
A comédia dramática se inicia no momento em que Jay Kelly constitui um dos maiores astros do cinema mundial. É ele quem determina quando seu novo filme termina — a produção apenas se conclui quando ele estiver satisfeito com o último take. Para o diretor Noah Baumbach, trata-se de uma personalidade comercialmente viável (o filme-dentro-do-filme enquadra tanto o rosto do ator quanto um gigantesco logo de Coca-Cola), e também reconhecível em qualquer parte do mundo. Ele já estrelou projetos de ação, comédia, romance. Então, quando recebe a proposta de um prêmio por sua carreira, e percebe que a filha mais nova está prestes a entrar na faculdade, começa a reavaliar o percurso que o levou até tal status. Quando se obtém tudo o que a maioria das pessoas jamais sonharia em conquistar, o que resta a desejar?
O horizonte de referência para esta jornada se encontra nos grandes clássicos do cinema europeu de vanguarda. O pressuposto de uma viagem existencialista em busca de um prêmio pela carreira nos remete a Morangos Silvestres (1957), de Ingmar Bergman, enquanto a deambulação em cidades estrangeiras, conhecendo pessoas e compartilhando afetos, alude ao percurso de realismo fantástico de A Doce Vida (1960), de Federico Fellini. Já a sequência em que o astro repete o próprio nome em frente ao espelho, diversas vezes, constitui uma releitura da tirada de Antoine Doinel em Beijos Roubados (1968), de François Truffaut. Estes são alguns dos filmes que inspiram e alimentam a produção da Netflix, entre o saudosismo e a homenagem.
A principal beleza do longa-metragem reside na ideia de que o protagonista deriva de um esforço de marketing, dissociado do mérito individual.
Mas o que significa recorrer a este imaginário, em pleno cinema norte-americano contemporâneo, sobretudo produzido para o streaming? O projeto explora a adoração aos ícones de cinema na época em que o star system, tal qual se conhecia, acabou. Hoje, as grandes marcas lutam para garantir sucessos de bilheteria, e nenhum nome se prova suficiente para arrastar multidões às salas escuras como já ocorreu, décadas atrás, com Leonardo DiCaprio, Julia Roberts e o próprio George Clooney, ou em gerações anteriores, Clark Gable, Cary Grant, Katharine Hepburn e Marilyn Monroe. Hoje, estamos em tempos muito diferentes. Jay Kelly é o astro de um mundo sem astros.
O roteiro compreende tal função enquanto uma construção social. A principal beleza do longa-metragem reside na ideia de que o protagonista deriva de um esforço de marketing, dissociado do mérito individual. O foco reside precisamente na equipe de agentes, assistentes, produtores, maquiadores, motoristas, secretários, profissionais de relações públicas e até treinadores de animais necessários para sustentar tal império. Por isso, o ator se envolve em dois escândalos quase simultâneos: a agressão a um antigo colega de profissão, e o heroísmo tragicômico ao recuperar a bolsa de uma senhora das mãos de ladrões. Esta rede por trás da empresa Jay Kelly consegue fazer com que a primeira história seja abafada, e a segunda, impulsionada, porque assim interessa à reputação de seu garoto-propaganda.
Por isso, interessa bastante que a trama jamais nos apresente o astro enquanto figura talentosíssima, melhor que os demais atores. Aqui, a capacidade dramática do homem simplesmente não importa, posto que não se associa sua notoriedade aos dotes dramáticos. Ele tampouco é visto enquanto figura particularmente sedutora — menciona-se unicamente o histórico de divórcio com duas mulheres, incluindo uma “modelo de mãos”. Existe um caráter patético nele, como se, devido ao patamar alcançado, nunca fosse realmente levado a sério: ele é famoso demais para ser considerado uma pessoa plausível, com quem se interage no dia a dia; e midiático demais para ser visto entre os grandes das artes dramáticas. Jay Kelly é uma imagem, refém da vida construída para si.
“É uma baita responsabilidade ser você mesmo”. O mantra, repetido algumas vezes durante o projeto, alude à distância entre a essência e a aparência, sobretudo, no caso de um ator famoso. Baumbach insiste em demonstrar o quão grande ele seria devido à reação de terceiros — o grau de espanto e admiração do mundo ao redor determinaria o grau de celebridade atingido. “Eu não posso colocar Jay Kelly num trem!”, grita a assistente Liz (Laura Dern), preocupada com o assédio dos passageiros. O agente e melhor amigo, Ron (Adam Sandler), abre mão da esposa e da filha para ficar mais tempo com Jay. Pelas estradas europeias, alguns dos principais atores do cinema independente e autoral (Lars Eidinger, Alba Rohrwacher), reverenciam, ironicamente, o ícone da indústria norte-americana. Deduzimos o patamar em que se encontra graças ao olhar que lhe devolvem os terceiros. Os filmes, em si, constituem uma peça secundária desta elaboração social.
Assim, a comédia se diverte em mesclar acontecimentos naturalistas (a homenagem no festival) com sequências mágicas (a bolsa que permite ao protagonista se tornar um herói real). Confronta-se a melancolia do real (a filha que deseja se afastar de Jay, para ser ela mesma) à euforia da ficção (a sucessão de cheesecakes em cada camarim, exigidos por contrato, embora o ator nem mesmo goste do doce). O ápice deste processo se encontra na delirante cena de reencontro com um antigo amigo (Billy Crudup), transformado em ator fracassado. Ele se torna, sucessivamente, um desconhecido, um homem que o persegue no estacionamento, um amigo saudoso, um competidor e, por fim, um inimigo feroz. Em questão de minutos, o personagem atua dentro da própria ficção, para impressionar o sujeito que admira e inveja em igual medida. Esta bela cena sintetiza a vertigem do storytelling proposta por Baumbach e pela co-roteirista Emily Mortimer.
A proposta seria ainda mais interessante caso o longa-metragem não confundisse, progressivamente, ternura com condescendência. Sob pretexto de que “é muito difícil ser você mesmo”, a narrativa vitimiza Kelly em relação à própria fama. Em outras palavras, após construí-lo como fantoche, o olhar começa a se apiedar a respeito do homem incapaz de se desvencilhar de tal persona. O fato de ter sido um pai ausente, um marido negligente, e de ter roubado as ideias do colega durante um importante teste de elenco, são perdoadas em nome da crise existencial que atormenta o sujeito de meia-idade. Contra o aspecto incisivo da paródia, os criadores encontram afeto numa espécie de trégua.
Isso nunca equivale a perdoá-lo, exatamente — vide a tristeza de sua solidão durante a homenagem, enquanto o ator mais modesto (Patrick Wilson) está cercado de familiares —, mas a sugerir que toda a alegria que tenha trazido ao público do mundo inteiro compensa, de certo modo, suas falhas individuais. Insinua-se que este seria o preço a pagar por se tornar um astro da indústria: seria impossível ser, ao mesmo tempo, ator e pai; astro e marido. A família teria sido sacrificada em nome deste gesto nobre de proporcionar entretenimento via encenação. O roteiro reconhece este paradoxo graças à menção a um filme-dentro-do-filme, no qual Kelly interpretava um pai excelente e, para atingir tal construção, deixava de cuidar das próprias filhas.


Mesmo assim, o filme possui um olhar afiado em relação aos revezes da profissão, identificando as falhas de uma estrutura midiática. Interessa muito que, no final, os trechos selecionados para homenagear a Jay Kelly sejam aqueles do próprio George Clooney, ao invés de projetos fictícios nos quais seu personagem tenha participado. Esta é a mensagem da comédia dramática, afinal — a de uma contaminação do real pelo imaginário, de modo que o homem não mais consegue se afastar da imagem construída para ele. Ele precisa atuar nos filmes, e também atuar fora deles, conforme lembra um diálogo. Kelly está preso a tal configuração.
Caso se ativesse à observação mordaz deste mecanismo, Baumbach produziria seu próprio Barton Fink — Delírios de Hollywood (1991) ou O Jogador (1992) — duas pérolas do cinema metalinguístico e autoirônico. No entanto, ao acreditar que, por causa de sua fama, o astro seja digno de pena, e carente de maior compreensão — em outras palavras, um pobre homem rico, uma triste celebridade —, atenua a força da obra. Não se pode confundir carinho com paternalismo, sobretudo num filme a respeito de pais ausentes e homens histriônicos. Em nossos tempos cínicos, de profundo escrutínio da vida e obra dos demais, a proposta de conciliação via afeto, e de trégua em relação aos poderosos, soa reacionária. O diretor constrói um belo personagem, e um rico universo ao redor dele, mas, então, não sabe para onde levá-lo. Jay Kelly teria muito mais a nos dizer enquanto exemplo de uma causa do que enquanto lição de vida.




