Tornar-se Ciborgue no Interior (2026)

Homem é bom?

título original (ano)
Tornar-se Ciborgue no Interior (2026)
país
Brasil
gênero
Fantasia, Ficção Científica
duração
20 minutos
direção
Louisa Savignon
elenco
Edilson Silva, Talita Feuser, Noá Bonoba, Anire Niara
visto em
15º Olhar de Cinema (2026)

Em algum momento no futuro, as fazendas brasileiras terão assistentes-robôs, responsáveis por acessar bancos de dados e auxiliar os proprietários no cuidado das terras. Em paralelo, implantes subcutâneos acionarão hormônios no corpo humano, e uma troca de testículos poderá resolver problemas de infertilidade. A fantasia concebida pela diretora Louise Savignon se ampara principalmente na tecnologia para estabelecer um distanciamento em relação ao real. 

Para isso, recorre ao imaginário clássico do tema: pequenas esferas grudadas às têmporas dos personagens, vozes e gestos mecanizados para os ajudantes-robôs, flashes e glitches em pós-produção, indicando uma intervenção no real. De resto, provavelmente devido a restrições orçamentárias, as principais inovações são sugeridas via diálogo, porém, não concretizadas em imagens. Mesmo assim, parte-se de uma ousada proposta de universo paralelo. 

No entanto, a principal radicalidade reside na dupla comparação entre relacionamentos amorosos: por um lado, um casal lésbico feliz e saudável, entre duas mulheres pensando se terão filhos, e por outro, um casal heterossexual, patriarcal, em profunda crise devido à infertilidade dele. Neste último caso, o sexo é filmado de maneira desconfortável, com certa incompatibilidade entre os corpos, ao passo que a intimidade entre as mulheres transborda de carinho. Neste aspecto, a iniciativa já demonstra um posicionamento político bastante firme.

Em contrapartida, a narrativa se enfraquece devido à multiplicação de personagens, focos e interesses. O projeto não soa propriamente adaptado às potencialidades do curta-metragem, aproximando-se de um mini longa — uma amostra do que poderia ser a ficção científica, caso desenvolvida em formato estendido. Assim, elementos potentes têm seu papel diminuído devido à forma abrupta como surgem e são descartados a seguir — vide o olho sangrento, a festa apresentada mediante mera articulação de close-ups, o trabalho sexual, o implante na mão. Os elementos perdem sua força em meio à pressa de seguir adiante.

Assim, Tornar-se Ciborgue no Interior (título sedutor por si próprio) articula-se entre o prazer de presenciar grandes atores em papéis que raramente desempanham (caso de Edilson Silva e Noá Bonoba), e os perigos de acelerar processos e contextualizações. Tanto a frase repetida pelo olho assustador quanto a canção final careceriam de maior cuidado em sua inserção via montagem. “Homem é bom / Homem faz bem / Tem sempre um homem procurando alguém” pode carregar inúmeros significados, mais ou menos producentes ao discurso progressista pretendido pela obra.

O principal reflexo desta indefinição conceitual reside no término abrupto da trama — um traço comum aos curtas-metragens apresentados na mesma sessão do Olhar de Cinema. Uma vez introduzidas tantas figuras, gadgets e conflitos, a narrativa simplesmente se interrompe, dispensando uma conclusão propriamente dita. Ali, na hora de amarrar tantos pontos de vista, a criação precisaria esclarecer seu discurso. O filme transparece maior prazer em criar personagens e dilemas do que em desenvolvê-los.

Tornar-se Ciborgue no Interior (2026)
5
Nota 5/10

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