A Queda do Céu e as imagens dos Yanomami, por Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha

Desde sua publicação, em 2010, o livro A Queda do Céu, escrito por Davi Kopenawa e Bruce Albert, se tornou uma obra de referência para compreender a luta do povo Yanomami, além de sua perspectiva histórica e cultural a respeito do mundo dos brancos. A partir da densa publicação, os cineastas Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha abraçaram o desafio de transformar a reflexão num longa-metragem capaz de captar tanto a resistência destes homens e mulheres quanto a beleza de seus rituais e práticas cotidianas.

O filme condensa falas de Kopenawa com celebrações Yanomami, enquanto busca uma forma de representar, esteticamente, o complexo conceito da queda do céu. A dupla de diretores forma, fomenta e divulga o cinema indígena há anos, de modo que construiu uma obra realizada em parceria com este povo, ao invés de proporcionar mais um documentário sobre eles. O resultado foi selecionado no prestigioso Festival de Cannes, e chega aos cinemas em 20 de novembro.

O Meio Amargo aproveitou para conversar com os realizadores:

O que significa, para os Yanomami, a queda do céu?

Eryk Rocha: Bom, vamos falar do que a gente sente, porque quem melhor responderia isso seriam os Yanomami. Nós, como artistas e e realizadores, traduzimos em nossa leitura intuitiva. Tem uma frase do Bruce Albert, o co-autor do livro, que eu gosto muito. Para ele, a queda do céu não significa uma mera profecia exótica, embora muitas vezes seja lida assim. Ela é muito mais um diagnóstico, um alerta sobre um sistema de predação da terra, dos povos e dos corpos, que precisa chegar ao fim.

Gabriela Carneiro da Cunha: A queda do céu é esse grande esforço, por parte dos xamãs e dos pensadores Yanomami — por aqueles que exercem uma diplomacia entre mundos indígenas e não-indígenas, entre mundos humanos e não humanos, de chegar numa síntese da imagem espiritual, da imagem política e estética do colapso. Ou seja, um retrato de onde esse sistema de predação da terra, dos povos, dos corpos e dos espíritos está levando a gente.
Por isso existe a imagem de um céu ferido pelas atividades econômicas, pela fumaça do ouro, da extração mineral, da atividade industrial desenfreada. Então, vão se abrindo rachaduras nesse céu, que fica sempre à beira de cair. Acho isso muito forte porque o céu, assim como a possibilidade da vida, não é dada. Ela é trabalhada e retrabalhada pelas ações dos vivos. Esse céu ferido e instável está à beira de cair sobre as cabeças, não só dos Yanomami, mas de todos os viventes. Só quem sabe consertar as feridas desse céu são os xamãs e os Yanomami, que têm as tecnologias entre mundos.
Mas em um mundo onde a vida desses xamãs está ameaçada, porque eles estão morrendo da doença causada pelos brancos, ou porque os brancos estão invadindo a sua terra, construindo estradas, fazendo garimpo, desmatando a sua floresta e causando um genocídio, torna-se difícil para os próprios Yanomamis manterem a sua cultura, e para os xamãs preservarem suas tecnologias entre mundos. Esses xamãs estão desaparecendo. Se o último xamã Yanomami desaparecer, não haverá mais ninguém capaz de curar o céu ferido, que vai cair sobre a cabeça de todos.

O filme faz uma denúncia direta do genocídio e dos ataques ao modo de vida dos Yanomami. Mesmo assim, ele termina com a resistência, a luta, o nascimento de um bebê. É um olhar otimista.

Eryk Rocha: Tem uma particularidade, porque o nosso filme irradia a partir da comunidade Watoriki, que é a comunidade do Davi Kopenawa. Graças ao Davi e às outras lideranças, eles conseguiram neutralizar o garimpo ilegal, digamos. Por outro lado, o rio está muito distante, a sete horas dali. Não tem rio próximo, o que distancia a questão do garimpo. Por essa contingência, ele estão numa realidade diferente daquela de outros Yanomami, dentro de um vasto território. Muitos indígenas têm o garimpo próximo, e vivem em situação de muita precariedade, doença, prostituição, etc.
Mas nessa comunidade, não tem garimpo legal. Isso também dita o nosso foco. A gente concentra o filme ali, sem nenhuma vontade de trazer uma questão totalizante, sociológica da situação do garimpo. O filme se enraíza na experiência daquela comunidade nesse contexto da grande festa em homenagem ao sogro do Davi. Por isso, a tragédia e a violência aparecem pelo extracampo do som. Elas estão nas rádios, em algumas questões do desenho sonoro que trazem a ameaça de invasores do garimpo. Isso se articula com a voz e o pensamento do Davi que, por vezes, aborda essas questões. Mas tudo através do som. Isso é interessante também como estratégia dramatúrgica porque, apesar de todos os problemas, é uma realidade orgânica, harmônica, em estado de alegria contagiante. Tem uma energia ali, devido ao contexto de festa. Não dá para esquecer disso.

Muitos indígenas têm o garimpo próximo, e vivem em situação de muita precariedade, doença, prostituição.

Gabriela Carneiro da Cunha: Eu acho ainda mais forte pelo fato de ser uma menina nascendo. No filme, ela nasce depois que o céu cai. Isso vem depois do black, depois das imagens em preto e branco sobre o mundo que cai. Então nasce uma menina e a gente muda o narrador do filme, né? Passa-se a uma mulher, uma liderança Yanomami também que fala sobre a vagina da mãe terra. Ela lembra que só tem um caminho para se chegar no mundo, que é a vagina da mãe terra. Então, nasce essa menina. Isso é muito forte, porque traz um lugar de continuidade. Apesar de toda a violência, os Yanomami continuam vivos, e continuam lutando. O Davi tem uma fala muito bonita: “Por que eu luto? Porque eu estou vivo”.
Então, estar vivo é permanecer em luta. Isso é uma escolha deles? Certamente não. Eles prefeririam estar fazendo festa, cuidando da roça, vivendo a vida deles, mas devido a essa relação com o mundo não-indígena, e à imposição de um mundo que os invade há centenas de anos, eles são obrigados a estar em luta.

Tem uma cena que me parece bem importante, quando o personagem diz: “Eu estou aqui me deixando filmar. Será que eles são realmente nossos aliados?”. Este me parece um tensionamento fundamental em todo o cinema Yanomami. Como eles acolhem a presença de uma equipe em sua rotina, e que expectativas tinham a partir do filme?

Eryk Rocha: Durante a nossa estadia lá, para as filmagens, umas três pessoas vieram me chamar, enquanto eu descansava na rede. Elas me acordaram quando ainda estava meio escuro. Então, me tocaram e falaram: “Quando vocês voltarem aqui com o filme, vocês têm que fazer um filme sobre a nossa alegria, a nossa coragem. A gente não quer ver mais miséria, criança desnutrida, violência, helicóptero, avião passando. A gente vê isso toda hora. Então não esqueça do que vocês viram aqui, e lembre que nós, Yanomami, também somos isso que vocês viram”.
Isso foi muito importante, e nos guiou também. Toda essa energia que você sentiu no final, a gente também sentia durante a festa. Era um transe, mesmo — como um portal para a gente, essa experiência de conviver com eles durante um mês. Por isso, foi uma escolha nossa trazer essa dimensão do rito, da festa, de uma grande teatralidade, que dialoga também com o cinema. A gente estava ali com as câmeras, e tinha essa profusão de linguagens, entre os ritos Yanomami e o cinema que a gente estava fazendo. Tudo se funde numa grande dança cósmica.
Logo depois, por coincidência, veio o início do governo no Lula, após toda a crise sanitária, e as denúncias que foram feitas em relação ao governo anterior, este governo genocida. Tinham mostrado muitas imagens de crianças Yanomami desnutridas. Isso foi para a televisão, inclusive, e para o mundo inteiro. Utilizaram esta tragédia, esta violência, como produto. Isso se propagou, se cristalizou, e foi estigmatizando as imagens dos Yanomami. A denúncia virou uma coisa banalizada, publicitária.
Isso também provocou a gente ainda mais, no sentido da responsabilidade do cinema. Quando você cria uma imagem, você cria um mundo. Você pode fazer um mundo, ou pode destrui-lo. A gente também precisa, com honestidade, trazer a potência desse mundo como uma escolha estética e cinematográfica. É uma postura ética em relação ao que a gente viveu.
Não é só a denúncia e e o alerta, porque este é tanto um filme sobre os Yanomami quanto sobre nós. Pouco se fala a respeito, mas isso decorre da natureza do livro, da contra-antropologia do Davi. Você cita uma cena crucial, que está na metade do filme, e marca a virada dramatúrgica do filme. A partir daquela cena, o filme vira a câmera para nós. O Davi começa a fazer o diagnóstico do povo da mercadoria. Então, o filme deixa de ser mítico e onírico, focado na cosmologia, e passa a ser mais frontal, quando o Davi discute a questão geopolítica do ouro, do garimpo ilegal, da violência. O Davi começa a falar para gente, diretamente para a câmera. Então, este momento é um divisor de água do filme, é uma ruptura. A partir daí, a gente muda a perspectiva do filme, que deixa de abordar a cosmologia e o sonho para se tornar mais brutal, mais direto.
Era fundamental a gente incluir na montagem esta colocação do Justino, quando ele questiona a equipe de filmagem, porque estabelece o papel do cinema nesse processo histórico político de luta. Qual é a nossa postura, enquanto cineastas, diante da violência colonial, do genocídio? Precisamos questionar a nós mesmos, inclusive, e o filme a gente está fazendo. Qual é o papel estético e político do cinema social? Que aliança é essa? Então, a gente coloca em cheque anos e anos de apropriação, de exploração do próprio cinema nesse processo. Não basta a temática: que linguagem você propõe? Como vai representar essa cosmologia, esse povo? Em que medida você chega com uma estética e uma linguagem prontas, para colocar aquele povo dentro de um produto e vender? E o quanto você se abre para que o filme nasça a partir desta relação?

Qual é a nossa postura, enquanto cineastas, diante da violência colonial, do genocídio? Precisamos questionar a nós mesmos, inclusive, e o filme a gente está fazendo.

Gabriela Carneiro da Cunha: Toda a denúncia sobre a crise sanitária, que depois foi super propagada, teve uma função importante naquele momento, no sentido de explanar para o país, e para o mundo, o que estava acontecendo na terra indígena Yanomami, fruto do governo anterior. Então foi importante, naquele momento, que isso tenha aparecido. O jornalismo tem a sua força, enquanto o cinema traz outra possibilidade de denúncia.
Mas também existe o tempo do cinema que, diferente do jornalismo, pode fazer sonhar junto, entrar na cosmologia, trazer a crítica para o nosso próprio mundo. Essa cena com o Justino coloca a nós, realizadores, dentro do filme — ela coloca o cinema dentro do filme, abrindo um portal temporal. Ele lembra que nós somos herdeiros, e afirma: “Os seus antepassados assassinaram os meus. Então, vocês chegam aqui hoje e, mesmo sendo filhos desse povo, vocês querem me filmar. E eu me pergunto: vocês vão ser, de fato, aliados dos meus netos?”. Ele coloca em perspectiva todo o nosso passado, o nosso presente e todo o nosso futuro. Vocês vão ser aliados? Para que serve esse filme?
Então, esta é uma cena crucial, porque traz uma pergunta sem resposta. É a pergunta do nosso tempo, enquanto herdeiros de um processo colonial. Qual relação nos propomos hoje com os povos indígenas?Como a gente vai transformar isso, e com que ferramentas? O filme é a tentativa estética, política e processual de transformar essas relações. Mas a pergunta continua reverberando; ela não se responde num filme só. A gente ainda vai responder essa pergunta até a gente morrer. Nossa relação com os Yanomami não se se fecha na realização desse filme: ela continua no fortalecimento do cinema Yanomami. Agora, estamos produzindo o próximo filme do Morzaniel Iramari, que fez o Mari-Hi: A Árvore do Sonho (2023). Este vai ser o primeiro longa-metragem dele.
Então esta pergunta vai se estender pelo tempo, da mesma maneira que a gente espera que o filme ressoe no tempo, que ele não fique circunscrito a 2025, nem aos próximos cinco anos. A gente deseja que o filme sobreviva à gente, e que essa pergunta sobreviva à gente. Nesse sentido, escolhemos não colocar no nosso filme algumas imagens muito difíceis que vimos dos Yanomami, porque são imagens que dizem muito mais sobre o que a gente faz com eles, do que sobre os Yanomami. Os Yanomami não estão nesta confrontação direta: eles são esse povo belo, forte, cantando, celebrando, dançando. Eles estão tendo filhos, caçando, plantando, fazendo xamanismo.

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