Cristais de Sangue (1975)

O enigma permanece

título original (ano)
Cristais de Sangue (1975)
país
Brasil
gênero
Fantasia, Drama
duração
83 minutos
direção
Luna Alkalay
elenco
Fernando Peixoto, Emmanuel Cavalcanti, Ruy Polanah, Salma Buzzar, Tuna Espinheira, Claudia Mello, Clodomiro Bacellar, Yara Espinheira, Waldemar Santana
visto em
21ª CineOP (2026)

Cristais de Sangue pode ser descrito como um filme misterioso, por diversas razões. Ao apresentar a sessão deste seu primeiro longa-metragem, a cineasta Luna Alkalay admitiu ter trabalhado quase unicamente com metáforas, visando driblar a censura do regime militar. Pontuou que o africano chegando a Mucugê, em busca do pai minerador, significa muito mais do que um estrangeiro — e que o mesmo valeria para o coronel e seus capangas, encontrados no caminho. Entretanto, o projeto nunca precisaria esclarecer o que eles representam porque, na avaliação da autora, todo mundo entende o que eles são.

Além disso, a narrativa é filmada de maneira críptica. O protagonista leva longuíssimos minutos até ser ter rosto revelado — e, mesmo assim, quase nunca é retratado em close-ups. O diretor de fotografia Aloysio Raulino prefere valorizar os amplos espaços, restringindo os personagens a meras silhuetas na imensidão. Em paralelo, a montagem de Plácido de Campos Jr. não demonstra a menor pressa em avançar ao conflito seguinte. Segura longamente os planos, como se alguma ação estivesse prestes a transformar a caminhada de Rui (Rui Polanah) e Maria (Salma Buzzar) — mas nunca transforma. Ambos perambulam a esmo pelo território, de modo que a pretensa investigação da figura paterna jamais se concretiza enquanto tal.

O tom transita entre a seriedade e o delírio, entre a recriação dos fatos e o pastiche dos mesmos. Mas talvez o maior desafio resida na qualidade do som.

O tom também transita entre a seriedade e o delírio, entre a recriação dos fatos e o pastiche dos mesmos. Ocasionalmente, os planos aéreos de garimpeiros nas águas avermelhadas soa como uma denúncia realista do impacto desta prática. Algumas cenas depois surge um tiroteio paspalhão, sem nenhuma verossimilhança, introduzindo um punhado de mortes de faz-de-conta. Às vezes, a personagem feminina denuncia violações de direitos humanos diretamente à câmera (“Aqui, durante noventa anos, os negros dos quilombos foram mortos”), mas em outros instantes, comunica-se por meio de uma poesia etérea (“Tenho esses olhos cegos, sem órbitas”). Ela se contradiz, de modo mais ou menos consciente, esta condição de hippie burguesa. Os personagens são graves e satíricos, verossímeis e caricatos.

Adiante, a trama literalmente incorpora o elemento de uma maldição, cuja ruptura dependeria de uma tragédia. Os tempos se embaralham (os dias se passam, enquanto os personagens mantêm o figurino único); as geografias se perdem (os heróis caminham, caminham, mas nunca saem daquele local); e as motivações se alternam (entre o romance e a competição, a rivalidade e os laços de conveniência). É difícil determinar quem exatamente procura o quê, com quem, e contra quem. Sua linguagem teatral (o diálogo com a plateia, rompendo a quarta parede) aparenta contrariar a necessidade de estar in loco, na terra precisa da extração de minérios, valorizando com tamanho afinco os cenários reais de Mucugê. Há paixões e ódios em jogo, embora estejam direcionados a alvos variados. Cristais de Sangue resulta, deste modo, numa obra voluntariamente opaca. 

Mas talvez o maior desafio para o espectador, diante de tal configuração, resida na qualidade do som. O projeto foi exibido durante a 21ª CineOP, em cópia restaurada. De fato, a imagem resgata as cores fortíssimas da direção de fotografia, valorizando o contraste, a nitidez, e apagando as marcas do tempo sobre a película original. Entretanto, o som não aparenta ter sido preservado da mesma maneira. Ignora-se a qualidade em que se encontravam os áudios originais, assim como a possibilidade concreta de limpá-los, trazendo-os de volta ao patamar de 1975. Mesmo assim, aproximadamente metade dos diálogos durante a sessão na mostra mineira eram incompreensíveis. 

Logo, o personagem do coronel efetua uma longa tirada, sentado à mesa, sozinho em seu calvário. Devido à extensão do plano, e ao momento da narrativa em que se insere, aparenta ser fundamental à compreensão do conjunto. Algo semelhante ocorre no segmento da bravata sobre o cavalo, contra as forças da ordem, em plano aberto. Impossível entender ao certo o que o homem grita ao seu desafeto, precisamente durante o clímax da jornada. Em meio a algumas falas enigmáticas nos botecos da região, escutam-se palavras esparsas: “Maldito africano…”. Haveria mais indícios de um racismo sistêmico, perdido devido às lacunas do som? Ora, a plena percepção destas falas, em uma obra tão pautada pelos diálogos, teria sido fundamental.

Não é possível culpar o sistema sonoro da sala de cinema em que se deu a exibição. Diversos projetos foram projetados ali, antes e depois desta fantasia, sempre com resultados excelentes. Tampouco se poderia atribuir a responsabilidade à capacidade de restauro. Outros filmes preservados — a exemplo de Vento Norte e Xica da Silva — tiveram projeções durante a mostra mineira, com um som claríssimo. Durante a explicação dos processos de preservação, os responsáveis afirmaram que, da maneira como se encontravam as falas nos materiais de base, alguns diálogos se perdiam na interpretação do público. No entanto, a digitalização e correção teria resgatado as intenções do roteiro.

Logo, a sessão de Cristais de Sangue despertou a inesperada impressão de assistirmos a um filme estrangeiro, cuja língua dominamos razoavelmente, apesar de desconhecermos parte considerável das palavras. Seria necessário restaurar esta cópia restaurada ou, ainda, avaliar a possibilidade de aprimorar o registro sonoro do filme. A obra certamente merece tal investimento e dedicação. Não há dúvidas que existe uma abordagem preciosa no filme inaugural de Luna Alkalay. Entretanto, a experiência se prova parcial, como se o público tivesse assistido ao filme sem destrinchá-lo por completo, permanecendo alheio à riqueza de sua iconografia. Testemunhamos uma parte das qualidades do longa-metragem e, mesmo certos da existência de tantas preciosidades nesta obra, não houve a possibilidade de alcançá-las.

Cristais de Sangue (1975)
6
Nota 6/10

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