
Este projeto desperta bastante simpatia à primeira vista. Afinal, trata-se de uma raríssima comédia popular, de vasto alcance, com elenco majoritariamente composto por atores e atrizes com Síndrome de Down. Além disso, estabelece uma franquia a partir do bem-sucedido Colegas (2012), já comandado por Marcelo Galvão. Interessa que estes atores sejam conhecidos pelo público e possam transitar por gêneros tão diversos quanto o drama, a comédia, o romance, o road movie e o policial. A premissa se traduz numa orgulhosa brincadeira de cinema, permitindo ao grupo testar seu traquejo diante de estímulos e tons diferentes. Assume-se o caráter de faz-de-conta.
Entretanto, a partir de um elenco com Síndrome de Down, inúmeras possibilidades de tratamento seriam possíveis. O longa-metragem A Holandesinha enxergava Luiza Godoi (também presente nesta comédia) enquanto cineasta de primeira viagem, enfrentando os desafios da concretização de um curta-metragem. Os conflitos eram de ordem adulta e profissional. Refletindo acerca de pessoas com deficiência, em chave mais ampla, a produção da dupla Victor di Marco e Márcio Picoli busca uma estética def, que inclui o escracho, o desconforto e a provocação. No cinema mineiro, Caroline Leone introduz com bastante sensibilidade a surdez em Lapso, e Bruno Costa imagina que suas personagens surdas em Nem Toda História de Amor Acaba em Morte poderiam ser acompanhadas de um intérprete de libras para cada uma.
Colegas e o Herdeiro opta pela infantilização de todas as figuras presentes — jovens ou adultas, com deficiência ou não. Além disso, demonstra verdadeira obsessão por piadas relacionadas a assédio e importunação sexual.
Ora, Colegas e o Herdeiro prefere uma chave muito mais infantil. Ao pensarem uma linguagem cômica e lúdica, os criadores recorrem a uma voluntária infantilização de todas as figuras presentes — jovens ou adultas, com deficiência ou não. Esta escolha está longe de ser uma obviedade, afinal, é plenamente possível ser poético sem ser inocente; e leve, sem ser inconsequente. Mas os autores investem numa jornada pueril, de quiproquós improváveis, todos eles resolvidos magicamente, ou apenas esquecidos a seguir. Por algum motivo, um grupo de ladrões canta Atirei o Pau no Gato durante sua ação perigosa; o herdeiro de um hotel gigantesco continua dormindo num quarto do tamanho de um almoxarifado; e a garota que se sentiu abusada pelo pretenso namorado decide sair correndo atrás dele.
Poucos dilemas realmente se justificam ao longo da trama. O humor visa desculpar incontáveis licenças em relação à lógica, seja pela escapada dos internos, pelas travessias da fronteira Brasil-Uruguai, e sobretudo, pela presença de um narrador ao mesmo tempo onisciente (pois conhece acontecimentos simultâneos em locais distintos), e diegeticamente presente (pois apresentando os fatos às garotas deitadas em suas camas). Na verdade, os estranhamentos começam desde a cena inicial, quando se dramatiza a presença de um produtor cego, já falecido, e convertido em narrador em off de sua própria morte. A improvável homenagem incomoda por ficcionalizar uma figura ausente, falando em nome dela — por mais que o cineasta tivesse óbvia intimidade com o amigo em questão.
Em seguida, o roteiro multiplica pequenos acontecimentos que nunca pretende aprofundar de fato. Inventa trapalhadas ingênuas para justificar a continuidade da aventura — por isso, dá-lhe demissão dos funcionários do hotel, a greve de fome do Magrelo, a cinta com pedras preciosas, o sonho de se tornar piloto, os dois romances paralelos, a investigação da inspetora, o medo do escuro, a briga pela herança, etc. Nem os autores, nem o elenco aparentam levar este percurso a sério: continuamos no território da brincadeira de contar histórias, tal qual um brainstorming coletivo onde todas as ideias são permitidas, sem hierarquia. A fuga do local de moradia rumo a outro país, para conhecer o Stallone, já oferecia, por si própria, material suficiente para este coming of age. No entanto, segundo as regras da ludicidade infantil, escolhe-se introduzir vilões, magias, absurdos e novos espetáculos, para entreter o espectador via saturação.
Neste processo, o roteiro incorpora uma série de acontecimentos bastante graves, destituídos da devida importância. Assim, um dos heróis é xingado de “retardado”, numa cena completamente destituída de consequências (práticas ou psicológicas). No trabalho, sofre preconceito capacitista, resolvido com um incêndio criminoso. Em particular, incomoda bastante a verdadeira obsessão por piadas relacionadas a assédio e violência sexual. Stallone fotografa Magrelo durante o banho e distribui as fotos, motivando o trauma do rapaz. Depois, estima de bom tom expor a sua nudez aos hóspedes do hotel. O roteiro e a direção tratam esses momentos de importunação sexual e revenge porn enquanto traquinagens sem importância, apesar de constituírem gestos muito mais sérios do que aparentam.
O hiperfoco no corpo e na interação sexual não-consentida continua. Na sauna, um homem se expõe ao outro, o que gera desconforto mais uma vez. Outro garoto invade o banheiro feminino, sendo desmascarado pelas frequentadoras. No bar, o personagem profundamente machista (cujo comportamento nunca é confrontado pelos demais) assedia a funcionária de maneira bastante direta, puxando o corpo da mulher contra o seu. O simples fato de Fernanda voltar correndo ao pretendente, num acesso súbito de paixão e perdão ao jovem que a deixou sozinha, em crise, completa este olhar nada elogioso às mulheres. Como é possível, em 2026, diante de minorias sociais, acreditar que esta natureza de material serve aos propósitos do humor? Ainda mais, em se tratando de uma comicidade de alvo “familiar”, leve e acessível a todos?


Os problemas são completados por uma narração em off quase ininterrupta, que explica todas as ações, deixando espaço nulo para a interpretação do espectador. Até as conclusões são fornecidas através desta voz professoral e condescendente, pontuando, inclusive, que a viagem seria fundamental aos amigos, por nunca terem saído do instituto antes. Os diálogos são pontuados, em paralelo, por tiradas pouco naturalistas, de ordem didática: “Ai, como eu queria viver uma aventura!”, “A gente precisa ter coragem e acreditar nos nossos sonhos!”. Enquanto isso, dois homens sublinham um ao outro uma informação que ambos sabem, apenas para traduzir ao espectador: “Nós estamos há doze horas de tocaia!”.
Por estes e outros motivos — as cores pastéis, os painéis pintados, a estética casa-de-boneca em moldes O Grande Hotel Budapeste —, Colegas e o Herdeiro soa ainda mais inofensivo do que outros longas-metragens recentes voltados ao público jovem. Os ótimos O Gênio do Crime e Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa, por exemplo, compreendiam a possibilidade de associar a infância a complexas questões familiares e sociais. Ora, a seleção de protagonistas com deficiência não implica na necessidade de simplificar os dilemas, nem de reduzir a profundidade do debate. Esta opção indica paternalismo, não acolhimento. A crença de que a participação deste elenco dependa da narrativa menos complexa possível equivale a ignorar o imenso potencial destes e de outros atores com deficiência. Por fim, queremos, sim, vê-los com mais frequência, em diversas obras audiovisuais, mas, se possível, integrando projetos à altura de suas capacidades.




