Colegas e o Herdeiro (2026)

Eterna infância

título original (ano)
Colegas e o Herdeiro (2026)
país
Brasil
gênero
Comédia, Aventura
duração
85 minutos
direção
Marcelo Galvão
elenco
Ariel Goldenberg, Rafaela Fontanetti, Rita Pokk, Breno Viola, Giovane Correa, Luiza Godoi, João Vitor de Paiva
visto em
Cinemas

Este projeto desperta bastante simpatia à primeira vista. Afinal, trata-se de uma raríssima comédia popular, de vasto alcance, com elenco majoritariamente composto por atores e atrizes com Síndrome de Down. Além disso, estabelece uma franquia a partir do bem-sucedido Colegas (2012), já comandado por Marcelo Galvão. Interessa que estes atores sejam conhecidos pelo público e possam transitar por gêneros tão diversos quanto o drama, a comédia, o romance, o road movie e o policial. A premissa se traduz numa orgulhosa brincadeira de cinema, permitindo ao grupo testar seu traquejo diante de estímulos e tons diferentes. Assume-se o caráter de faz-de-conta.

Entretanto, a partir de um elenco com Síndrome de Down, inúmeras possibilidades de tratamento seriam possíveis. O longa-metragem A Holandesinha enxergava Luiza Godoi (também presente nesta comédia) enquanto cineasta de primeira viagem, enfrentando os desafios da concretização de um curta-metragem. Os conflitos eram de ordem adulta e profissional. Refletindo acerca de pessoas com deficiência, em chave mais ampla, a produção da dupla Victor di Marco e Márcio Picoli busca uma estética def, que inclui o escracho, o desconforto e a provocação. No cinema mineiro, Caroline Leone introduz com bastante sensibilidade a surdez em Lapso, e Bruno Costa imagina que suas personagens surdas em Nem Toda História de Amor Acaba em Morte poderiam ser acompanhadas de um intérprete de libras para cada uma.

Colegas e o Herdeiro opta pela infantilização de todas as figuras presentes — jovens ou adultas, com deficiência ou não. Além disso, demonstra verdadeira obsessão por piadas relacionadas a assédio e importunação sexual.

Ora, Colegas e o Herdeiro prefere uma chave muito mais infantil. Ao pensarem uma linguagem cômica e lúdica, os criadores recorrem a uma voluntária infantilização de todas as figuras presentes — jovens ou adultas, com deficiência ou não. Esta escolha está longe de ser uma obviedade, afinal, é plenamente possível ser poético sem ser inocente; e leve, sem ser inconsequente. Mas os autores investem numa jornada pueril, de quiproquós improváveis, todos eles resolvidos magicamente, ou apenas esquecidos a seguir. Por algum motivo, um grupo de ladrões canta Atirei o Pau no Gato durante sua ação perigosa; o herdeiro de um hotel gigantesco continua dormindo num quarto do tamanho de um almoxarifado; e a garota que se sentiu abusada pelo pretenso namorado decide sair correndo atrás dele.

Poucos dilemas realmente se justificam ao longo da trama. O humor visa desculpar incontáveis licenças em relação à lógica, seja pela escapada dos internos, pelas travessias da fronteira Brasil-Uruguai, e sobretudo, pela presença de um narrador ao mesmo tempo onisciente (pois conhece acontecimentos simultâneos em locais distintos), e diegeticamente presente (pois apresentando os fatos às garotas deitadas em suas camas). Na verdade, os estranhamentos começam desde a cena inicial, quando se dramatiza a presença de um produtor cego, já falecido, e convertido em narrador em off de sua própria morte. A improvável homenagem incomoda por ficcionalizar uma figura ausente, falando em nome dela — por mais que o cineasta tivesse óbvia intimidade com o amigo em questão.

Em seguida, o roteiro multiplica pequenos acontecimentos que nunca pretende aprofundar de fato. Inventa trapalhadas ingênuas para justificar a continuidade da aventura — por isso, dá-lhe demissão dos funcionários do hotel, a greve de fome do Magrelo, a cinta com pedras preciosas, o sonho de se tornar piloto, os dois romances paralelos, a investigação da inspetora, o medo do escuro, a briga pela herança, etc. Nem os autores, nem o elenco aparentam levar este percurso a sério: continuamos no território da brincadeira de contar histórias, tal qual um brainstorming coletivo onde todas as ideias são permitidas, sem hierarquia. A fuga do local de moradia rumo a outro país, para conhecer o Stallone, já oferecia, por si própria, material suficiente para este coming of age. No entanto, segundo as regras da ludicidade infantil, escolhe-se introduzir vilões, magias, absurdos e novos espetáculos, para entreter o espectador via saturação.

Neste processo, o roteiro incorpora uma série de acontecimentos bastante graves, destituídos da devida importância. Assim, um dos heróis é xingado de “retardado”, numa cena completamente destituída de consequências (práticas ou psicológicas). No trabalho, sofre preconceito capacitista, resolvido com um incêndio criminoso. Em particular, incomoda bastante a verdadeira obsessão por piadas relacionadas a assédio e violência sexual. Stallone fotografa Magrelo durante o banho e distribui as fotos, motivando o trauma do rapaz. Depois, estima de bom tom expor a sua nudez aos hóspedes do hotel. O roteiro e a direção tratam esses momentos de importunação sexual e revenge porn enquanto traquinagens sem importância, apesar de constituírem gestos muito mais sérios do que aparentam.

O hiperfoco no corpo e na interação sexual não-consentida continua. Na sauna, um homem se expõe ao outro, o que gera desconforto mais uma vez. Outro garoto invade o banheiro feminino, sendo desmascarado pelas frequentadoras. No bar, o personagem profundamente machista (cujo comportamento nunca é confrontado pelos demais) assedia a funcionária de maneira bastante direta, puxando o corpo da mulher contra o seu. O simples fato de Fernanda voltar correndo ao pretendente, num acesso súbito de paixão e perdão ao jovem que a deixou sozinha, em crise, completa este olhar nada elogioso às mulheres. Como é possível, em 2026, diante de minorias sociais, acreditar que esta natureza de material serve aos propósitos do humor? Ainda mais, em se tratando de uma comicidade de alvo “familiar”, leve e acessível a todos? 

Os problemas são completados por uma narração em off quase ininterrupta, que explica todas as ações, deixando espaço nulo para a interpretação do espectador. Até as conclusões são fornecidas através desta voz professoral e condescendente, pontuando, inclusive, que a viagem seria fundamental aos amigos, por nunca terem saído do instituto antes. Os diálogos são pontuados, em paralelo, por tiradas pouco naturalistas, de ordem didática: “Ai, como eu queria viver uma aventura!”, “A gente precisa ter coragem e acreditar nos nossos sonhos!”. Enquanto isso, dois homens sublinham um ao outro uma informação que ambos sabem, apenas para traduzir ao espectador: “Nós estamos há doze horas de tocaia!”

Por estes e outros motivos — as cores pastéis, os painéis pintados, a estética casa-de-boneca em moldes O Grande Hotel Budapeste —, Colegas e o Herdeiro soa ainda mais inofensivo do que outros longas-metragens recentes voltados ao público jovem. Os ótimos O Gênio do Crime e Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa, por exemplo, compreendiam a possibilidade de associar a infância a complexas questões familiares e sociais. Ora, a seleção de protagonistas com deficiência não implica na necessidade de simplificar os dilemas, nem de reduzir a profundidade do debate. Esta opção indica paternalismo, não acolhimento. A crença de que a participação deste elenco dependa da narrativa menos complexa possível equivale a ignorar o imenso potencial destes e de outros atores com deficiência. Por fim, queremos, sim, vê-los com mais frequência, em diversas obras audiovisuais, mas, se possível, integrando projetos à altura de suas capacidades.

Colegas e o Herdeiro (2026)
3
Nota 3/10

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