
Não me Deixe Morrer se inicia com um enorme conflito, e depois, não introduz mais nenhum. No meio da madrugada, uma mulher anda desgovernada pela rua da cidade. Estaria doente, sofrendo, enlouquecida? Ela perambula dos campos às pontes, até chegar à entrada de um prédio residencial. Toca diversas campainhas, mas ninguém responde. No dia seguinte, seu cadáver é encontrado em frente ao edifício — enfartou, devido à hipotermia. Ninguém a conhecia muito bem. Morava ali, mas era reservada. Por que não entrou, então? Para os vizinhos, o fato se torna um inconveniente, algo a esquecer o quanto antes — afinal, todos têm mais o que fazer. Somente Maria, uma das habitantes, aceita cuidar da morta.
Diversos caminhos se apresentam a partir de uma premissa tão forte. Os rumos do suspense, em moldes true crime, seriam evidentes. Os policiais poderiam investigar a vida desta mulher, até descobrir as raízes de seu comportamento estranho e determinar os culpados pelo desfecho trágico. Talvez as novíssimas produções do streaming privilegiassem esta via. Por sua vez, para o cinema hollywoodiano clássico, a miséria alheia serviria a Maria para compreender o valor de sua própria existência. Sensibilizada pelo caso, ela se tornaria uma pessoa melhor — reataria com a família, cuidaria melhor de si própria. Há males que vêm pra bem, Carpe Diem, etc.
Uma abordagem mais maliciosa do que humanista. Como poderíamos nos importar com esta morte, se nem Epure e sua equipe aparentam fazê-lo?
Ora, o diretor romeno Andrei Epure não segue nenhuma destas leituras sensacionalistas e/ou moralistas, muito pelo contrário. Partindo de um incidente obviamente sentimental, escolhe secar as lágrimas, enxugar a humanidade, e afastar o melodrama. Para ele, a morte não nos ensina nada — nem sobre a falecida, nem sobre os vivos. Trata-se de mero empecilho, um acontecimento inusitado em meio à insensibilidade geral. Por isso, concentra-se apenas na sucessão de procedimentos burocráticos despejados sobre a única moradora solícita do local. Ela precisa cuidar de certidões de óbito, atestados médicos, compra de caixão, procedimentos do velório. Tem que alimentar os cachorros da outra, e localizar o filho distante dela — tudo isso, enquanto lida com a própria demissão recente no emprego.
Observando por este prisma, o longa-metragem parece indicar uma alegoria da desumanização contemporânea. Segundo esta leitura, nós não nos importamos com os demais, e perdemos nossa capacidade de indignação. Afinal, os absurdos se multiplicam na política e na esfera íntima, a ponto de nos dessensibilizar a respeito da coletividade. Por que eu me preocuparia com uma vizinha falecida, que eu nem conheço bem? Ora, pessoas morrem todos os dias, e tenho minhas próprias questões a resolver. A filmagem implacável do diretor de fotografia Laurentiu Raducanu, com seus planos fixos, simétricos e distantes (os close-ups nos atores são raríssimos), sugere tal distanciamento. As luzes diretas, os dias frios e os apartamentos amarelados tampouco sugerem locais acolhedores. Trata-se de um mundo pouco amistoso para existir.
Em contrapartida, a tese da crítica social dificilmente se sustenta quando o próprio diretor demonstra empatia limitadíssima por seus personagens. Seria compreensível que apontasse o dedo à indiferença generalizada para, então, se colocar junto a estes solitários ou sofredores. Mas a narrativa nunca se importa de fato com a falecida Isabela Ivan (Elina Löwensohn), nem mesmo com a cuidadora provisória, Maria Laurint (Cosmina Stratan). Apesar de serem figuras de movimento, deslocando-se sem parar, permanecem na condição de duas mulheres herméticas, inacessíveis. O projeto jamais busca seus amores, suas ambições, seus sonhos, seus traços de personalidade. Evita mergulhar de fato em seu cotidiano, seus apartamentos, objetos ou sinais de afeto. Assemelha-se demais aos vizinhos despreocupados para criticá-los de fato.
Um curioso senso de humor contribui à impressão generalizada de desprezo. A comicidade pode servir muito bem aos instantes tensos, aliviando o desconforto de um cadáver em frente ao prédio, por exemplo. No entanto, neste caso, a morte jamais gera tensão. Por isso, diante de tantos quiproquós desconexos e absurdos, Epure transparece a ideia de que o dilema central tampouco lhe interessa de fato. Os agentes funerários atrapalhados, os senhores brigando na escada do cemitério, e mesmo a sugestão de que a morta possuía uma cauda (!), espécie de continuação da coluna, repleta de terminações nervosas, contribui à aparência paródica — a direção não se dedica a investigar o sofrimento da falecida, mas examina-lhe o cóccix. Não a humaniza, mas a ridiculariza. Prioridades.


Em paralelo, investe em códigos crescentes do cinema de terror. Aos poucos, Isabela retorna, importunando Maria. Toca a campainha durante a noite, persegue-a pelas ruas, mordisca seu cabelo durante a noite. As duas andam a poucos metros de distância, sob uma imponente lua cheia. Na segunda metade da narrativa, a cada nova cena, Epure introduz um novo elemento e estranhamento: o sujeito enfiado num tronco de árvore, a longa sequência da grua retirando pedras à beira-mar. A conclusão envolvendo cinzas e fogo se mostra mais surpreendente do que indicativa de possíveis chaves de leitura. Afinal, o que a direção buscava transmitir a partir de tantas performances desconexas? Como gostaria que fossem interpretadas? O que indica a respeito da morte, da indiferença, da sociedade contemporânea — do que quer que seja?
Entenda-se: metáforas e ousadias são pertinentes a qualquer cinema inventivo, ou minimamente autoral. Compreende-se que os cineastas busquem suas simbologias, além de novas vias de significado. Em contrapartida, Não me Deixe Morrer jamais explora estes elementos, nem permite que surtam qualquer impacto na narrativa, antes de passar ao mistério seguinte. Limita-se à excentricidade pela excentricidade. A conclusão, meio chocante, meio blasé, coroa uma abordagem mais maliciosa do que humanista. Nesta obra onde nenhuma imagem se sobressai às demais, nenhum som chama mais atenção do que o outro, e nenhuma cena comove ou convida à reflexão, os acontecimentos se sucedem sem real investimento (cinematográfico, político, emocional) por parte dos personagens, nem da direção. Como poderíamos nos importar com tantas reviravoltas, se nem Epure e sua equipe aparentam fazê-lo?




