13 Dias, 13 Noites (2025)

Salvacionismo de exportação

título original (ano)
13 Jours 13 Nuits (2025)
país
França, Bélgica
gênero
Ação, Guerra
duração
112 minutos
direção
Martin Bourboulon
elenco
Roschdy Zem, Lyna Khoudri, Sidse Babett Knudsen, Christophe Montenez, Sina Parvaneh, Yan Tual
visto em
Cinemas

As imagens de 13 Dias, 13 Noites foram concebidas para impressionar os espectadores, e certamente cumprem este papel. Um orçamento de €30 milhões foi empregado para garantir imensas cenas de multidões no Afeganistão, além de fugas, tiros, explosões, perseguições. Diante desta história real, a respeito de um oficial encarregado de retirar cidadãos da embaixada francesa durante a tomada do Talibãs, o diretor Martin Bourboulon enxerga uma premissa não muito diferente de seus Três Mosqueteiros. Há heróis e vilões, lutas e obstáculos rumo a uma redenção. A geopolítica, neste caso, constitui mero pretexto para a ficção. 

Por isso, a mise en scène aparenta ter, como única preocupação, o espetáculo. De que maneira tornar a horda de afegãos desesperados ainda mais chocante? Como retratar os Talibãs de modo a gerar o máximo grau de medo e tensão? Como aprofundar nossa admiração por Mohamed Bida (Roschdy Zem), assim como de pesar pela pobre Eva (Lyna Khoudri), convertida em intérprete das negociações com líderes autoritários? Dá-lhe então muitos planos aéreos, música sentimental de orquestra, cenas de sacrifício, planos sabotados ou quase fracassados até o último segundo. Diante da miséria real de milhares de pessoas (francesas e afegãs), o diretor e sua equipe pensam: como construir a maior diversão possível ao público?

O projeto está disposto a enxergar virtudes em diversas pessoas, contanto que europeias. Aos afegãos, cabe o papel ingrato de vilão caricatural ou pobre vítima.

A resposta se encontra no ideal de heroísmo à americana. Se os estadunidenses vendem seus militares e policiais enquanto exemplos de valentia, por que os franceses não poderiam se converter, igualmente, em pilares do salvacionismo colonialista? Por que não se erguerem ao patamar de defensores do mundo, protetores dos direitos humanos — além de únicos puros face à barbárie? Assim, Bida é apresentado como virtuoso, corajoso, destemido, inteligente, incorruptível. Ele abre mão de cuidar da própria família para ajudar os demais. Podendo fugir do país em guerra, recusa-se a abandonar um único ocupante da embaixada. Expõe-se ao risco de morte incontáveis vezes em nome dos demais. Oferece discursos encorajadores aos militares desiludidos, enquanto um zoom-in em seu rosto engrandece as palavras.

Mas ele não é o único personagem digno de aplausos. Eva também se arrisca para ajudar nas traduções e, adiante, para salvar a mãe. Já a jornalista Kate (Sidse Babett Knudsen) oferece-se ao martírio sucessivas vezes para defender os mais vulneráveis entre os vulneráveis, em nome da necessidade de repercutir o calvário afegão mundo afora. O projeto está plenamente disposto a enxergar virtudes em diversas pessoas, contanto que sejam europeias. Aos afegãos, cabe o papel ingrato de vilão caricatural (arma em punho, gritando e ameaçando) ou de pobre vítima sem nome nem subjetividade, gritando e implorando por resgate. Resta a impressão de que Bourboulon jamais contaria essa história pela perspectiva do povo local, nem mesmo permitiria um protagonismo múltiplo e coletivo. A história destes cidadãos merece ser representada, contanto que pela perspectiva francesa.

Em particular, convém questionar as repetidas cenas de multidão, através de tomadas aéreas. Os produtores recorrem a muitas dezenas de figurantes (além de corpos provavelmente repetidos digitalmente) de modo a criar uma impressão de horda barulhenta, indistinta, agressiva. Face ao povo urrando, e levando golpes de bastão, Mohamed mantém a calma. Estas imagens amareladas (como de costume no imaginário exótico de um povo do deserto, diferente de nós) não se diferem da construção estética reservada ao zumbis, ou a outras monstruosidades. Os afegãos se reduzem a uma massa animalesca, incivilizada, incontrolável. A câmera evita olhá-los nos olhos, ou sequer escutar as demandas por eles mesmos. Assim, serão sempre descritos por terceiros: Eva explica que têm medo de não conseguirem o resgate; Kate descobre que alguns são artistas; Bida ordena que subam ao ônibus. O dispositivo se recusa a humanizá-los.

Além disso, os papéis de gênero estão rigidamente preservados a partir dos códigos hollywoodianos tradicionais. Isso significa que os homens representam a ordem, a razão, a praticidade: o herói não treme diante das metralhadoras, nem hesita a infringir ordens de superiores no intuito de ajudar o povo. Em consequência, ele orquestra a maior ação coordenada da história das forças francesas, segundo os letreiros finais. Bida não sabe segurar um bebê, porém negocia a fuga de 400 pessoas com uma destreza ímpar. O personagem até transparece uma leve tremedeira nas mãos, que jamais o impede de desempenhar seu papel exemplarmente. Os sentimentos podem aflorar unicamente quando o plano estiver concluído, porque o sujeito ideal se mostra plenamente capaz de colocar a razão acima das emoções.

Já as mulheres são emotivas, histéricas, maternas. Eva chora pela mãe, treme de medo face aos Talibãs, toma atitudes irrefletidas na hora do resgate. Ao voltar de uma negociação com bandidos perigosos, ela colapsa no chão. Em paralelo, Kate grita após um tiro ao seu lado, ao passo que a única mulher soldado (inexperiente e delicada) será aquela encarregada de cuidar do bebê sem família, é claro. Enquanto os comandantes empunham armas e lideram as tropas, ela troca fraldas. Assim, os homens cuidam da nação, enquanto as mulheres se encarregam da manutenção da família, em lógica condizente com o pensamento conservador. É conveniente que Eva tenha a idade da filha negligenciada do protagonista, pois isso permite ao homem se redimir da ausência familiar ao transferir sua atenção para uma filha simbólica.

Não é anódino que, no final, a narrativa revele somente os caixões dos norte-americanos mortos em consequência de um ataque terrorista. Preserva-se a imagem das lideranças francesas, enquanto se ignora o retrato das vítimas afegãs — os primeiros seriam fortes demais para sucumbir, e os segundos não importam de fato ao olhar da direção. 13 Dias, 13 Noites investe numa identificação emocional antiquada, recebida com pouco interesse pelo público (menos de 500 mil espectadores na França) e pela premiações (obtendo uma única indicação, pela montagem, nos prêmios César). Nem a imprensa, nem os espectadores se encantaram com esta representação da geopolítica sob o filtro do maniqueísmo, paternalismo e condescendência. Ainda há esperanças de que este modelo de cinema tão funcional quanto pouco humanista caia em desuso de uma vez por todas.

13 Dias, 13 Noites (2025)
4
Nota 4/10

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.