
Honestino parte do desafio de representar um homem de poucas imagens e sons. Devido à experiência na clandestinidade, e à curta vida até seu desaparecimento e morte pelo regime militar, deixou poucas gravações, fotos, e muito menos entrevistas e falas do próprio, que pudessem guiar o diretor Aurélio Michiles. O longa-metragem precisa, então, representar o protagonista em sua ausência, buscando recursos capazes de aludir a ele, e dar conta de sua importância para a luta estudantil, embora o rosto ou a voz do próprio não fiquem gravados em nossa memória.
Decide-se então criar um alter-ego fictício ao personagem. Bruno Gagliasso encarna o líder em cenas curtas, muito mais evocativas do que propriamente contextualizadas. (Pode-se falar numa performance, ao contrário de uma composição clássica de ator). Os trechos se revelam eficazes, no sentido de dar corpo e expressões a Honestino, mas também tímidos enquanto criação cinematográfica. Presenciamos o sujeito em seu quarto, lendo as cartas que ele próprio escreveu, ou correndo pelos porões escuros onde teria sido perseguido. De certo modo, estes fragmentos somente preenchem as descrições sonoras. Mesmo assim, em se tratando de um sujeito pouco documentado, o esforço de reconstruí-lo aos nossos olhos, ainda que simbolicamente, se justificam.
Honestino parte do desafio de representar um homem de poucas imagens e sons. Mas o cineasta e seus colaboradores se mostram bastante criativos.
Isso porque a obra possui algumas preocupações tão notáveis quanto contraditórias. A primeira reside no aspecto didático: Michiles deseja apresentar o protagonista a um público que se pressupõe ignorante na trajetória do goiano. Por isso, as falas meramente descritivas (“Por diversas vezes, eu fui ameaçado de morte”, avisa Gagliasso na narração inicial) se combinam com diversos letreiros indicando datas, locais e acontecimentos. Listam-se a primeira prisão, a segunda prisão, a quarta prisão, sem que o espectador compreenda exatamente como cada uma delas ocorreu e de que maneira acabou, sob ordens de quem, ou qual impacto teriam surtido na personalidade do homem.
Logo, o filme se converte numa história dos fatos, elencando verbos, ações, deslocamentos. Sabemos que foi de Goiás a Brasília, com passagens por São Paulo e Rio de Janeiro. Conhecemos duas esposas distintas, além de amigos de luta. Os entrevistados se referem ao companheiro em modo verbal: ele disse, ele partiu, ele se escondeu, ele preferiu, ele escreveu, etc. Traça-se um percurso, em detrimento de que uma subjetividade. Terminamos a jornada conhecendo pouquíssimo de seu temperamento, suas predileções, seus anseios, sua vida para além da perseguição política. Michiles se mostra tão preocupado em retratá-lo enquanto símbolo político, que minimiza sua descrição psicológica.
A segunda preocupação, em contrapartida, diz respeito à criação de imagens, símbolos e registros capazes de tornar a experiência ágil ao espectador. De fato, o cineasta e seus colaboradores se mostram bastante criativos. Eles alternam entre fotos animadas; a ficcionalização (o que inclui sequências desfocadas de tortura); happenings com atores em estilo anos 1960; imagens reproduzindo arquivos, nas quais se aplicam sujeiras e ranhuras digitais; até as entrevistas de diferentes pessoas sobre fundos vermelhos e amarelos, provavelmente colocados a posteriori. O editor André Finotti efetua um belo trabalho na costura de tantos estilos de imagem, em fragmentos curtos, que diluem o aspecto pedagógico e aproximam o resultado de um ritmo bastante contemporâneo. Descarta-se, assim, a rigidez habitual das reportagens e dos materiais educativos.
Ainda se poderia argumentar que, numa trajetória a respeito de universidades e da formação política de estudantes, parte do estilo mais rigidamente educativo se justificaria pela afinidade temática. Afinal, a Universidade de Brasília constitui um personagem central. O longa-metragem efetua um belo trabalho na reta final, ao estabelecer uma ligação entre o engajamento das gerações 1960-70 e as lideranças atuais, sugerindo que o personagem e seus colegas de luta deixaram um legado que jamais se apagou. O autor não enxerga seu protagonista enquanto caso isolado, e sim, parte de organizações maiores do que um ou outro indivíduo, e que seguem se articulando contra as injustiças de suas respectivas épocas. Um dos maiores elogios a Honestino reside na capacidade de enxergá-lo enquanto semente para as gerações seguintes.


Tamanhas qualidades compensam um ou outro momento desajeitado, ou menos expressivo. Por exemplo, o cineasta entrevista a si próprio, sentando-se numa cadeira e compartilhando suas memórias à própria câmera. Existe procedimento mais estranho num documentário do que a autoentrevista, considerando que o diretor já manifesta suas opiniões através da montagem, das imagens construídas, da seleção dos materiais de arquivo? Como considerar normal que o artista com tamanho controle do discurso reivindique ainda mais controle sobre o resultado? Adiante, quando o ator quebra a quarta parede para se posicionar contra injustiças, ele meramente explicita, ao limite da obviedade, aquilo que o discurso vinha pregando de maneira bastante clara até então.
Restam na memória, em especial, os depoimentos pessoais, afetivos, e menos informativos, capazes de atribuir ao projeto uma bem-vinda ternura. Isso traz o personagem a um nível mais humano, comum, próximo do espectador. Torna-se mais fácil nos identificar com o protagonista a partir da lembrança da filha, sobre a foto de sua predileção, ou da anedota de Jorge Bodanzky e das provocações com os colegas, quando debatiam sobre partir ao exílio ou permanecer no Brasil, na clandestinidade. As curtas narrativas do homem jogando futebol, mesmo quando era procurado pela polícia, nos permitem imaginar um sujeito palpável, concreto, para além de um ícone político.




