O Fim da Rua (2026)

A família e os dinossauros

título original (ano)
The End of Oak Street (2026)
país
EUA
gênero
Fantasia, Aventura, Ficção Científica
duração
99 minutos
direção
David Robert Mitchell
elenco
Anne Hathaway, Ewan McGregor, Maisy Stella, Christian Convery, Jordan Alexa Davis, P.J. Byrne, Emily Kuroda, Anne Gee Byrd
visto em
Cinemas

Era uma vez a família Platt. Pai, mãe e dois filhos viviam tranquilamente num subúrbio norte-americano de classe-média, até o bairro inteiro ser magicamente transportado para o passado, em meio a gigantescos dinossauros. O quarteto precisou sobreviver aos ataques, e descobrir uma maneira de voltar ao ano de 1982. Eles perceberam que a única forma de resistir a esta situação improvável seria superando as suas diferenças e trabalhando juntos. Fim. A união faz a força; precisamos valorizar a nossa família; não há lugar como o nosso lar; etc.

O Fim da Rua constitui um projeto bastante curioso. Por um lado, ele carrega a doçura e a inocência de uma Sessão da Tarde comum, do tipo em que tanto os problemas quanto as soluções ocorrem num improvável passe de mágica. Assim, viagens pelo tempo e lutas com dinossauros não passam de uma metáfora extravagante para um casal cuja crise matrimonial afeta a saúde mental das crianças. Diante do dilema mais urgente da sobrevivência, aprendem a estabelecer reais prioridades. Por isso, há muitos abraços coletivos, choros e pacificações, além de desaparecimentos e buscas, até o núcleo se consolidar novamente. Quanto maior o desafio, maior será o alívio de vê-los reunidos, razão pela qual o perigo fantástico simboliza o impacto psicológico de um eventual divórcio, do desemprego e do discreto lesbianismo da filha adolescente.

Corre o risco de soar infantil demais para o público adulto, e adulto demais para a plateia familiar. Mesmo assim, representa uma pequena transgressão (enquanto proposta comercial) dentro de um circuito carente de ousadias.

O diretor e roteirista David Robert Mitchell pinta este cenário com cores próximas da paródia. O subúrbio em questão é povoado essencialmente por famílias tradicionais, brancas e felizes, brincando com seus cachorros e fazendo churrasco na rua. A trilha sonora orquestrada, com pianos, violinos e harpas, remete às produções otimistas de Steven Spielberg décadas atrás. Logo, este longa-metragem não apenas se situa nos anos 1980, mas também procura resgatar certa inocência daqueles tempos pré-digitais. A grande ousadia da mãe, neste caso, consiste em escrever um livro em segredo, e a do pai, em entregar pizzas em domicílio. O filho é definido pelo amor incondicional ao cachorro Starbuck, e a filha, por uma modesta rebeldia da juventude. São todos, sem exceção, figuras puras, de temperamento gentil e bom coração.

Por outro lado, a abordagem se mostra bem mais sangrenta e maliciosa do que seus personagens indicavam inicialmente. Isso implica em ataques bastante agressivos por parte dos bichos, gerando membros decepados, sem falar nos animais fazendo sexo, e sendo fotografados durante o ato. O cineasta permite algumas mortes chocantes, muitos cadáveres pelos gramados verdes das casas, e poças de sangue pela região. Em consequência, a estética “classificação 18 anos” busca se acomodar à mensagem “classificação livre”, gerando um efeito curioso, para dizer o mínimo. No Brasil, o longa-metragem recebeu a classificação indicativa 14 anos. Os produtores devem estar cientes de que ele corre o risco de soar infantil demais para o público adulto, e adulto demais para a plateia familiar. Mesmo assim, representa uma pequena transgressão (enquanto proposta comercial, pelo menos) dentro de um circuito carente de ousadias.

Logo, a abordagem busca se equilibrar entre tons de aparência contraditória. Em determinados momentos, o diretor de fotografia Mike Gioulakis se delicia em composições intricadas dentro do formato scope, usando e abusando de split diopters, e compondo quadros-dentro-do-quadro, através de molduras de espelho e batentes de porta. Enquanto isso, sugere acontecimentos distintos em várias profundidades de campo. Em contrapartida, estes recursos chamam mais atenção para si próprios do que efetivamente ajudam a narrar uma história — que ganho realmente haveria na conversa dos familiares com sucessivos split diopters na sala de casa? A sequência em que pai, mãe e filhos correm em direções opostas na rua, buscando atrair os animais para si no intuito de salvarem os demais, possui uma coreografia rebuscada de câmera. No entanto, adiante, a gramática visual retorna ao teor acadêmico que predomina na narrativa (vide a conclusão, no ponto de ônibus). 

Já os atores fazem o possível diante de personagens que jamais superam suas funções sociais. O roteiro evita oferecer muitas indicações de passado, ou aspirações pessoais, de modo que o quarteto se restringe à responsabilidade básica de proteção e sacrifício dos demais. Todos se provam dispostos a morrer para salvar os outros — em especial o pai, descrito como um sujeito de temperamento morno a princípio, até se empoderar quando veste o casaco de herói e mártir. A realista Denise (Anne Hathaway) pode ser aquela com domínio das armas, mas na hora do aperto, quem se mostra à altura do desafio será o sonhador Greg (Ewan McGregor), na condição de pai e provedor da família tradicional. É impressionante que um cineasta de histórico tão radical atenue tanto as suas ambições sociais e artísticas, adequando-se à singela jornada de conciliação.

Em paralelo, a narração possui uma quantidade expressiva de problemas, conveniências e absurdos. Inicialmente, a chegada dos dinossauros é acompanhada de tremores de terra e ruídos claramente perceptíveis. Depois, T-Rex chegam a poucos metros dos familiares sem serem notados, e imensas criaturas rastejantes perambulam pela casa, invisíveis aos olhares de seus ocupantes. Alguns diálogos são simples ao limite do cômico — caso das frases de efeito de marido e esposa diante de um portal, ou de provocações pueris como “Seu rosto parece uma pizza de pepperoni”. O ataque violento ao garoto, por parte de um fortão do bairro, ocorre de maneira desajeitada pela direção, que se complica ainda mais ao retratar a repentina tomada de consciência do agressor. O desprezo pela família de Jeannette (Jordan Alexa Davis) transparece um salvacionismo na chave do heroísmo individual, dispensando o verdadeiro senso de comunidade. Além disso, há falhas evidentes de montagem e continuidade.

O Fim da Rua nem mesmo investiga o seu fenômeno mágico. O que leva um bairro inteiro a ser transportado ao mundo dos dinossauros? Por que este bairro específico, e por que agora? É a primeira vez que tal magia acontece? Nunca saberemos. Para Mitchell, pouco importa. Ele prefere combinar trapalhadas improváveis (uma queda do telhado) com mortes ainda mais inacreditáveis, no intuito de introduzir alguma aspereza ao trajeto de forte previsibilidade. Assim, chega exatamente onde se imagina que chegaria, embora por caminhos inesperados. Resulta numa iniciativa de qualidades tão evidentes quanto suas fraquezas, ou ainda, uma aventura familiar cujas pequenas transgressões à norma se fazem tão sutis que jamais abalam a impressão de déjà vu.

O Fim da Rua (2026)
6
Nota 6/10

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.