
Este é um projeto bastante peculiar: o making of de um filme ainda não-finalizado. Enquanto Júlio Bressane e Rodrigo Lima preparam Pitico, longa-metragem estrelado por Paulo Betti, fragmentos das filmagens chegam ao espectador na forma de um curta-metragem. Não há narração, letreiros, entrevistas ou diálogos propriamente ditos, somente uma contemplação espontânea do processo criativo de algumas cenas.
Assim, a câmera de Pablo Baião desliza aqui e acolá, perde o foco e o centro de atenção, flutua pelos ares, vira de ponta-cabeça. Nota-se um cinema do improviso, do tempo presente, sem preparação prévia ou discurso autônomo, descolado da obra maior, em andamento. Qualquer preciosismo de enquadramento e som é desprezado em busca do prazer de contemplar Bressane, em particular, dirigindo atores e fornecendo indicações ao resto da equipe.
Neste sentido, nota-se um respeito sepulcral ao veterano do cinema brasileiro. Desprovido de teses, O Fantasma da Ópera jamais elenca argumentos pessoais para venerá-lo ou convencer o espectador de suas qualidades (ou seja, esta não é uma homenagem, nem hagiografia habitual). Entretanto, a simples forma como a imagem e os demais membros da equipe o admiram transmitem a reverência ao criador.
Nenhum acontecimento excepcional ocorre diante da câmera. Esqueçam as revelações, segredos, curiosidades e demais exotismos de bastidores. A maneira como Bressane conduz Paulo Betti, e como sugere a tensão através da sombra da cadeira balançando sozinha, poderia ocorrer com qualquer outro criador. Em contrapartida, parte do encantamento se deve precisamente ao conhecimento extrafílmico solicitado ao espectador, a quem se espera que conheça e aprecie a filmografia bressaniana. Esta não é uma obra de introdução ao trabalho de Bressane, muito pelo contrário.
Enquanto isso, a trilha sonora passa da marchinha de Carnaval ao jazz e à ópera do título, recusando qualquer compromisso com uma coesão narrativa no sentido tradicional do termo. Enquanto as sombras se multiplicam na cena, e assombrações fictícias são criadas pela equipe, paira um questionamento: seria Bressane o verdadeiro fantasma deste projeto? O elemento misterioso e dominador, o núcleo em torno do qual se organiza toda a estrutura do longa-metragem? A persona cuja carreira, peso autoral e decisões impactam os demais por sua simples presença?
Chega-se ao curioso paradoxo de um curta descompromissado a respeito de um artista importantíssimo; uma perspectiva de improviso para valorizar a conduta de um profissional experiente, de profunda elaboração intelectual. Bressane é valorizado em suas contradições, elogiado pelo avesso — algo que certamente condiz com o autor creditado como responsável por esta obra, e afeito a um cinema que “não agrada”, em suas palavras. De certo modo, em sua desafetação e humildade, O Fantasma da Ópera se converte na homenagem a um autor em movimento.




