
No palco do Olhar de Cinema, enquanto apresentava seu filme ao público, o diretor João Dumans explicou que pretendia inicialmente desenvolver uma obra de denúncia acerca da destruição de Miguel Burnier, em Ouro Preto, por parte da mineradora Gerdau. Como a região se transformava rapidamente — as casas foram compradas, derrubadas, e o distrito se reduziu a apenas 80 habitantes em poucos anos —‚ era necessário efetuar o projeto às pressas. Entretanto, devido a este tempo tão particular dos processos cinematográficos, foram necessários alguns anos para a finalização. Assim, o furor decantou, cedendo espaço à reflexão mais distanciada… e à poesia.
De fato, nada resta do senso de urgência pretendido inicialmente — e melhor assim. Afinal, a força do belo A Noite e os Dias de Miguel Burnier reside na capacidade de enxergar o humanismo por trás da batalha política. A narrativa poderia elencar fatos, destacar materiais de imprensa, entrevistar responsáveis, acusar políticos. Em contrapartida, prefere se concentrar num pequeno grupo de pessoas que permanecem presas ao lugar esvaziado. Estão desempregadas, em profunda miséria e abandono por parte do governo local. No entanto, precisariam de recursos para se mudarem, e também para se livrarem do alcoolismo que, em chave cíclica, os impede de conseguir os raros empregos na região. Em mais de uma oportunidade, descrevem-se como presos a Miguel Burnier — e à condição crônica em que se encontram.
O filme traduz a triste ironia de um povo miserável cercado por riquezas, ou ainda da humanidade espremida pelas máquinas.
Logo, os impactos da mineração se refletem na vida dos habitantes. O cineasta registra as pequenas festas de aniversário, as comemorações a duas ou três pessoas, a cantoria na noite vazia. Segue o grupo perambulando pelo escuro da noite, sem luz elétrica, enquanto a planta da Gerdau brilha intensamente ao lado. Acompanha a visita às casas abandonadas que ninguém ousaria comprar ou alugar atualmente. Ainda há roupas deixadas nos armários, além de potes e panelas na cozinha. Ao reencontrar uma antiga residente, um homem que permanece em Miguel Burnier chora de saudade da colega. Duas amigas, lamentando a má condição de vida, se perguntam porque não conseguem emprego. “Porque nós bebe. Porque nós somos alcoólatra”, admite, envergonhada, uma elas.
O documentário está repleto de instantes preciosos desta magia cotidiana. Dumans certamente criou intimidade suficiente com o grupo para se sentirem confortáveis diante do dispositivo. Ninguém aparenta mudar o comportamento, nem transmitir uma versão idealizada de si próprios, em decorrência do filme. Logo, a câmera se encontra perto o bastante para soar cúmplice e parceira, mas distante o suficiente para não invadir a privacidade dos personagens, nem constrangê-los. Trata-se de uma postura ética fundamental. O único instante de tensão, inclusive, envolve somente o próprio diretor, ao se confrontar com um guarda da mineradora que o convida a sair da propriedade. Nenhum morador é colocado em posição semelhante — ainda que Zezé admita a vontade de incendiar o terreno todo. O que ele teria a perder, certo?
A montagem de Affonso Uchôa constitui outro trunfo fundamental desta iniciativa. Os comentários sociais são transmitidos através da simples (ou nada simples, dependendo do ponto de vista) associação entre imagens. Enquanto a avó cuida da bebê recém-nascida, a mãe da criança permanece sentada na cama ao lado, desinteressada, com o olhar perdido. Depois de um plano aéreo demonstrando a gigantesca estrutura da Gerdau, manipulando toneladas de minérios durante a madrugada, a montagem corta para um residente minerando sozinho, e passando oito horas para encontrar uma minúscula partícula de ouro entre os resíduos. Desta forma, traduz-se a triste ironia de um povo miserável cercado por riquezas, ou ainda da humanidade espremida pelas máquinas. Para a corporação, a parte residual seriam os habitantes restantes e incômodos. Afinal, a dominação da empresa é legalizada e incentivada pelos governos locais.
Até mesmo na hora de transmitir informações didáticas, o cineasta encontra saídas lúdicas. Dumans poderia simplesmente incluir uma enésima narração em off acerca da história de Miguel Burnier, justificando o nome do distrito. Entretanto, prefere pedir a adolescentes que leiam estes registros num livro. Filma-se, portanto, a interpretação da nova geração a respeito da descrição de terceiros. Para ilustrar a pressão impensável da mineradora no local, captura a passagem de um trem interminável, cujas partes carregam novas peças de equipamentos idênticos, vagão após vagão. A extensão deste plano, num movimento perpétuo de segmentos iguais e repetidos, nos leva à impressão de absurdo. A realidade, captada sem cortes, remete a um contexto distópico.


O que dizer, então, da trilha sonora poética, com instrumentos de sopro, sobreposta às vias tomadas pelo matagal, nas quais passam crianças brincando? A Noite e os Dias de Miguel Burnier consegue extrair a beleza de uma vida duríssima, sem embelezar a miséria para chocar o espectador, nem caindo na armadilha de escondê-la. O rígido senso de composição no interior das casas esvaziadas, e o cuidado deste olhar de cronista (vide o cavalo e os cachorros assustados com os fogos de artifício) fazem prova de uma perspectiva horizontal, empática, que ultrapassa a mera constatação dos fatos. A abordagem sensível permite tanto a observação de um comitê político quanto a melancólica confissão de uma mãe, vendo o filho regar a horta depois de um longo dia de trabalho — ele é o único empregado em toda a família. Mas o garoto há de ser feliz, ela pensa, com o olhar perdido, sob a luz do fim da tarde. A própria composição e duração deste plano transborda uma doçura e uma tristeza infinitas.
Por fim, o resultado faz prova desta política dos afetos comumente associada ao cinema mineiro — de Dumans e Uchôa, mas também de Gabriel Martins, André Novais Oliveira, Clarissa Campolina, Sérgio Borges, Rafael dos Santos Rocha. Este grupo tão politizado quanto poético de autores se recusa a dissociar os personagens dos espaços, ou a separar a intimidade familiar dos rumos do país. São, em última instância, a mesma coisa. Os criadores partem do micro para significarem o macro, ou ainda, acompanham um punhado de pessoas desamparadas para indicar as derivas deste capitalismo que prolifera sob o signo do “progresso”. Dumans nunca enxerga seus protagonistas como meras vítimas de um sistema, nem heróis de uma resistência. Prefere vê-los como amigos. Por isso, o espectador também os encara desta maneira.




