O Fantasma da Ópera (2026)

Silêncio: Bressane trabalhando

título original (ano)
O Fantasma da Ópera (2026)
país
Brasil
linguagem
Experimental, Documentário
duração
26 minutos
direção
Júlio Bressane, Rodrigo Lima
elenco
Paulo Betti, Júlio Bressane, Rodrigo Lima
visto em
29ª Mostra de Tiradentes (2026)

Este é um projeto bastante peculiar: o making of de um filme ainda não-finalizado. Enquanto Júlio Bressane e Rodrigo Lima preparam Pitico, longa-metragem estrelado por Paulo Betti, fragmentos das filmagens chegam ao espectador na forma de um curta-metragem. Não há narração, letreiros, entrevistas ou diálogos propriamente ditos, somente uma contemplação espontânea do processo criativo de algumas cenas.

Assim, a câmera de Pablo Baião desliza aqui e acolá, perde o foco e o centro de atenção, flutua pelos ares, vira de ponta-cabeça. Nota-se um cinema do improviso, do tempo presente, sem preparação prévia ou discurso autônomo, descolado da obra maior, em andamento. Qualquer preciosismo de enquadramento e som é desprezado em busca do prazer de contemplar Bressane, em particular, dirigindo atores e fornecendo indicações ao resto da equipe. 

Neste sentido, nota-se um respeito sepulcral ao veterano do cinema brasileiro. Desprovido de teses, O Fantasma da Ópera jamais elenca argumentos pessoais para venerá-lo ou convencer o espectador de suas qualidades (ou seja, esta não é uma homenagem, nem hagiografia habitual). Entretanto, a simples forma como a imagem e os demais membros da equipe o admiram transmitem a reverência ao criador. 

Nenhum acontecimento excepcional ocorre diante da câmera. Esqueçam as revelações, segredos, curiosidades e demais exotismos de bastidores. A maneira como Bressane conduz Paulo Betti, e como sugere a tensão através da sombra da cadeira balançando sozinha, poderia ocorrer com qualquer outro criador. Em contrapartida, parte do encantamento se deve precisamente ao conhecimento extrafílmico solicitado ao espectador, a quem se espera que conheça e aprecie a filmografia bressaniana. Esta não é uma obra de introdução ao trabalho de Bressane, muito pelo contrário.

Enquanto isso, a trilha sonora passa da marchinha de Carnaval ao jazz e à ópera do título, recusando qualquer compromisso com uma coesão narrativa no sentido tradicional do termo. Enquanto as sombras se multiplicam na cena, e assombrações fictícias são criadas pela equipe, paira um questionamento: seria Bressane o verdadeiro fantasma deste projeto? O elemento misterioso e dominador, o núcleo em torno do qual se organiza toda a estrutura do longa-metragem? A persona cuja carreira, peso autoral e decisões impactam os demais por sua simples presença?

Chega-se ao curioso paradoxo de um curta descompromissado a respeito de um artista importantíssimo; uma perspectiva de improviso para valorizar a conduta de um profissional experiente, de profunda elaboração intelectual. Bressane é valorizado em suas contradições, elogiado pelo avesso — algo que certamente condiz com o autor creditado como responsável por esta obra, e afeito a um cinema que “não agrada”, em suas palavras. De certo modo, em sua desafetação e humildade, O Fantasma da Ópera se converte na homenagem a um autor em movimento.

O Fantasma da Ópera (2026)
6
Nota 6/10

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