BLKNWS: Termos e Condições (2025)

A história da negritude

título original (ano)
BLKNWS: Terms and Conditions (2025)
país
EUA, Gana
linguagem
Experimental
duração
113 minutos
direção
Kahlil Joseph
elenco
Kaneza Schaal, Anas Aremeyaw Anas, Hope Giselle, Shaunette Renée Wilson, Funmilayo Akechukwu, Peter Jay Fernandez
visto em
49ª Mostra de São Paulo (2025)

BLKNWS: Termos e Condições (leia-se: “Black News”) propõe uma viagem por estilos e linguagens radicalmente distintos entre si. Ao longo de duas horas, experimenta desde o documentário tradicional (com exploração de material de arquivo) até encenações fictícias. Explora a ficção científica por meio de uma nave espacial, e imagina uma distopia onde alguns países são reinventados (caso da Nova Jamaica). Relembra os navios negreiros, mas também os navios de carga contemporâneo, e os cruzeiros turísticos conduzindo pessoas negras entre a África e as Américas. Valoriza o conhecimento das enciclopédias impressas, mas também o impacto cultural dos memes de cachorros e gatos. 

A lista continua. O diretor Kahlil Joseph (mais conhecido pelos vídeos conceituais de Lemonade, da Beyoncé) dirige-se ao espectador com letreiros em primeira pessoa (“Eu sei o que você está pensando, mas isso não é um documentário”), além de construções futuristas, instalações de galerias, performances, happenings. Ele aproveita uma fala de Agnès Varda, contrária à segmentação do audiovisual em categorias e rótulos, para se apropriar de um slogan que gostaria de aplicar à sua própria obra: “É cinema”. Simples assim. Logo, catalogar a incontável quantidade de registros resultaria numa tarefa inútil. Aqui, a colagem se torna meio e finalidade.

BLKNWS combina o cinema experimental com uma vocação popular e acessível. Articulações como estas soam importantíssimas quando se pensa num cinema contemporâneo capaz de conversar com a estética das novas gerações.  

Talvez a experiência se tornasse caótica caso a montagem simplesmente colasse os fragmentos a esmo, como tantos vídeos experimentais gostam de fazer — em nome do direito à liberdade criativa. Curiosamente, a edição a oito mãos (por Luke Lynch, Paul Rogers, Kahlil Joseph e Parallax) transita com naturalidade entre linguagens díspares, e discussões bastante diversas, da percepção do racismo à simbologia do navio negreiro; do apagamento de pessoas negras dos livros de história à repatriação de objetos preciosos africanos, roubados pelos europeus para a exibição em grandes museus. A raça certamente costura o discurso, mesmo que, no interior deste amplo tema, o autor se permita passear bastante.

Por isso, o resultado ainda soa como uma conversa, algo relativamente próximo do espectador em termos de mensagem e discurso. Ao contrário de tantas obras provocadoras, que adoram deixar o espectador de fora da narrativa, este filme se esforça de fato em intercalar conceitos filosóficos e antropológicos com brincadeiras e exemplos práticos. A estética do videoclipe encontra-se no horizonte, mas, para além disso, pode-se falar numa linguagem própria aos tempos de Internet. Joseph embute a velocidade, mas também a nossa capacidade algorítmica de saltar entre estilos e tópicos de aparência antagônica. Dispensamos, em nossa época, a procura por esgotar o tema — é melhor abordar um amplo painel, em profundidade razoável, do que nos concentrar obsessivamente num subtema específico.

Mesmo assim, em meio à pretensa dispersão dos sentidos, ainda se encontra um esqueleto minimamente clássico-narrativo. BLKNWS se inicia e se encerra com a premissa da Enciclopédia Africana, projeto monumental de W. E. B. Du Bois, visando mergulhar em verbetes capazes de reunir toda a experiência africana e afro-americana. É lógico que, observando com certo distanciamento, o cineasta detecta lacunas fundamentais — a respeito de mulheres negras pioneiras da filosofia, por exemplo —, no entanto, ele decide oferecer uma espécie de acompanhamento visual para tal iniciativa. Se outros pensadores tentaram refletir a negritude e a racialidade em sua globalidade, por que o cinema não poderia se prestar a um exercício semelhante?

Seria tentador apontar falhas neste discurso, evidentemente amplo e ambicioso. Ainda mais justo é reconhecer a impressionante gama de temas e questões que se cruzam no interior de uma narrativa nada didática, muito menos linear e cronológica. Joseph prefere utilizar símbolos fictícios de maneira recorrente, para ajudá-lo a agrupar certas temáticas e criar uma espécie de coesão estrutural ao longa-metragem. A viagem pela nave-navio futurista retorna com frequência, assim como as provocações — eróticas, inclusive — das duas mulheres (uma historiadora-socióloga, a outra, oceanógrafa) cujas conversas dirigem as falas rumo a um percurso desejado.

Já o signo BLKNWS estampa as telas insistentemente, na forma de uma marca, ou signo recorrente. O diretor faz desta sigla, que já batizou outros projetos seus (desde jornalísticos até videoarte) um norte para toda a sua produção de arte-conteúdo voltada ao cinema e às redes. Ele inclusive ironiza as conclusões de suas próprias sequências, reduzindo as discussões a slogans tragicômicos, acompanhados de “Esta mensagem foi trazida a você por BLKNWS”. Desta maneira, ele se afasta, através do humor jocoso, tanto da obrigação informativa das reportagens quanto da necessidade de transmitir uma mensagem pedagógica ao final. O autor elabora diversas perguntas, no entanto, recusa-se a oferecer respostas ou soluções.

Para uma obra de tamanho esmero visual, desde as construções concretas (exposições a respeito do conceito do navio negreiro) até elaborações digitais em AI, surpreende o emprego de imagens tão escuras, voluntariamente. Em diversas conversas, o diretor de fotografia Bradford Young se contenta em transformar os atores e atrizes em meras silhuetas, distinguindo-se à pena da escuridão ao redor. Isso ocorre mesmo em restaurantes, durante os encontros diurnos. Investe-se, talvez, num desejo de universalizar estas pessoas, como se representassem indivíduos negros na totalidade, ao invés de subjetividades particulares.

Rumo à conclusão, o roteiro aponta para algumas teses interessantes. Sugere, por exemplo, que a experiência do racismo produz um perpétuo sentimento de não-pertencimento por parte de pessoas negras, o que dificulta a formação de laços sociais. Minimiza, por extensão, a necessidade de retornar à África para se sentirem negros de fato, ou dignos de ocupar o território onde vivem. Falando a partir tanto de Gana quanto dos Estados Unidos, o discurso prega um sentimento compartilhado da experiência da negritude, evitando equipará-la a outras vivências não-brancas (de hispânicos ou asiáticos, por exemplo). 

BLKNWS chega, inclusive, a interferir de maneira rebelde no trabalho de outros cineastas tidos como engajados, porém, distantes de uma representação negra em seus filmes. Joseph se apropria dos filmes de Jean-Luc Godard para legendar as falas cotidianas de Anna Karina e embutir legendas sem a menor relação com o som, nas quais sua personagem sugere à colega almoçar num restaurante nigeriano. O cineasta compreende que existem inúmeros níveis de interferência, simbólicas e concretas, no pacto da branquitude. Ele tateia este terreno de maneira tão voraz quanto respeitosa, combinando o dito cinema experimental com uma vocação surpreendentemente popular e acessível. Articulações como estas soam importantíssimas quando se pensa num cinema contemporâneo capaz de conversar com a estética das novas gerações, ao invés de rechaçá-la.  

BLKNWS: Termos e Condições (2025)
8
Nota 8/10

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