialidade deste encontro casual. Por acaso, a avó falecida de Anabel sempre comprava flores na floricultura de Meiko. Por acaso, esta última ensinou a receita de um doce à mulher idosa. Por acaso, ambas conhecem uma rara cantiga japonesa. Por acaso, ambas sofrem com a perda de mulheres importantes em sua vida. Por acaso, ambas estão sozinhas em apartamentos simétricos, do mesmo prédio. Por acaso, estão sempre disponíveis para a outra, no momento desejado pela visitante. Estas rimas narrativas terminam por minar, precisamente, a impressão de acaso. Pode-se falar com mais facilidade de um destino, visando uni-las de modo a aliviarem suas dores. Até a estrutura do roteiro é friamente desenhada — vide o término, num plano que passa pelo aquário e termina na sala de estar, atualizando a imagem inicial da trama.
Em paralelo, os diálogos escritos para favorecer a impressão de coloquialidade se posicionam alguns graus acima da linguagem oral. As gaguejadas são claramente escritas, assim como as respirações ofegantes de Anabel quando perguntada sobre sua avó. “É sempre muito difícil perder uma pessoa que amamos”, declara-se com certa pompa; entre falas entrecortadas do tipo “Você tá bem?”, “Acho que sim”, “Não é fácil”. A espontaneidade se faz tão controlada, escrita e ensaiada, que oprime qualquer risco ou aresta real na interação cênica entre as duas atrizes. Elas estão tão comprometidas, compostas e preparadas que afastam precisamente o teor de amizade espontânea que se parecia almejar.


Mesmo as intromissões das parentes falecidas navegam entre a naturalidade — as atrizes interagem normalmente dentro dos espaços dos apartamentos —, e certo mistério quanto às suas intenções, e momentos de partida. Cinco da Tarde encanta-se com uma ideia da beleza do real, sem a intenção de apreendê-lo enquanto tal, da maneira mais crua possível. Pelo contrário, enfeita suas luzes, interfere nos contrastes, condiciona teatralmente as atrizes, e pontua no roteiro cada hesitação do diálogos. Trata-se de uma versão do naturalismo por parte de um autor que sempre amou a máxima ingerência no mundo, via manipulação de cores, da janela da imagem, e do aspecto fabular das tramas. Por isso, esta proposta de uma tarde qualquer, dentro de um mecanismo tão elegantemente ornado, resulta num paradoxo conceitual.
Certo, o drama traduz uma busca interessante para um diretor tão ostensivamente cinéfilo, e apaixonado pelas possibilidade de manejar a imagem, tal qual um escultor audiovisual. Este longa-metragem se mostra bastante diferente de Sudoeste (2012) e Unicórnio (2018) — algo positivo para um criador sem a intenção de se repetir. Em contrapartida, ainda precisa resolver, em termos de linguagem, esta procura quase incompatível, sedutoramente antagônica, de ser profundamente real e profundamente plástico; de abraçar a máxima casualidade junto da máxima solenidade. Resta na memória, sobretudo, a ousadia de um exercício incomum de linguagem cinematográfica, em detrimento da história de duas jovens em processo de luto.




