Muito Prazer (2026)

Concessão ao sexo

título original (ano)
Muito Prazer (2026)
país
Brasil
gênero
Comédia, Romance
duração
98 minutos
direção
Jorge Furtado
elenco
Daniel de Oliveira, Luisa Arraes, Samantha Jones, Felipe Velozo, Drica Moraes, Catharina Conte, Gabriela Greco, Gabriela Poester
visto em
Cinemas

Grace (Luísa Arraes) não gosta de sexo com outras pessoas — apenas consigo mesma. Em suas palavras, transar com outros seria “ridículo”. Rubem (Daniel de Oliveira) tem uma vida sexual pouco ativa. Os dois constituem figuras solitárias, de raros amigos ou familiares. Ele é um motorista de aplicativo que nunca dirige, e ela, uma faxineira ocupando ilegalmente o local onde nenhuma pessoa visita. Assim, estes fantasmas assombram um motel decadente, cuja atividade no interior dos quantos se converte tanto um calvário — um palco kitsch de celebração ao sexo alheio, em quartos que simulam a Grécia e o Egito — quanto um alívio — afinal, os outros fazem sexo para que eles mesmos não precisem fazê-lo.

Assim, estes sócios involuntários de um negócio falido pensam em sexo o tempo inteiro, com a condição de não concretizá-lo. Os fetiches são permitidos: Grace encena vídeos onde não transa de fato, e Rubem veste-se de homem-coelho, permanecendo vestido. De certa forma, estes voyeurs assexuados amam assistir aos clientes transando, por meio de câmeras escondidas, embora a excitação não seja de ordem genital. Talvez um fetiche de poder, quem sabe? Eles amam possuir a imagem das pessoas, ao invés das próprias. Enquanto o diretor Jorge Furtado transforma o sexo em parque de diversões (ri-se muito mais do que se transa), os protagonistas desenvolvem o prazer em capturar a intimidade secreta de terceiros.

Muito Prazer soa, simultaneamente, perverso e casto. Qual ponto de vista o autor realmente defende, a partir deste imbróglio psicossexual de três frustrados?

Logo, Muito Prazer soa, simultaneamente, perverso e casto. Perverso, porque extrai seu humor da banalização de um crime: o registro da privacidade alheia. O diretor facilita ao máximo a tarefa destes gentis infratores, garantindo que a divulgação dos vídeos seja simples, nenhum cliente jamais perceba as câmeras, e a lei encontre brechas inimagináveis para perdoá-los. (Basta fazer mais um vídeo para se perdoar os anteriores? Que jurisprudência é essa?). Furtado não os considera imorais, apenas desajustados, atrapalhados, a exemplo da ampla maioria de seus protagonistas até agora. Por isso, jamais enxerga a exploração ilegal do sexo enquanto um problema de fato, preferindo revesti-la de um quiproquó ingênuo, por parte de gente de bom coração. Tudo isso, num filme que pretende analisar nossa relação com a Internet. Quem diria?

Ao mesmo tempo, esta seria uma obra casta, posto que estes obcecados por sexo serão reconvertidos ao amor romântico. Desde o princípio, percebe-se que o rapaz e a garota que não se toleram aprenderão a trabalhar juntos, a se gostar. Em breve, estarão apaixonados. Ela aprenderá o prazer do sexo com outras pessoas, e ele, a dar carinho a alguém. Apenas a comparsa, encarregada do aparato tecnológico das gravações, terminará sozinha, dispensando parceiros, e incapaz de descobrir qualquer forma de pulsão para além da satisfação em capturar as interações alheias. Os protagonistas brancos rendem-se ao amor redentor, mas a jovem negra ainda preserva a libido unicamente no contentamento de suas habilidades. Ela termina onde Grace começou: no prazer de si própria.

Assim, Muito Prazer representa um olhar assumidamente ingênuo a algo que se sabe perfeitamente não sê-lo. Furtado enxerga o fetiche enquanto fábula e criação — não por acaso, estes personagens se convertem em diretores amadores, nos moldes dos colegas de Saneamento Básico, o Filme. Em contrapartida, raras vezes o ato sexual se faz tão lúdico, patético, num faz de conta que remete aos primórdios do cinema. O homem extremamente ativo na cama (Felipe Velozo) é convertido, assim, num poço de candura e inocência, enquanto forma de compensação. Ninguém tira a roupa, ninguém se frustra, ninguém se machuca. Menciona-se, por boa consciência, a possibilidade de que o sexo venha acompanhado de abusos ou violências. Mesmo assim, o longa-metragem prefere enxergar algo próximo do teatro de boulevard — “não se preocupe”, o roteiro parece dizer ao público. “Tudo ficará bem”.

Logo, há poesias, pausas, delírios e invencionices quase adolescentes neste percurso. Grace é apaixonada pelo desenho das nuvens no céu, e questiona o sócio: “Qual nuvem é você?”. Ele, por ser mineiro, inventa de colocar torresminho nos quartos. Com as luzes queimadas, o Motel Pérola se converte apenas em “Rola”, de tão singelas que são as piadas do texto. O autor nem mesmo suspeita que colocar um homem vestido de mulher, enquanto fingimento e ridicularização, represente um gesto ofensivo. Está ciente do discurso que precisa defender (Rubem, de cabelos longos e vestido vermelho, sustenta o direito de vestir qualquer roupa que desejar), ainda que não resista à tentação de enxergar uma figura trans ou travesti enquanto falsidade cômica e patética.

Logo, por trás da aparência singela, Muito Prazer constitui uma obra inesperada e, às vezes, contraditória. Trata-se de um filme sobre sexo, estrelado por personagens que tentam, a narrativa inteira, se privar de fazê-lo. Quando finalmente consentem, os heróis o fazem apenas na perspectiva gravada, diante de uma câmera, com a possibilidade de rentabilizar o material. Assim, qual ponto de vista o autor realmente defende, a partir deste imbróglio psicossexual de três frustrados? Sugere que a Internet seria positiva por dar vazão aos desejos, ou perigosa, devido à falta de regulamentação? Interessante por permitir fetichizar e dirigir a si próprio, ou potencialmente nociva, por substituir o real? Não sabemos. O texto adora bagunçar as cartas (o fortão rejeitado na cama; a mãe pudica abraçando o mundo do pornô), porém, sem tirar conclusões do dilema lançado por si próprio.

Enquanto isso, os atores se divertem com estas figuras contraditórias. Luísa Arraes sempre possuiu uma destreza com diálogos, passando da inocência à malícia numa mesma cena. Daniel de Oliveira desconstrói a figura do galã, tornando-se tímido, de voz baixa e olhar constrangido. Felizmente, Samantha Jones oferece a assertividade que falta aos demais, numa personagem capaz de instaurar um senso do controle em meio ao caos. Por fim, Furtado sempre soube dirigir seus atores, que parecem verdadeiramente se divertir em cada uma destas fábulas. 

Rubem e Grace são parentes não tão distantes do André de O Homem que Copiava, de Marina e Joaquim em Saneamento Básico, e até de João em Real Beleza. São personagens completamente comuns num mundo absurdo — gente média cercada pelos extremos. Eles representam o espectador, acomodado num mundo repleto de adversidades, até chegar a possibilidade de um deslumbramento — fictício, efêmero e improvável. De certa forma, estas ficções apontam para o deleite singelo de tomar as rédeas da própria vida através de um falseamento, de um direito a ficcionalizar o mundo. Os personagens se empoderam a partir do momento em que deixam de ser a si mesmos. Apenas assim, descontrolados, percebem do que sempre foram capazes.

Muito Prazer (2026)
6
Nota 6/10

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