Politiktok (2026)

Histeria coletiva

título original (ano)
Politiktok (2026)
país
Brasil
linguagem
Documentário
duração
112 minutos
direção
Álvaro Andrade Alves
visto em
29ª Mostra de Tiradentes (2026)

Uma tela vertical. Várias telas dentro desta tela vertical, com rostos de anônimos. Comentários escritos se sucedendo na parte inferior, em ritmo vertiginoso. No espaço preto logo ao lado, a tradução em inglês dos escritos vertiginosos. Pessoas falando ao mesmo tempo, umas sobre as outras, solicitando nossa atenção, nossa indignação, nossas curtidas e nosso dinheiro. No caso, gritam as virtudes e vícios de Lula, as qualidades e defeitos de Bolsonaro. Elogiam Deus, comentam os atos de Carla Zambelli, e instigam os espectadores a buscarem a verdade em meio às fake news… assistindo a mais vídeos das redes sociais.

Politiktok apresenta, como sugere o título, um painel desta forma muito particular de comunicação. O diretor Álvaro Andrade Alves compila uma infinidade de vídeos produzidos por pessoas comuns — em outras palavras, ele não busca os influenciadores famosos e patrocinados por marcas ou grupos políticos. Prefere ir de encontro a cidadãos distintos, equilibrando publicações de lulistas e bolsonaristas às vésperas da eleição de 2022. Neste grupo, há homens e mulheres, mais velhos ou jovens, que se articulam via humor ou ira. Isso inclui os gays com Bolsonaro, as mulheres negras da extrema-direita, e os evangélicos de esquerda — isso sem falar no posicionamento “Nem Lula, nem Bolsonaro, é Deus!”

Um dos méritos de Politiktok reside na capacidade de entender a “disputa de narrativas” enquanto produto capitalizado pelas mídias sociais. No entanto, o filme é excessivamente longo, o que torna a experiência exaustiva.

As contradições interessam ao cineasta, que busca ultrapassar os lugares-comuns. Seria tentador selecionar somente as falas mais absurdas e cômicas, rendendo-se à lógica de sensações fáceis da própria rede social. No entanto, ele evita as tradicionais falas de Bolsonaro a respeito da pandemia, para não repetir discursos que presume conhecidos do espectador. O filme nunca introduz a rivalidade, nem mesmo investiga a origem do atual cenário socioeconômico. Prefere entender de que maneira ele se expressa dentro deste universo de códigos e interações muito precisos. Em outras palavras, o projeto parte da política para melhor entender as mídias digitais, e não o contrário.

Assim, possui evidente caráter de curiosidade. Para os espectadores pouco familiarizados com esta “praça pública virtual”, descobrem-se alguns protagonistas, caso do trabalhador da construção civil, amado e insultado durante suas lives; do apresentador de um programa de extrema-direita, e do rapaz gay e nordestino que se orgulha de não precisar do governo. Todos falam, denunciam, alertam, porém, escutam muito pouco o que lhes é dito em retorno. Em geral, debocham dos comentários, fazem piada e seguem com a live. Este não seria um espaço de debate, propriamente dito, mas de propaganda e de convencimento — o termo “influenciador” não é anódino, neste sentido. Vence quem gritar mais alto, quem gerar maior volume de interação, de qualquer qualidade.

Um dos principais méritos de Politiktok reside na capacidade de entender a famosa “disputa de narrativas” enquanto produto, devidamente capitalizado pelas mídias. Os TikTokers ganham dinheiro com suas falas, por meio de moedas, “presentes”, ou patrocinadores. Por isso, interessa atrair participantes fervorosos (defensores ou detratores, tanto faz). Vende-se a revolta, fomentada e instrumentalizada pelas grandes empresas. Logo, não há interesse em acalmar o campo e encontrar um terreno amigável entre as partes, conforme pregava o discurso conciliador do candidato Lula. O intuito estaria precisamente em aprofundar tais rixas — a cólera vende e mantém pessoas coladas aos seus telefones celulares, enquanto a pacificação soa como um produto pouco atraente ao mercado.

Além disso, Andrade Alves revela que a ideologia implica numa estética e numa linguagem específicas. Não se trata apenas de votar em um ou outro: apoiadores de cada campo se comunicam com uma linguagem diferente, mediante metáforas e retóricas próprias. Argumentam a favor de uma noção específica do que seria o belo, o verdadeiro, o justo. Enquanto a esquerda desqualifica a direita, taxando-a de gado, esta ataca os progressistas, xingando a aparência de suas mulheres. Bolsonaro é chamado de genocida, e Lula, de ladrão ou cachaceiro. Em última instância, o entendimento entre as partes se inviabiliza pela adoção de critérios distintos de compreensão da realidade: seja a análise dos fatos contra o voto de fé, ou a discussão propositiva contra a ameaça e o terror (“Se Lula vencer, o Brasil vai virar a Venezuela, vamos comer cachorros, etc.”).

Em contrapartida, o resultado tem muito mais a oferecer enquanto experiência estética (uma obra de arte a partir de trechos não concebidos como arte; um longa-metragem baseado em micro vídeos isolados) do que como reflexão política. Na esfera do conteúdo, o documentário se atém às obviedades de cada campo. É claro que o filme nunca tinha se proposto a resolver nosso insolúvel impasse, porém, tampouco extrai conclusões a partir de um mosaico tão diversificado de vozes e imagens. A direção nunca defende uma tese em detrimento de outra, tampouco ataca esta forma de existência social (e econômica), preferindo enxergá-la enquanto ferramenta, veículo. Qualquer cidadão minimamente alerta aos acontecimentos do país nos últimos anos encontrará uma reprodução previsível de argumentos típicos. 

Além disso, Politiktok é excessivamente longo, o que torna a experiência exaustiva. O sinal de alerta soa cada vez que um filme-de-montagem apresenta problemas, justamente, na montagem. Com 112 minutos, a narrativa desperta a impressão de girar em círculos, repetindo falas e frases, insistindo demasiadamente no caso Carla Zambelli, e retornando a personagens cuja participação parecia ter se esgotado. A edição opta por uma estrutura muito simples de paralelismo: começamos assistindo a trechos do vídeo A, corta-se ao vídeo B, voltamos para descobrir o desfecho do vídeo A, e depois o desfecho do B. É possível que o cansaço seja voluntário por parte da direção, no intuito de produzir um distanciamento, ou mesmo certa anestesia face a materiais concebidos para provocarem nosso riso e ira. 

Em chave oposta, é possível igualmente que o diretor (e montador) tenha se encantado com tantos registros interessantes, aos seus olhos, recusando-se a tornar a narrativa mais enxuta. A separação em capítulos (“Véspera da votação”, “Dia da votação”) não provoca nenhuma organização efetiva, posto que diversas publicações poderiam surgir antes ou depois na narrativa, sem prejuízo real ao resultado. Mesmo assim, nota-se que, uma vez consolidado o resultado do pleito de 2022, o autor prefere se concentrar na desolação da extrema-direita à comemoração da coalizão de centro-esquerda. Há certo deleite em testemunhar a melancolia de gente que se articulava, até então, na base da euforia e da crença inabalável de vitória.

Resta a projeção de um universo paralelo, com pretensões de representar um país inteiro. Ora, não seria esta bolha o reflexo de tantas outras, espalhadas por diferentes mídias? De certo modo, o prazer (dos produtores de conteúdo, dos consumidores do TikTok e dos espectadores de cinema) reside na expressão infinita de opiniões, de aparência livre e democrática, ainda que se restrinja a um comportamento cuidadosamente estimulado pelos algoritmos das big techs. Politiktok se mostra, ao mesmo tempo, sério em sua análise, mas também despojado até demais, inserindo vozes de Lula e Bolsonaro em IA para “lerem” os letreiros iniciais, e dedicando a obra a Coutinho, Lynch e o tio do cineasta. De certo modo, Andrade Alves nunca se descola por completo da dinâmica do deboche, da tiração de sarro, da lacração, para esmiuçar seu objeto de estudo com o devido distanciamento. Lança hipóteses interessantes, porém, termina refém do hedonismo e da histeria das redes.

Politiktok (2026)
5
Nota 5/10

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.