Jay Kelly (2025)

A construção de uma marca

título original (ano)
Jay Kelly (2025)
país
EUA, Reino Unido, Itália
gênero
Drama, Comédia
duração
132 minutos
direção
Noah Baumbach
elenco
George Clooney, Adam Sandler, Laura Dern, Billy Crudup, Riley Keough, Grace Edwards, Stacy Keach, Jim Broadbent, Patrick Wilson, Eve Hewson, Greta Gerwig, Alba Rohrwacher, Josh Hamilton, Lenny Henry, Emily Mortimer
visto em
49ª Mostra de São Paulo (2025)

A comédia dramática se inicia no momento em que Jay Kelly constitui um dos maiores astros do cinema mundial. É ele quem determina quando seu novo filme termina — a produção apenas se conclui quando ele estiver satisfeito com o último take. Para o diretor Noah Baumbach, trata-se de uma personalidade comercialmente viável (o filme-dentro-do-filme enquadra tanto o rosto do ator quanto um gigantesco logo de Coca-Cola), e também reconhecível em qualquer parte do mundo. Ele já estrelou projetos de ação, comédia, romance. Então, quando recebe a proposta de um prêmio por sua carreira, e percebe que a filha mais nova está prestes a entrar na faculdade, começa a reavaliar o percurso que o levou até tal status. Quando se obtém tudo o que a maioria das pessoas jamais sonharia em conquistar, o que resta a desejar?

O horizonte de referência para esta jornada se encontra nos grandes clássicos do cinema europeu de vanguarda. O pressuposto de uma viagem existencialista em busca de um prêmio pela carreira nos remete a Morangos Silvestres (1957), de Ingmar Bergman, enquanto a deambulação em cidades estrangeiras, conhecendo pessoas e compartilhando afetos, alude ao percurso de realismo fantástico de A Doce Vida (1960), de Federico Fellini. Já a sequência em que o astro repete o próprio nome em frente ao espelho, diversas vezes, constitui uma releitura da tirada de Antoine Doinel em Beijos Roubados (1968), de François Truffaut. Estes são alguns dos filmes que inspiram e alimentam a produção da Netflix, entre o saudosismo e a homenagem.

A principal beleza do longa-metragem reside na ideia de que o protagonista deriva de um esforço de marketing, dissociado do mérito individual.

Mas o que significa recorrer a este imaginário, em pleno cinema norte-americano contemporâneo, sobretudo produzido para o streaming? O projeto explora a adoração aos ícones de cinema na época em que o star system, tal qual se conhecia, acabou. Hoje, as grandes marcas lutam para garantir sucessos de bilheteria, e nenhum nome se prova suficiente para arrastar multidões às salas escuras como já ocorreu, décadas atrás, com Leonardo DiCaprio, Julia Roberts e o próprio George Clooney, ou em gerações anteriores, Clark Gable, Cary Grant, Katharine Hepburn e Marilyn Monroe. Hoje, estamos em tempos muito diferentes. Jay Kelly é o astro de um mundo sem astros.

O roteiro compreende tal função enquanto uma construção social. A principal beleza do longa-metragem reside na ideia de que o protagonista deriva de um esforço de marketing, dissociado do mérito individual. O foco reside precisamente na equipe de agentes, assistentes, produtores, maquiadores, motoristas, secretários, profissionais de relações públicas e até treinadores de animais necessários para sustentar tal império. Por isso, o ator se envolve em dois escândalos quase simultâneos: a agressão a um antigo colega de profissão, e o heroísmo tragicômico ao recuperar a bolsa de uma senhora das mãos de ladrões. Esta rede por trás da empresa Jay Kelly consegue fazer com que a primeira história seja abafada, e a segunda, impulsionada, porque assim interessa à reputação de seu garoto-propaganda.

Por isso, interessa bastante que a trama jamais nos apresente o astro enquanto figura talentosíssima, melhor que os demais atores. Aqui, a capacidade dramática do homem simplesmente não importa, posto que não se associa sua notoriedade aos dotes dramáticos. Ele tampouco é visto enquanto figura particularmente sedutora — menciona-se unicamente o histórico de divórcio com duas mulheres, incluindo uma “modelo de mãos”. Existe um caráter patético nele, como se, devido ao patamar alcançado, nunca fosse realmente levado a sério: ele é famoso demais para ser considerado uma pessoa plausível, com quem se interage no dia a dia; e midiático demais para ser visto entre os grandes das artes dramáticas. Jay Kelly é uma imagem, refém da vida construída para si.

“É uma baita responsabilidade ser você mesmo”. O mantra, repetido algumas vezes durante o projeto, alude à distância entre a essência e a aparência, sobretudo, no caso de um ator famoso. Baumbach insiste em demonstrar o quão grande ele seria devido à reação de terceiros — o grau de espanto e admiração do mundo ao redor determinaria o grau de celebridade atingido. “Eu não posso colocar Jay Kelly num trem!”, grita a assistente Liz (Laura Dern), preocupada com o assédio dos passageiros. O agente e melhor amigo, Ron (Adam Sandler), abre mão da esposa e da filha para ficar mais tempo com Jay. Pelas estradas europeias, alguns dos principais atores do cinema independente e autoral (Lars Eidinger, Alba Rohrwacher), reverenciam, ironicamente, o ícone da indústria norte-americana. Deduzimos o patamar em que se encontra graças ao olhar que lhe devolvem os terceiros. Os filmes, em si, constituem uma peça secundária desta elaboração social.

Assim, a comédia se diverte em mesclar acontecimentos naturalistas (a homenagem no festival) com sequências mágicas (a bolsa que permite ao protagonista se tornar um herói real). Confronta-se a melancolia do real (a filha que deseja se afastar de Jay, para ser ela mesma) à euforia da ficção (a sucessão de cheesecakes em cada camarim, exigidos por contrato, embora o ator nem mesmo goste do doce). O ápice deste processo se encontra na delirante cena de reencontro com um antigo amigo (Billy Crudup), transformado em ator fracassado. Ele se torna, sucessivamente, um desconhecido, um homem que o persegue no estacionamento, um amigo saudoso, um competidor e, por fim, um inimigo feroz. Em questão de minutos, o personagem atua dentro da própria ficção, para impressionar o sujeito que admira e inveja em igual medida. Esta bela cena sintetiza a vertigem do storytelling proposta por Baumbach e pela co-roteirista Emily Mortimer.

A proposta seria ainda mais interessante caso o longa-metragem não confundisse, progressivamente, ternura com condescendência. Sob pretexto de que “é muito difícil ser você mesmo”, a narrativa vitimiza Kelly em relação à própria fama. Em outras palavras, após construí-lo como fantoche, o olhar começa a se apiedar a respeito do homem incapaz de se desvencilhar de tal persona. O fato de ter sido um pai ausente, um marido negligente, e de ter roubado as ideias do colega durante um importante teste de elenco, são perdoadas em nome da crise existencial que atormenta o sujeito de meia-idade. Contra o aspecto incisivo da paródia, os criadores encontram afeto numa espécie de trégua. 

Isso nunca equivale a perdoá-lo, exatamente — vide a tristeza de sua solidão durante a homenagem, enquanto o ator mais modesto (Patrick Wilson) está cercado de familiares —, mas a sugerir que toda a alegria que tenha trazido ao público do mundo inteiro compensa, de certo modo, suas falhas individuais. Insinua-se que este seria o preço a pagar por se tornar um astro da indústria: seria impossível ser, ao mesmo tempo, ator e pai; astro e marido. A família teria sido sacrificada em nome deste gesto nobre de proporcionar entretenimento via encenação. O roteiro reconhece este paradoxo graças à menção a um filme-dentro-do-filme, no qual Kelly interpretava um pai excelente e, para atingir tal construção, deixava de cuidar das próprias filhas.

Mesmo assim, o filme possui um olhar afiado em relação aos revezes da profissão, identificando as falhas de uma estrutura midiática. Interessa muito que, no final, os trechos selecionados para homenagear a Jay Kelly sejam aqueles do próprio George Clooney, ao invés de projetos fictícios nos quais seu personagem tenha participado. Esta é a mensagem da comédia dramática, afinal — a de uma contaminação do real pelo imaginário, de modo que o homem não mais consegue se afastar da imagem construída para ele. Ele precisa atuar nos filmes, e também atuar fora deles, conforme lembra um diálogo. Kelly está preso a tal configuração. 

Caso se ativesse à observação mordaz deste mecanismo, Baumbach produziria seu próprio Barton Fink — Delírios de Hollywood (1991) ou O Jogador (1992) — duas pérolas do cinema metalinguístico e autoirônico. No entanto, ao acreditar que, por causa de sua fama, o astro seja digno de pena, e carente de maior compreensão — em outras palavras, um pobre homem rico, uma triste celebridade —, atenua a força da obra. Não se pode confundir carinho com paternalismo, sobretudo num filme a respeito de pais ausentes e homens histriônicos. Em nossos tempos cínicos, de profundo escrutínio da vida e obra dos demais, a proposta de conciliação via afeto, e de trégua em relação aos poderosos, soa reacionária. O diretor constrói um belo personagem, e um rico universo ao redor dele, mas, então, não sabe para onde levá-lo. Jay Kelly teria muito mais a nos dizer enquanto exemplo de uma causa do que enquanto lição de vida.

Jay Kelly (2025)
6
Nota 6/10

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