A Prisioneira de Bordeaux (2024)

Consciência de classe

título original (ano)
La Prisonnière de Bordeaux (2024)
país
França
gênero
Drama
Duração
108 minutos
direção
Patricia Mazuy
elenco
Isabelle Huppert, Hafsia Herzi, William Edimo, Magne-Havard Brekke, Lional Dray, Jana Bittnerová, Noor Elasri, Jean Guerre Souye
visto em
Cinemas

À primeira vista, A Prisioneira de Bordeaux parece cair nas armadilhas fáceis do drama social. Afinal, a riquíssima Alma Lund (Isabelle Huppert) decide acolher em sua mansão a pobre Mina Hirti (Hafsia Herzi), ao descobrir que a jovem tem um marido preso na mesma penitenciária que o seu. A primeira, acostumada à dinâmica do presídio, nem mesmo deixa a novata voltar para a sua casa após o encontro inicial. Imagina, pode dormir lá em casa, tem vários quartos disponíveis, não tem problema nenhum, não vai incomodar. Em pouquíssimo tempo, a habitante da periferia se muda para Bordeaux com os dois filhos pequenos.

Elas se ajudam, fazem companhia uma à outra. Alma intervém para garantir a inscrição dos pequenos em uma escola do bairro, ao passo que Mina oferece algum dinamismo na vida da mulher entediada. Caso parasse por aí, o resultado seria um primo francês de Histórias Cruzadas e Green Book: O Guia, ou seja, um drama defendendo a conciliação entre diferentes raças e classes sociais a partir da boa consciência das pessoas brancas. O conceito de white savior se popularizou diante da proliferação de histórias a respeito da boa consciência branca. Segundo esta forma de pensamento, a justiça depende da boa vontade de indivíduos (brancos) isolados — jamais de uma revolução social, muito menos de uma reparação para as minorias. Nada que um abraço e uma amizade não resolvam.

Ninguém terminará transformado, ou se tornará uma pessoa melhor, devido ao contato com as diferenças. A Prisioneira de Bordeaux retira o aspecto moralista de uma jornada de evidente teor moral.

Ora, a fábula sorridente de Patricia Mazuy, co-escrita com Pierre Courrège e François Bégaudeau, logo demonstra as limitações deste acolhimento generoso. Há barreiras intransponíveis entre as visões de mundo. Mesmo que aceite de bom grado a gentileza de sua “amiga burguesa”, como Alma mesmo se define, Mina nunca se sente em casa. Uma parte dela nutre raiva crescente pelos privilégios da amiga, para quem tudo sempre foi fácil. O marido médico, responsável por um crime hediondo, recebe uma pena muito inferior àquela de seu próprio esposo, que nunca assassinou ninguém. Enquanto a moça periférica trabalha bastante numa lavanderia, a dona de casa vive de ócio, cercada por quadros caríssimos, esfregando na cara da hóspede o valor de cada um.

Durante um jantar com amigos ricos, a fachada polida se rompe por completo. Ali, todas as diferenças de raça, classe e origem se escancaram de maneira violenta. A anfitriã, neste contexto, não se mostra nada protetora. Em consequência, a jovem compreende que, na hora do aperto, a “amiga burguesa” ficará ao lado dos seus. Por isso, existe uma beleza no título original, felizmente mantido na tradução literal brasileira. Embora os maridos se encontrem no cárcere, a prisioneira (no singular) é Mina, que troca as pressões econômicas de seu bairro distante por uma espécie de servidão e domesticação nesta cadeia dourada. Ela nunca será, de fato, livre, enquanto depender da bondade espontânea e esporádica da colega. Caridade não é sinônimo de justiça social.

Mazuy filma estas percepções com sutileza. Nenhum acontecimento se converte em espetáculo, ou numa revelação repentina a respeito de índole de uma e de outra. Por isso, o roubo de um quadro e duas más encenações da anfitriã são recebidas silenciosamente por sua espectadora. (O texto adora a ideia de pessoas que estão sempre atuando, bem ou mal, para o olhar alheio). A cineasta conta com duas ótimas atrizes, em registros opostos: a ultra expressividade solar de Huppert, face ao aspecto contido, e bastante bruto, de Herzi. A dupla recebe a oportunidade de fabular, se indignar e reagir somente mediante expressões do rosto. Nada é explicado em excesso, nem verbalizado com finalidade pedagógica. Um plano mirabolante de Mina, por exemplo, será revelado unicamente na hora dos acontecimentos. O roteiro respeita a inteligência do espectador.

Em paralelo, a relação de ambas com seus futuros maridos sustenta um belo teor agridoce. Nenhuma delas aparenta amar o sujeito encarcerado, a quem juraram lealdade, prometendo uma espera paciente até a libertação. Por isso, as primeiras cenas de ambas com os cônjuges decidem ocultar o rosto dos indivíduos, aumentando a sensação de desconforto e pouca intimidade. No fundo, ambas sonham em seguir adiante, longe desta e de outras prisões — o que justifica a conclusão fabular, oferecida às duas separadamente. Afinal, elas aguardam a libertação de alguém que prefeririam manter à distância. O texto dispensa qualquer redenção (dos homens) ou salvação (das mulheres) por meio do amor romântico.

Por isso, o quiproquó envolvendo o roubo de relógios será dispensado a tempo (a cineasta não se importa com o destino destes objetos); a educação dos filhos jamais representa uma dificuldade concreta, e a libertação dos maridos permanece em segundo plano. O foco se sustenta na desconstrução progressiva de uma amizade anunciada como inevitável. Os rumos se provam mais amargos e niilistas. Embora Mazuy evite a catarse para expiar os sentimentos das heroínas, ela encontra uma saída alternativa para que nem vivam felizes para sempre, nem declarem guerra à colega. Ninguém terminará transformado, ou se tornará uma pessoa melhor, devido ao contato com as diferenças. O filme planta os pés no chão.

“O que nos leva a fazer escolhas corretas?”, pergunta Alma, ao que a amiga responde: “Nós fazemos o que podemos”. A Prisioneira de Bordeaux retira o aspecto moralista de uma jornada de evidente teor moral. Ao situar o erro (e o pecado) junto aos esposos, estas mulheres gozam de uma presunção de vitimismo e inocência, o que lhes permite uma série de infrações em toda impunidade. “Eu beneficio de circunstâncias atenuantes”, clama, cinicamente, a mulher burguesa, devido à situação do esposo. A vida de ambas é afetada pelo delito de um terceiro, então, permanecem presas a ele, determinadas pela decisão do outro. A rebeldia muito distinta de cada uma, na conclusão, também representa uma indignação contra esse status de “esposa de bandido” ao qual foram associadas. Mazuy investiga as possibilidades de uma jornada de libertação feminista, menos gentil e idealista do que poderia aparentar a princípio.

A Prisioneira de Bordeaux (2024)
8
Nota 8/10

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