Lendo o Mundo (2025)

A fome do saber

título original (ano)
Lendo o Mundo (2025)
país
Brasil, EUA
linguagem
Documentário
duração
70 minutos
direção
Catherine Murphy, Iris de Oliveira
visto em
20º Fest Aruanda (2025)

Desde a crescente polarização política brasileira, em meados de 2013, Paulo Freire se tornou um símbolo da luta entre esquerda e direita. Não que seus detratores possuam argumentos sólidos em contrário — muitos deles jamais leram a produção do professor e teórico da pedagogia —, porém, partem deste nome para vender uma nova ameaça do comunismo e da doutrinação de nossas crianças. Por trás dos ataques gratuitos, transparece a tentativa de descredibilizar a escola e o ensino em geral, responsáveis por fomentar o pensamento crítico.

Lendo o Mundo se dedica a compreender o que significa, afinal, o método Paulo Freire. Quem teria sido este homem, e de que maneira alfabetizou mais de 300 adultos na cidade de Angicos (RN), em apenas 40 horas? As diretoras Catherine Murphy e Iris de Oliveira tomam o cuidado de partir do princípio de seu tema, tanto na formação de Freire quanto na própria concepção do que constituiria o povo. Para isso, voltam às terras secas do Nordeste de antigamente, à pobreza, ao status crônico de trabalhadores “com medo de tudo, medo até de ir à escola”, conforme aponta uma personagem. O motivo para isso? O receio do comunismo; sempre o mesmo bicho-papão.

Uma obra voluntariosa, muito humana e empática, baseada em uso minimamente eficaz de estética audiovisual.

É uma pena que os materiais de arquivo iniciais sejam os mais fracos de todo o longa-metragem. A experiência parte de fragmentos granulados, de pouca nitidez e inteligibilidade, sem nenhuma forma de restauro. Trata-se de uma primeira impressão pouco convidativa, embora o documentário se recupere a seguir — sempre com imagens funcionais, a partir de uma textura digital de baixa qualidade. O projeto certamente coloca a importância e nobreza de seu tema acima da sofisticação estética, razão pela qual alguns close-ups próximos até demais, e outros diálogos de difícil compreensão (devido à dicção das pessoas idosas, não do belo trabalho de captação sonora) passam despercebidos pela montagem.

Enquanto discussão, a obra se sobressai graças ao entendimento dos aprendizados (inclusive aquele do próprio Paulo Freire) enquanto processos graduais. Ao invés de idealizar o educador, demonstra casos em que as primeiras teorias se provaram falhas, precisando de ajustes. Aprendeu-se na base da tentativa e erro, porém, sempre na crença de que os adultos analfabetos compreenderiam melhor a língua caso estudassem a partir de um vocabulário próximo de suas vidas. Por isso, o léxico referente à natureza e ao trabalho na terra era privilegiado. Restava a crença fundamental de que o professor precisava se adaptar ao aluno, não o contrário.

As cineastas também deixam claro que esta iniciativa constituía um evidente posicionamento político, apesar de não-partidário. Interessa bastante rever, em pleno 2025, as imagens do golpe de 1964, novamente com apoio norte-americano, sob alegações de preservar a ordem, a família e outros grandes valores tradicionais, contra uma inexistente ameaça progressista. O papel dos militares conspiracionistas dialoga diretamente com o Brasil contemporâneo, ainda que com casos mais esdrúxulos no século XXI. A história se repete, a primeira vez como tragédia, e a segunda, como farsa. A reflexão de Marx continua atualíssima.

Apesar de conversas eloquentes, e de um belo convite à reflexão, Lendo o Mundo sofre com deficiências de ordem da linguagem. Opta por um estilo de montagem típico da era do YouTube, apresentando desde os primeiros minutos certos trechos que pretende repetir adiante (a frase sobre a “fome do saber”, o questionamento sobre “criar cascavel”), visando reter a atenção do espectador que se pressupõe desatento. (Talvez não se trate da melhor abordagem pedagógica, em se tratando de um filme acerca de pedagogias). Adiante, a câmera efetua um zoom-in no rosto da mulher que chora, antes de a montagem articular tal imagem com mais dois rostos emocionados. A narrativa, bastante sóbria até então, cede ao sentimentalismo e à exploração emocional.

A utilização de letreiros também desperta questionamentos. A cerca de dois terços da trama, surge uma longa série de fatos e dados: foram 21 anos de ditadura militar no Brasil; Paulo Freire permaneceu 70 dias na prisão, e 16 anos no exílio. No final, entretanto, recorrem-se a generalidades — verídicas, sem dúvida, embora isentas de qualquer fundamentação. Fala-se que Freire se tornou influente, um dos intelectuais mais lidos em sua área, mais respeitado, etc. Talvez este fosse o momento de maior necessidade de comprovação por meio de pesquisas. Afinal, tais frases são repetidas popularmente há décadas e, numa obra destinada a comprovar a sua validade, o mínimo de metodologia científica e teórica ajudaria a consolidar o discurso.

Resta uma obra voluntariosa, muito humana e empática, baseada em uso minimamente eficaz de estética audiovisual. A montagem se permite experimentar com registros que jamais se desenvolvem — vide o uso da trilha sonora, evocando os valores da educação, e mesmo a ficcionalização da garota entregando o artigo sobre Paulo Freire “ao vivo”, em registro demasiadamente artificial. Ressalvas à parte, o projeto permite compreender melhor um intelectual cujo trabalho possuiu um impacto bastante direto e comprovável na vida das pessoas — um pensador da vida prática, ao invés de meramente teórica. Graças à perspectiva do filme, a transformação por meio do ensino se esclarece.

Lendo o Mundo (2025)
6
Nota 6/10

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