Se Pombos Virassem Ouro (2026)

A estética do vício

título original (ano)
If Pigeons Turned to Gold (2026)
País
República Tcheca, Eslováquia
linguagem
Documentário
duração
110 minutos
direção
Pepa Lubojacki
com
David Richter, Pepa Lubojacki, David Lubojacki, Marco Arnone
visto em
15º Olhar de Cinema (2026)

Para uma temática violenta, uma estética violenta. Para uma história de abusos, gritos e dores, uma linguagem do choque, buscando estar à altura de tamanha catarse. Desta maneira, a diretora Pepa Lubojacki parte para contar a própria história familiar, com foco no irmão mais velho. David Lubojacki desenvolveu o vício profundo por álcool, a ponto de perder o emprego, a casa, e viver pelas ruas geladas de Praga, enfrentando diversos problemas de saúde. O pai dele já havia morrido em decorrência do álcool, assim como o pai da diretora. Mesmo a mãe de ambos lutou contra o problema. Ao longo de sete anos, o projeto registra as crises e períodos de relativa estabilidade, entre lares temporários, pequenos empregos e internações hospitalares.

No entanto, a obra tcheca-eslovaca se afasta dos códigos do realismo social. Ao invés do pressuposto de observar a vida como ela é, prefere intervir o máximo possível nos materiais caseiros, realizados com uma câmera de celular, nas mãos da cineasta. Logo, ela modifica fotos da infância com a ajuda de Inteligência Artificial; introduz o personagem de um pombo com olhos e boca humanos, comentando os acontecimentos; projeta letreiros sobre os cenários, e efetua inúmeros comentários a respeito de si própria, ao som de hip hop. Novos comentários surgem ao lado da tela, e acima dela. Se Pombos Virassem Ouro é um projeto inteiramente ornado, saturado, tal qual um muro repleto de grafites e pichações. 

Em sua abordagem extrema, pop, colorida e frenética, Lubojacki ajuda a pensar os rumos estéticos da produção documental.

A questão do IA salta aos olhos, até por ocupar a integralidade da narrativa. A ferramenta ainda desperta enormes reticências no meio cultural e artístico, devido ao uso indiscriminado e acrítico de tantos produtores, que enxergam uma oportunidade de reduzir contratações e diminuir custos de realização. (Em outras palavras, a substituição de trabalhadores). Entretanto, a autora emprega este recurso tal qual um filtro das redes sociais, de modo assumidamente cômico e artificial. No caso, recupera fotos de si mesma e do irmão, quando crianças, modificando as bocas para que os pequenos teçam comentários a respeito da dependência, das consequências do álcool no cérebro, da dopamina e de outros processos relacionados à compulsão. A exemplo do pombo-comentarista, as crianças servem a oferecer explicações fatuais com inesperada leveza.

A linguagem do filme acompanha um estilo semelhante em sua totalidade. Os planos são curtíssimos, rapidamente intercalados com flashes do irmão em casebres, ou no hospital. O presente se funde ao passado (as fotos quando adolescente, andando de skate pela cidade); a vida dele se intercala com aquela dos amigos próximos e de Pepa, e as captações in loco se alternam com performances da autora. A este propósito, ela decide mergulhar num lago gélido, vestindo casacos e gorros; posiciona-se sobre uma pilha de brinquedos e objetos; e raspa os cabelos para a câmera. Nota-se a vontade do choque, do incômodo, ou ao menos, de um efeito de desconforto transmitido ao espectador. Para o bem ou para o mal, Pepa faz da família a matéria-prima para sua street art.

Ao menos, adota precauções éticas fundamentais. Jamais revela o rosto da mãe, riscando-o em fotos, e preferindo gravações sonoras em off. Sobre o pai, que abandonou o irmão na infância, utiliza apenas fotografias antigas, modificadas digitalmente. David é filmado em certo grau de embriaguez, porém, nunca em crises agudas — os episódios de convulsão e os instantes de desespero, sugeridos em off, são eliminados pela montagem. A autora prefere expor a si mesma do que aos demais. Enquanto os protege consideravelmente no processo, também acaba por se converter no símbolo frontal de tanto sofrimento — o que culmina em suas tendências suicidas.

Se Pombos Virassem Ouro sustenta teses bastante fortes, relacionadas à adição. Sugere que não se trata apenas de força de vontade, posto que os efeitos da abstinência são mais fortes que o impulso de sobrevivência. Insiste que “os padrões se repetem”, ou seja, pais dependentes tendem a formar filhos dependentes ou, pelo menos, emocionalmente instáveis. Garante que não adianta tentar ajudar quem não deseja ser ajudado, embora seja inevitável o impulso ingênuo de implorar para que a pessoa querida pare de beber. Revela que os danos causados na vítima e nos indivíduos ao redor são crônicos. Em especial, insiste no ciclo de culpa, de raiva, de indignação. “Você já fez o luto por alguém que ainda não morreu?”, repetem os letreiros. “Você não tem medo de morrer?”, ela pergunta ao irmão. A resposta é negativa.

Devido a tamanha crueza, assim como à estética urbana, de colagens e performances, o resultado se assemelha a um videoclipe. Soa tão agradável quanto brutal, tão engraçado, em determinados momentos, quanto profundamente triste, nos demais. A fala de pombos com olhos arregalados provoca o humor do ridículo, ainda que as pústulas no corpo do rapaz retirado das ruas sejam assustadoras. A autora navega entre estes estímulos díspares e fortes: o escárnio, a repulsa, a indignação, o temor. Pretende capturar o espectador por meio das emoções mais epidérmicas, apenas para transmitir, por baixo da pilha de tiques e ornamentos, uma mensagem de compaixão para com pessoas em situação de vulnerabilidade.

Em paralelo, a obra abraça o imperativo do humor, do escárnio e da paródia enquanto únicas formas de comunicação funcionais no século XXI. Logo, para dialogar com a juventude, refletindo acerca de um tema de tamanha gravidade, precisa despertas sensações diametralmente opostas. Nada da solenidade como forma de respeito — agora, a legitimidade provém do lugar de fala (Lubojacki conta uma história que viveu, e conhece bem) e da autoexposição (ela pode mostrar o irmão em situação de fragilidade, contanto que revele suas cicatrizes de maneira ainda mais explícita). Em consequência, atualiza os pressupostos da pop art, para a qual o artista equivalia à obra, tornando-se a matéria-prima da própria criação. Andy Warhol gostaria de um filme como este? 

De certo modo, ele aponta para tendências do documentário contemporâneo. Vencedor dos prêmios de melhor documentário, e do Caligari no Festival de Berlim, o projeto revela uma tendência a desconstruir a aura jornalística e informativa desta linguagem. Os novos diretores abraçam efusivamente a estética das redes sociais, do videoclipe, da cultura da selfie, do amadorismo assumido enquanto tal. É muito mais fácil se identificar com estas captações do reflexo do espelho, com as brincadeiras e cantorias em frente ao celular, do que seria uma explanação professoral a respeito dos riscos da dependência química. Em sua abordagem extrema, pop, colorida e frenética, Lubojacki ajuda a pensar os rumos estéticos da produção documental. A iniciativa vale tanto pela discussão narrativa quanto na condição de sintoma de uma época.

Se Pombos Virassem Ouro (2026)
6
Nota 6/10

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