
É um dia importante para o pequeno Chico (Murilo Moraes). Dois fenômenos importantes acontecerão nas próximas horas: um eclipse será visto no céu, e ele receberá uma resposta do hospital, onde o pai está internado após um acidente. Os dois eventos lhe parecem estranhos, incompreensíveis. Ocorrem longe dele, num local inalcançável, e representam um funcionamento sobre o qual não possui nenhuma ingerência. Trata-se de um período de espera — um parêntese de ansiedades e indefinições, que pode resultar maravilhoso ou catastrófico. O mesmo céu que abriga lindos fenômenos pode se associar ao imaginário da morte, caso o pai não se recupere.
O diretor e roteirista Victor Abreu se aproxima dos personagens com calma e respeito. Ele oferece indícios dos acontecimentos fora da casa sem explicá-los em excesso, nem transformar as dores num espetáculo de sofrimento alheio. O ótimo roteiro se preocupa em fornecer informações suficientes para que o espectador complete as lacunas por conta própria — posto que os personagens não conversam muito sobre o tema, o filme tampouco o esmiúça. Ao adotar a perspectiva infantil, permite que a incompreensão do menino também seja a nossa.
O elenco está excelente. Teria sido fácil torná-los vítimas — um garotinho perdido, uma avó superprotetora —, no entanto, a narrativa prefere afetos possíveis, em contexto bastante naturalista. Teka Romualdo está excelente num misto de acolhimento ao menino e também de abertura à privacidade e a solidão dele. Deixa que ele fique sozinho com suas traquitanas (óculos de mergulho, capacete, telescópio), fabulando a respeito de um espaço desconhecido. A atriz não sublinha o teor das falas, preferindo uma abordagem de total naturalidade. Em outras palavras, o caos lá de fora não contamina a casa — enquanto Chico fervilha por dentro, a rotina na casa se mostra pacífica, silenciosa.
Algumas escolhas de criação mostram-se curiosas. Os planos de detalhe nos pés da mulher, sobre o tapetinho da cozinha, demonstram, à primeira vista, um olhar de cronista do cotidiano. No entanto, quando o plano se repete, e o menino também sobe em bancos e muros, desperta-se a impressão de que o filme nos prepara para a queda. O diretor buscaria criar tensão pela falsa promessa de um segundo acidente? Em paralelo, para um projeto de tons tão neutros, sem embelezamentos ostensivos de luz e direção de arte, nem movimentos ostensivos de câmera, a chegada de uma noite profundamente azulada destoa do restante — como se o aceno à magia do eclipse exigisse a luminosidade típica da ficção científica.
Em certos momentos, O que Vi se aproxima bastante da temática e da sensibilidade de Marte Um (2022), de Gabriel Martins, devido ao protagonismo do garoto negro, de classe popular, fabulando a respeito do futuro incerto enquanto admira fenômenos celestes. Além disso, ambos preferem a sugestão e a metáfora aos fatos. Entretanto, a obra paulista traça um caminho próprio por se adequar ao formato específico do curta-metragem. Ela se dedica não um panorama representativo das vivências negras (como ocorria com a Filmes de Plástico), mas buscando certa universalidade ao compreender a infância enquanto momento de incertezas e pressuposições. Neste contexto, a passagem à fase adulta equivaleria a um trauma necessário. Por isso, tudo e nada se resolve ao final da jornada: Abreu prefere plantar sementes para as resoluções ocorram num futuro distante, após os acontecimentos retratados.






