
Um letreiro inicial nos informa sobre uma situação preocupante: diversos filmes dirigidos pelo paraibano Machado Bittencourt se deterioraram a tal ponto que não podem mais ser recuperados, nem restaurados. Restam as manchas, os riscos, os fragmentos incomunicáveis de projetos que, um dia, sonhavam um futuro melhor para Campina Grande. Imaginavam o progresso, a transformação social. Criticavam as falhas da sociedade dos anos 1970, que pressupunham superadas nas gerações seguintes. Estas vistas do passado se projetavam adiante.
O diretor e professor Fabiano Raposo decide utilizar estas películas, no estado em que se encontram atualmente, para compará-las com a cidade contemporânea. O que se transformou, de fato? Os sonhos de Bittencourt foram premonitórios, ou meras idealizações? Num primeiro momento, a câmera de nossos dias busca as ruas e ângulos exatos, capturados pelo veterano décadas atrás. A montagem efetua a comparação, para revelar tanto os edifícios idênticos quanto os novos comércios que tomaram conta da paisagem urbana.
Logo, entretanto, notam-se transformações profundas. A cidade paraibana está tomada por anúncios de casas de aposta online, tendo cantores sertanejo e jogadores de futebol como sorridentes garotos-propaganda em outdoors gigantes. A religiosidade tomou conta do espaço público, interferindo nas regras de uma organização supostamente laica. Pastores, coaches e outros influenciadores armaram golpes após moverem multidões. Os políticos de antigamente foram substituídos por seus filhos e netos, que continuam reinando pela região.
Cria-se a estranha sensação de que tudo e nada mudou: o dinheiro ainda rege as relações, embora possua uma embalagem mais lustrosa, mais publicitária — um verniz de legalidade. Algo que permanece idêntico, são os homens miseráveis pelas ruas, assim como os vendedores ambulantes, tentando sobreviver. Apesar de fenômenos recentes (o bolsonarismo, a ascensão da extrema-direita), a projeção de uma igualdade social ou um progresso econômico não se materializou. A riqueza continua acumulada na mão de poucos herdeiros.
Talvez fosse simples observar tal contexto por um viés melancólico, de lamentação. Ora, Raposo prefere uma abordagem muito mais feroz, ágil, irônica, e mesmo divertida. A montagem efetua associações típicas dos nossos tempos de redes sociais, abraçando o ritmo vertiginoso dos memes. A sequência com dezenas de filhos de poderosos, sucedendo aos pais, tios e avós, despertou risos no Cine São José, enquanto a menção frontal e jocosa aos bolsonaristas fanáticos, poucos dias depois da prisão de Jair Bolsonaro, também ganhou uma camada extra de sarcasmo.
Logo, Ninguém (Mais) Verá consegue rir da própria desgraça, enquanto a critica e tensiona. Ama-se a ideia desta cidade que o autor gostaria de ver próspera; o que não implica em fechar os olhos para as grandes falhas estruturais percebidas no município. Encontra belas equivalências entre o material de Bittencourt e aquele de suas próprias fabulações — caso da mulher sonhadora, que parece aspirar a uma paz inexistente conforme fecha os olhos. Trata-se de um curta-metragem que acredita em sonhos, porém, sabe muito bem distingui-los das falsas promessas dos salvadores de ocasião, propagandeados pelas mídias e panfletos eleitorais. O cinema (quase) perdido de Bittencourt vem dialogar com o cinema-ensaio de Raposo, para dar conta de um Brasil de dispersão, polarização e coalizão — tudo ao mesmo tempo.





