Babi Yar. Contexto (2021)

O extermínio de um povo

título original (ano)
Babi Yar. Context (2021)
país
Holanda, Ucrânia
gênero
Documentário
duração
121 minutos
direção
Sergei Loznitsa
visto em
11º Olhar de Cinema: Festival Internacional de Curitiba

Hollywood despertou no imaginário popular a ideia de que as guerras são rápidas. Graças ao cinema de ação, que privilegia o sofrimento dos homens e a coragem dos batalhões, acredita-se que conflitos mundiais se decidem num dia D, em ataques ferozes repletos de bombas, tiros, corridas frenéticas, resgates improváveis do colega ferido. Este seria o território das emoções e dos valores humanos por excelência.

Babi Yar. Contexto dedica-se, como tantos outros filmes realistas, a nos lembrar que momentos definitivos da História podem ser entediantes, plácidos. Eles podem ter a aparência de normalidade, de respeito às leis, com pessoas percebendo apenas a longo prazo o trauma que sofreram. Isso os torna menos empolgantes, porém mais perversos. Guerras contêm muita espera, negociações, incertezas — elas constituem, em última instância, um momento de suspensão, seja das leis, da moral, do tempo. Há pessoas passeando nas ruas normalmente enquanto forças fascistas operam logo ao lado. É possível ignorar, ou fechar aos olhos, para uma atrocidade que mata milhares de pessoas, mas não afeta a todos da mesma maneira (vide a pandemia de Covid-19).

Em pleno período de invasão da Rússia à Ucrânia, o cineasta Sergei Loznitsa nos relembra de outro momento em que ucranianos foram invadidos — no caso, durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1941, as tropas nazistas sob o comando de Adolf Hitler exterminaram 33 mil judeus em Babi Yar, jogando-os em valas pela cidade. Nos anos seguintes, os soviéticos retomaram o controle da região, e instauraram um julgamento exemplar com seus algozes, enforcando-os em praça pública, diante dos aplausos de milhares de pessoas.

No entanto, se os cidadãos da época se deleitavam com a vingança, o diretor se priva de tais motivações. O longa-metragem ultrapassa o estágio inicial da constatação dos fatos: sim, a tragédia ocorreu, no entanto, a perspectiva deseja ultrapassar a função do cinema como mero conscientizador e reforço da memória coletiva. A imagem vai além do ça a été descrito por Barthes, ou seja, da recordação de que algo existiu, diante das câmeras, num tempo específico.

O projeto não é concebido para nos agradar e entreter, pelo contrário: ele solicita nossa atenção constante, e interpretação pessoal.

Loznitsa analisa o que leva milhares de judeus a comparecem à convocação nazista, numa praça onde provavelmente seriam exterminados, assim como a decisão do restante da cidade em tolerar o ato de maneira pacífica. Ele busca compreender o lento processo de aproximação das ideias e dos exércitos inimigos, e sobretudo, que consequências imediatas um evento deste porte surte na formação identitária de um povo. Não por acaso, o terço final é dedicado ao processo de soldados nazistas num tribunal soviético, onde descreveram com frieza chocante as ordens de extermínio recebidas pelo Terceiro Reich.

Em primeiro lugar, as imagens de Babi Yar. Contexto são impressionantemente belas. Sim, é possível enxergas a beleza no horror — como bem explicou Susan Sontag —, ligada à fascinação e ao magnetismo produzidos pela morte. Esta produção dispõe de materiais de época com notável cuidado de enquadramentos, luz, movimento de câmera. Alguém, em 1941, conseguiu propor um improvável distanciamento para observar os acontecimentos sem o senso de urgência. Assim, os bombardeios e os cadáveres jogados no chão possuem um aspecto contemplativo, melancólico.

Esqueça as narrações informativas, os letreiros descritivos, as trilhas sonoras chorosas. O diretor acredita que as imagens falam por si mesmas, articulando uma montagem curiosamente próxima da ficção: a cada descoberta de mortos numa vala, entram em cena cidadãos chorando à distância, e outros perambulando pelas ruas esburacadas como se este fosse um dia comum. Há uma noção de narrativa, e de absurdo, orquestrados através da aproximação entre imagens de contextos distintos. Pelo atrito da montagem, Loznitsa imprime seu ponto de vista.

Em segundo lugar, o documentário busca dar um rosto aos indivíduos — não apenas aos algozes e líderes da resistência, mas aos passantes, anônimos e familiares dos mortos. Contrariamente à noção de uma guerra pomposa, onde apenas os exércitos interessam, o discurso dedica tempo considerável a se aproximar das expressões faciais de civis. Deste modo, o espectador pode se identificar com estas pessoas, enxergando nos rostos um outro de si. O cinema se faz espelho e convite à humanidade. As figuras restarão sem nome nem idade, mas serão descritas pelo essencial: sua condição humana.

Mesmo assim, o protagonismo ainda pertence à coletividade: nenhuma voz se sobressai em relação às demais, e nenhum herói é oferecido ao espectador para facilitar a identificação. Babi Yar. Contexto deve representar um desafio ao público contemporâneo ao se desenvolver com o mínimo de falas, sem um protagonista, sem uma noção clássica de conflito. O projeto não é concebido para nos agradar e entreter, pelo contrário: ele solicita nossa atenção constante, e interpretação pessoal. Loznitsa se priva de dizer ao espectador o que é bom ou ruim, quem amar ou odiar. Ele acredita na inteligência do público.

O melhor momento provém de uma longa tirada, a dois terços da narrativa. Para uma obra de poucos letreiros, surpreende encontrar um trecho extenso escrito pelo soviético Vasily Grossman. Em Ukraine Without Jews (1943), ele detalha a diferença entre este conflito e outros, por ter vitimado sobretudo cidadãos que nunca pegaram em armas, nem se deslocaram ao terreno de guerra, e jamais assinaram o acordo tácito de possível morte em combate. O intuito do regime nazifascista não era derrotar um exército, nem um governo, mas toda uma raça, uma coletividade.

Em termos de estrutura, o filme é marcado por guinadas repentinas, por excessos e riscos. O terço final intercala longos trechos de tribunal, relativos ao julgamento de soldados, com demonstrações de organização do exército e um inesperado bombardeio em duração curtíssima. O filme propõe uma experiência de altos e baixos, de calmaria e tensão. Quando nos acostumamos a um registro reflexivo, uma inserção catártica rompe com a ordem das coisas. 

Trata-se de uma obra vigorosa no sentido de abraçar imperfeições, revelando um gesto cinematográfico mais intuitivo do que cerebral. É possível identificar partes mais interessantes do que outras, embora provavelmente os espectadores discordem sobre quais trechos se encaixam em qual definição. De qualquer modo, o diretor trabalha a partir de um material de arquivo belo e precioso, evitando o moralismo no retrato das tragédias humanas. Nos tempos em que se buscam mocinhos e vilões entre governos ucraniano e russo, esta ponderação político-social é muito bem-vinda.

Babi Yar. Contexto (2021)
8
Nota 8/10

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