Abre Alas (2025)

Espaço de escuta

título original (ano)
Abre Alas (2025)
país
Brasil
linguagem
Documentário
duração
109 minutos
direção
Ursula Rösele
com
Heloísa Arthur Maciel de Castro Gomes, Lorena Maria de Paiva, Maria Auxiliadora da Silva Rosa, Regina Célia, Sheila Paiva, Silvana Maria Leal de Assis, Walkíria Gomes
visto em
Cinemas

Abre Alas elege como protagonista um grupo social que raramente estrela os filmes brasileiros: as mulheres de mais de 50 anos, com idades que vão até 85 anos. A diretora Ursula Rösele convida sete personagens para discutirem seus amores, as relações familiares, profissionais, e a maneira como perceberam sua autonomia, comparando as gerações mais conservadoras com as conquistas do feminismo. Sexo, prazer, casamento, traição, separações, traumas: nada se torna tabu para o documentário.

Nota-se uma preocupação fundamental em diversificar a amostragem, mesmo que seleta. Há mulheres cis e trans, brancas e negras, de classes sociais distintas. Alguns depoimentos apresentam relacionamentos abusivos; já outros se referem a casamentos felizes. Determinadas mulheres relatam a descoberta tardia do prazer sexual, enquanto as seguintes compartilham a vida sexual bastante ativa com os namorados. Deste modo, o discurso não se atém a um tema único, tampouco a uma denúncia em particular. Elas jamais são reduzidas a exemplos de uma causa.

Logo, em termos de ambições, o projeto está muito bem amparado e justificado. As principais ponderações à obra dizem respeito às escolhas estéticas para materializar objetivos tão nobres. Todas as personagens são convidadas a um cenário idêntico: um estúdio frio, impessoal, ornados com espelhos espalhados aqui e acolá. A luz escura inspira solenidade, neste local onde ninguém interage com a estrutura ao redor. Ao invés de a câmera se mover à realidade das mulheres, pede que as entrevistadas adotem uma postura ereta, séria, com roupas e maquiagens dignas de um evento importante.

Abre Alas se preocupa muito mais em honrar e escutar as mulheres do que com a força das imagens, a dinâmica da montagem, a potência do som.

Em consequência, qualquer despojamento ou coloquialidade se afasta da proposta. A cineasta expõe suas perguntas, em tom bastante austero: “A senhora viveu — e acho que ainda vive — uma história complexa de doença no seu corpo. Como é isso?”. “Você acha que é possível, na vida de uma mulher, um equilíbrio entre maternidade, vida profissional, amor?”. “Como é para a senhora ser mulher nesse mundo?”. “Provavelmente você precisou cumprir uma série de papéis, até se sentir liberta. Em que momento você se sentiu autorizada?”. Para a mulher trans, o questionamento chega a soar um tanto intrusivo, mesmo agressivo: “Você acha que o seu corpo assusta os homens?”.

Deste modo, as conversas são conduzidas a temas específicos. A diretora procura explicitamente tocar nas feridas, levar suas protagonistas a mencionarem suas dores. Pede que relembrem acidentes de carro, abandono familiar, violência conjugal. À mulher trans cujo filho a trata no pronome masculino, cutuca o nervo exposto: “Não dói?”. (As perguntas parecem sempre mais expositivas e incisivas às mulheres trans). No entanto, qualquer caráter possivelmente sensacionalista é atenuado devido à fala calma, o tom afetuoso, além de um minuto de silêncio inicial (ou quatro minutos, graças à montagem), quando se almeja certa horizontalidade no discurso: “Queria te convidar aqui, nessa estrutura de cinema, para eu e você juntas, a gente ficar um pouquinho em silêncio”, argumenta Rösele. 

O projeto jamais esconde sua vertente terapêutica, de expiação das dores e reparação das chagas. Espera-se que, ao falarem de suas histórias, as personagens se aliviem (uma delas, de fato, agradece pela oportunidade), e que os espectadores (e as espectadoras, em particular), ao se identificarem com as narrativas verbalizadas, se sintam menos sozinho(a)s em suas vivências pessoais. Para isso, criam-se pequenas cenas poéticas, visando gerar algum respiro entre a verborragia das conversas. Trata-se de instantes delicados, ainda que excessivamente literais, e pouco pensados em termos de enquadramento e iluminação para, de fato, produzirem alguma ruptura no tom da narrativa. 

Assim, duas mulheres apagam, sobre a pele uma da outra, palavras como ausência, desamor, adultério, dor, feridas, humilhação, violência. Enquanto isso, a música entoa os versos “Eu cuido de você, e você cuida de mim”. À mulher cuja mãe era pianista, pede-se que perambule a esmo entre tecidos transparentes, sobre os quais se projetam vídeos da falecida artista. A mulher não sabe muito o que fazer em termos de movimentação, soando pouco dirigida. Adiante, uma personagem trans escreve o nome (de colegas, aparentemente) sobre um vidro, mesmo que as histórias destas mulheres estejam ausentes do discurso. Pode-se falar em performances singelas, bem-intencionadas, entretanto, de ousadia ou força bastante limitadas.

Tal impressão se estende à obra na totalidade. Abre Alas desperta muito mais interesse pelo som (o registro dos depoimentos) do que pelas imagens, secundárias nesta construção de linguagem. Todas as conversas aparentam ter sido captadas num único dia, ou em poucos dias. Devido à repetição deste espaço, desgastam o interesse visual (é difícil manter a atenção nos mesmos espelhos e tijolos depois de algum tempo). Sobretudo, graças à fala pesarosa, excessivamente polida e formal, soa às vezes como interrogatório, ou depoimento para arquivos de alguma instituição. 

Teria sido interessante entender como as mulheres agiriam entre si, numa conversa em grupo, em dentro suas casas, na rotina, e inclusive com as amigas, ou contextos menos rígidos. Entretanto, a montagem nunca permite nenhum atrito nas falas, ou mínimas alterações do ritmo voluntariamente monocórdico. Abre Alas registra as conversas e as justapõe, uma após a outra. As personagens não retornam, nem completam exatamente as falas alheias, para além de afinidades gerais das temáticas abordadas. O que diriam uma à outra, caso se encontrassem? A edição poderia desenvolver muito mais o seu conceito, e explorar outros recursos dentro do formato engessado das cabeças falantes. 

No entanto, a seriedade do projeto leva a esta obrigação autoimposta de não interromper, não gerar discordância, não suspender a sessão terapêutica antes da hora. Ainda se escolhe preservar as perguntas da direção, e revelar a presença da diretora por meio dos ângulos cuidadosamente escolhidos para os espelhos cenográficos. Assim, além da direção e da voz que interroga, ela se faz presente na condição de personagem, corroborando à crescente tendência de cineastas que insistem em se colocar em primeiro plano, em cena, em importância equivalente àquela dos entrevistados. 

Por fim, a obra se preocupa muito mais em honrar e escutar as mulheres do que com as ferramentas da linguagem cinematográfica: a força das imagens, a dinâmica da montagem, a potência do som. Quem dera as ambições humanistas encontrassem uma forma e uma linguagem à altura.

Abre Alas (2025)
5
Nota 5/10

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