
A trajetória de Mário Justino é ao mesmo tempo excepcional e bastante comum. Trata-se de uma jornada clássica de ascensão e queda: um jovem talentoso cresce exponencialmente em sua área, até sofrer com a própria ambição e perder tudo o que conquistou. Entretanto, este percurso de Ícaro se aplica ao caso bastante particular do crescimento das igrejas neopentecostais no Brasil. Nos anos 1980 e 1990, o herói foi um fenômeno como pastor, levando muito dinheiro aos bispos, até perceber a corrupção desta engrenagem e ser devorado por ela. Passou de uma criança paupérrima a um pregador rico, e então, a imigrante ilegal nos Estados Unidos.
O diretor José Eduardo Belmonte insere os fatos na estrutura de uma fábula, com tons de suspense, marcado por eventuais incursões na comédia de erros. Somos convidados a nos posicionar junto a Justino (Christian Malheiros), garoto que encontra a vocação religiosa por conta própria. É fundamental que o roteiro de Belmonte, Nilson Rodrigues, Ewerton Belico e Sérgio Moriconi frise esta independência na formação dos valores do garoto. Geralmente, associa-se à adoção de um pensamento religioso a uma doutrinação familiar ou de determinado grupo. Ora, este herói decide seu caminho sozinho, inclusive enfrentando a resistência inicial da mãe carinhosa (por ser católica) e o padrasto pouco amoroso (que prefere vê-lo em trabalhos convencionais). Assim, o protagonista jamais se converte em vítima: ele procura exatamente as circunstâncias e oportunidades que lhe aparecem.
Uma fábula com tons de suspense. Christian Malheiros se mostra uma escolha acertadíssima para o papel.
Christian Malheiros se mostra uma escolha acertadíssima para o papel. O grande ator tem se especializado na figura do jovem puro, sonhador, de olhar inocente e fala doce, confrontado às dificuldades da vida adulta (nas comunidades perigosas, no universo do tráfico, etc.). Ele tem representado, no audiovisual brasileiro, um símbolo da inocência perdida, ou do desencanto com a dureza da realidade. Até por isso, ajusta-se tão bem a estas coming of age stories — histórias de desencantamento. No caso do mundo neopentecostal, retratado com vilania caricatural em tantos projetos críticos, a intromissão de uma figura íntegra, de fácil identificação (quase um porta-voz do homem médio), e tão agradável quanto Christian Malheiros, contribui a aliviar o maniqueísmo da empreitada.
Logo, o crescimento profissional de Justino decorre, em primeira instância, de um mérito do rapaz. Ele possui boa oratória e capacidade performance, decorrente da convicção profunda no que fala. O pastor nunca procura deliberadamente enganar ninguém: ele acredita que esta seria a melhor maneira de espalhar a palavra de Deus. Acata, por extensão, a cobrança do dízimo, os ataques às religiões de matriz africana, a proibição da homossexualidade — todos eles decorrentes de leituras bastante questionáveis da Bíblia, porém, incorporadas enquanto verdades inquestionáveis. Aqui, a fé nunca se torna sinônimo de obsessão, mas de princípios. Felizmente, ao mesmo tempo em que despreza os líderes corruptos, o filme respeita bastante a fé do cidadão comum — representada pela crença da mãe, pela convicção da esposa, e assim por diante. O discurso seria, deste modo, deísta (crente em Deus, embora descrente em todas as representações do mesmo em sociedade).
Entretanto, não tardam a surgir os abusos, percebidos primeiro pela direção e pelo espectador, e só então pelo pastor enganado. Justino efetua pequenas concessões em relação aos seus princípios, e então, cada vez maiores. Esconde dinheiro, consome drogas para pregar durante 17 horas no dia, e entrega-se aos amores com outros homens, que ele próprio condena em seu discursos. Flagra o enriquecimento milionário dos seus líderes, mas fecha os olhos às irregularidades. Na ausência de uma figura paterna, abraça o Bispo Azevedo (Caio Blat) como representação de uma masculinidade autoritária e punitivista, de quem espera alguma forma de reconhecimento por seus esforços. (Justino quer agradar, quer ser amado). Ao perder o encantamento com a igreja — que possui um nome fictício, para privar os autores de processos judiciais —, ele perde uma segunda família. Caio Blat, Bruno Garcia e Angel Ferreira compõem referenciais mais ou menos cínicos desta convicção ensaiada da crença em Deus, visando o enriquecimento e o acúmulo de poder.
Este princípio da gradação (um único conflito que aumenta, aumenta, até explodir) não seria tão eficaz sem um trabalho primoroso de direção de fotografia e edição. A iluminação e as cores, em particular, mostram-se deslumbrantes. Leslie Monteiro sabe trabalhar as baixas luzes, sem jamais perder as expressões dos atores negros nos cantos sombrios. A diretora de fotografia e Belmonte criam cenas notáveis, a exemplo do desfile de rosas amarelas sobre camisas azuis; do encontro com a golpista num corredor lilás, e do feixe de luz que atravessa um galpão escuro onde Justino negocia com outro pastor (Gustavo Vaz). A sedução e o desencantamento passam, inclusive, pela construção de uma elegância sedutora nas pregações, em oposição à deterioração das imagens no período de declínio do personagem.


É certo que a obra possui alguns deslizes pontuais. Duas cenas de desespero e choro consecutivas (a primeira, de tristeza, e a segunda, de raiva) apelam para uma chantagem emocional que era sabiamente evitada até então. Todo o último segmento, dedicado à epidemia de HIV nos Estados Unidos, ameaça desviar a narrativa de seu foco, retirando inclusive o protagonismo de Justino (que quase se torna o coadjuvante da própria história). Ao menos, a magnífica Onna Silva impede que o retrato caia em mera lamentação, permitindo observar este trauma recente enquanto reflexão mais ampla sobre políticas públicas. Afinal, o pastor decaído encontra junto a uma travesti, e a várias pessoas soropositivas em situação de vulnerabilidade, um verdadeiro modo de ajudar o povo. Encontra-se longe de certo enquadramento formal da religiosidade, porém dentro das convicções que o guiaram a princípio.
Por fim, Justino: Nos Bastidores do Reino soa como um acerto em termos de tom e produção. José Eduardo Belmonte parece ter conquistado uma ambição que guia a sua carreira há décadas, articulando a potência do cinema questionador, e preocupado com a estética, com a vocação de um cinema popular, de fácil alcance. Não há nada particularmente hermético neste longa-metragem que, caso bem trabalhado, pode atingir um público expressivo. Em contrapartida, ele demonstra uma fineza em suas ironias, um cuidado na psicologia dos personagens, e uma atenção a fotografia, montagem e som que dificilmente se encontram nas obras mais ligeiras, de moldes televisivos. É muito bom perceber o cineasta em um registro tão instigante.




