
A princípio, este longa-metragem parece se concentrar especificamente na campanha de Suzy Santos a vereadora de Campinas (SP). A mulher travesti, conhecida pelo trabalho social com pessoas em situação de rua, busca representar a voz das minorias em uma cidade tradicionalmente de direita. Afinal, no município, a esmagadora maioria da Câmara é composta por homens brancos e cisgênero, conforme recordam os letreiros iniciais. De fato, parte considerável da narrativa se volta à confecção de material eleitoral, à distribuição de santinhos, o corpo a corpo com os moradores e os treinamentos de oratória por parte da candidata.
Entretanto, logo os diretores Coraci Ruiz e Júlio Matos expandem este escopo. Seguem a sua personagem numa viagem ao Rio de Janeiro, para assistir ao show da Madonna (um fragmento bastante deslocado do restante da narrativa, diga-se de passagem). Acompanham sua prática religiosa enquanto mãe de santo. Flagram momentos de cuidado com os netos, e assim por diante. A pessoa física interessa tanto quanto a personalidade pública. Por este motivo, quando Suzy parece se afastar da política partidária, o filme também o faz. Os autores preferem seguir esta mulher, para onde vá, num olhar de cumplicidade que recusa julgamentos morais. Posicionam-se obviamente em solidariedade a ela, porém, equilibrando a ternura entre amigos com eventuais desentendimentos em relação aos colaboradores próprios. A empatia jamais se confunde com idealização, nem condescendência.
O título soa curioso para uma obra que foge ao máximo dos conflitos. Mas o documentário cumpre o papel de apresentar ao espectador uma protagonista fascinante.
Já o título soa curioso para uma obra que foge, ao máximo, dos conflitos. De acordo com este olhar, a protagonista nunca soa afrontosa, apenas conciliadora, gentil, bastante diplomática ao mediar as brigas de terceiros ou resolver pendências administrativas do local que coordena. Afinal, é impossível existir afronta sem o outro lado, aquele afrontado. Ora, o documentário efetua a curiosa escolha de retirar a política de um âmbito de disputa. Aqui, Suzy aparenta concorrer sozinha ao cargo, dependendo tão unicamente da própria vontade, com o apoio de um pequeno comitê. Ela nunca demonstra crença profunda na vitória, sustentando de imediato o discurso de que vale a participação, e a mera ocupação de uma disputa pública por uma travesti seria uma conquista em si própria. Sem dúvida, a sábia candidata tem razão.
Em contrapartida, a narrativa evita mostrar contra o quê, e contra quem, Suzy concorre. Quem são os outros candidatos? Como são as demais candidaturas de esquerda? A personagem é bem acolhida dentro do PSOL? Recebe verbas proporcionais àquelas de outros candidatos? Quando descobrimos que a heroína não se elege, novas perguntas surgem: ela chegou perto de uma vitória? Algum representante da esquerda se elegeu? Alguma mulher? Com qual perfil, quais pautas? Observamos uma batalha, no dia a dia, sem saber quem se encontra do outro lado das trincheiras. Assim, fica difícil saber qual conclusão os autores retiram desta experiência, para além de congratularem Suzy pela coragem da participação.
Mesmo os embates cotidianos são retirados de cena. Certo, ninguém esperava assistir a um espetáculo de transfobia ou sofrimento. Ao mesmo tempo, seria possível demonstrar as dificuldades de uma mulher trans sem instrumentalizar sua experiência para finalidade educativa, ou de entretenimento. Ignoramos quaisquer dificuldades da protagonista em seu trabalho de assistência social. Ela possui um namorado convenientemente ocultado da história. Em suas experiências na rua, parece ser somente adorada, admirada e apoiada por todos. Compreende-se a decisão de valorizar as muitas qualidades desta mulher. Entretanto, falta relevo à representação da travesti quando se ocultam entraves políticos e sociais ao sucesso. Devemos pressupor que Suzy tenha exatamente as mesmas chances, e o mesmo acolhimento social, de qualquer mulher cis? Este otimismo tende a diminuir a textura política do retrato.
Outros fatores chamam a atenção, sobretudo, a controversa decisão de revelar o rosto de travestis em situação extremamente frágil (vide a mulher com o rosto sangrando, após uma agressão). Os diretores escondem a identidade dos demais, mas por que exporem esta figura em particular, em duas cenas sucessivas, logo após ela verbalizar sua preocupação em ser vista neste estado? O respeito à vida privada de Suzy decorreria de uma imposição da protagonista, ou de uma determinação destes familiares em não aparecerem? O funcionamento da instituição, em si, esclarece-se pouco ao espectador. O financiamento é obtido mediante quais recursos? A negociação dos mesmos decorre de concessões, ou promessas? Como ocorreram estes acordos?


Esteticamente, Afrontosa prova-se discreto e funcional. Na direção de fotografia, Coraci Ruiz assume o pressuposto de que, entre correr o risco de não iluminar apropriadamente as personagens em movimento, é melhor assumir a superexposição das cenas diurnas e externas. Em determinadas ocasiões, enfrenta dificuldade de se posicionar face aos imprevistos (a exemplo do jogo de futebol), gerando imagens desajeitadas, surpreendentemente mantidas pela montagem. Devido ao teor bege-amarelo-claro das paredes da instituição, o filme inteiro assume uma coloração parecida. Privilegia-se a ótica de um realismo social, para o qual o material humano constituiria a prioridade, logo, pequenas perdas de construção estética seriam aceitáveis no percurso.
Por fim, o documentário cumpre o seu papel de apresentar ao espectador uma protagonista fascinante, que efetua, sem dúvida, um trabalho valioso. Possui um posicionamento claro em favor de Suzy e de demais travestis e cidadãs progressistas em geral (como convém aos criadores de Limiar, 2020, e Germino Pétalas no Asfalto, 2022). Mesmo assim, espera-se que tamanha ternura e humanismo se combinem com estratégias não apenas dispostas a captar o que acontece, mas proativas em construir suas cenas, investigando por conta própria os elementos ausentes in loco, e elaborando metáforas capazes de aprofundar os temas abordados. Trata-se de um cinema bastante eficaz em apreender o real, mas ainda modesto na função de representá-lo.




