A Paixão Segundo G.H.B. | “O chemsex é um projeto nocivo dirigido à comunidade gay”

O 15º Olhar de Cinema — Festival Internacional de Curitiba se destacou pela estreia brasileira do aguardado A Paixão Segundo G.H.B., dirigido por Gustavo Vinagre e Vinícius Couto. O longa-metragem, que estreou no Festival de Roterdã, aborda uma noite de sexo e drogas na casa de Matias (o próprio cineasta, Vinícius Couto). Enquanto os rapazes se divertem e consomem inúmeras substâncias, começam a discutir os perigos da dependência química e do chemsex.

O livro de Clarice Lispector serve como porta de entrada para esta busca íntima pelos prazeres e a autodescoberta — aqui, adaptados ao contexto masculino contemporâneo. O elenco é formado por Vinícius Couto, Igor Mo, Rodrigo Campos, Luciano Falcão, Christiane Tricerri e Jessé Jorge.

Em entrevista ao Meio Amargo, Gustavo Vinagre fala sobre a importância de debater o impacto nocivo que estas drogas têm exercido, sobretudo na comunidade LGBTQIA+:

Ao apresentar o filme à plateia, você frisou que existem cenas de sexo explícito. Por quê?
Gustavo Vinagre: Eu acho importante, porque tem muita gente desavisada, que às vezes entra no cinema, e nem esperava ver isso. Para evitar alguns comentários ou problemas, eu prefiro dizer logo. Mas, surpreendentemente, me parece que a percepção das pessoas mudou bastante. O filme foi super bem recebido no Olhar de Cinema. Na primeira exibição, ninguém questionou o porquê do sexo.
Em 2015, quando eu exibi aqui o Nova Dubai, tinham muitos questionamentos: “Mas por que isso”? Em Nova Iorque e Roterdã, foi a mesma coisa: metade do público saiu no meio da sessão. Mas com este novo filme, eu percebo que alguma coisa está mudando. Não sei se faz sentido, mas parece que as pessoas estão mais acostumadas à imagem do sexo.

Ao invés de usar drogas cenográficas, por exemplo, você não coloca droga nenhuma em cena. Os atores lidam com substâncias invisíveis. De onde veio essa decisão?
Gustavo Vinagre: Esse filme começou quando a gente ganhou um fundo do Visual AIDS para fazer um curta. Surgiu a ideia do paralelo com a Clarice, e em algum momento, a gente pensou em documentar uma orgia real, com drogas reais. Só que, ao mesmo tempo, como a Visual AIDS também fala de redução de danos, e o Vinícius estava tentando se afastar das drogas, nos pareceu mais coerente entrar nesse jogo de não ter as drogas, e fazer uma coisa mais teatral. Era mais apropriado do que colocar as drogas e deixar os atores ali, mais suscetíveis também, com menos consciência sobre o que iriam ou não dizer.
Então, levar o filme para um jogo de representação pareceu mais interessante, até pela questão didática, de falar: “Olha, a nossa comunidade está morrendo disso, e a gente tem que refletir”. Não é usando drogas reais que a gente vai achar uma resposta para os problemas do mundo, né? A comunidade gay está muito presa a essa ideia de liberdade, de experimentação, que é muito bem-vinda. Mas as drogas também estão evoluindo com o passar do tempo, e elas são altamente aditivas. Você usa uma vez e praticamente já está adicto. É super difícil sair disso, e vidas estão sendo arruinadas.
A quem isso serve, afinal? As pessoas estão morrendo, perdendo emprego, ficando sós, isoladas. Então esse filme também é um chamado, uma tentativa de falar: “Gente, essas drogas também são um projeto nocivo dirigido à nossa comunidade. É uma epidemia, uma forma de genocídio da nossa comunidade”. A gente tem que estar atento para não cair nessa ilusão do capitalismo, de que tudo é uma festa, e de que estamos abertos para nos jogar — no precipício, no caso. Enfim, o mundo precisa de mais pessoas queer, vivas e lutando por um mundo menos horrível. Não me interessa que essas pessoas morram, quero elas vivas.



O filme associa diretamente o chemsex à sorologia e à vivência com HIV. Como você enxerga a relação entre os temas?
Gustavo Vinagre: É uma visão muito pessoal, mas também é real. Não tenho as estatísticas, mas eu acho que a nossa comunidade, como um todo, é afetada por diversas coisas. A gente está mais suscetível a buscar um escape nas drogas, que podem representar uma libertação momentânea, porque a gente tem homofobia internalizada. A gente sofreu homofobia a vida inteira; sofreu bullying na escola. A gente tem menos oportunidade de trabalho. Às vezes são pessoas trans que não se encaixam no mercado de trabalho, ou são negras e queer… Enfim, várias coisas coincidem, e uma delas é o HIV. Tem um silenciamento gigante ao redor, um estigma que representa mais um peso — dependendo de cada indivíduo, né? Este dado também aponta para a busca de um escape possível nas drogas.

O filme tem uma estrutura bastante livre, com interações espontâneas. Em que medida foi roteirizado?
Gustavo Vinagre: A gente só se encontrou com o elenco um dia antes, porque o Vinícius estava há pouco tempo no Brasil, e a gente tinha tempo limitado para fazer o filme. Eram pessoas que eu conhecia superficialmente — não foi à toa que eu as chamei. O Igor Mo, ator, produz literatura e poesia muito voltadas para o mundo gay. O Luciano é uma pessoa que já tinha me parado na festa de um amigo, e me disse que tinha uma história boa, para abordar o chemsex num filme. Ele teve uma experiência relacionada a isso durante a pandemia, e isso ficou na minha cabeça. Assim fomos juntando as pessoas.
Nessa reunião, um dia antes, dissemos: “Olha, vocês podem criar um nome, um personagem, aí vocês chegam e a gente vai improvisando aos poucos”. A única coisa mais roteirizada era a cena em que eles tão deitados, na paranoia, ou quando o Igor passa mal. Também estava pré-determinada a ordem em que eles chegariam. A partir disso, a gente foi improvisando tudo mesmo. O Vinícius é um ótimo ator e performer. Ele foi guiando tudo.
Então a gente filmava 15, 20 minutos, e parava, pensava. Às vezes não tinha ficado tão bom na câmera, às vezes, porque as coisas iam espontaneamente acontecendo, aí pedia para repetir algo, que ficaria melhor na imagem. Então, a gente pensava a cena seguinte, baseado no que a gente viu. Assim, o roteiro foi construído ali, enquanto a gente fazia.
No dia seguinte, eu decidi que faltava alguma coisa, então chamei a Christiane Tricerri, que topou fazer a G.H. Essa personagem não ia existir, mas a partir do primeiro dia, a gente sentiu falta, e aí fez as entrevistas deles com a TV de fundo, projetando as imagens do filme. Isso também era algo que eu queria fazer, como se eles estivessem ali, falando como eles mesmos. Essa mistura de registros de realidade e ficção me parecia interessante por gerar uma quebra, como se fosse um confessionário do Big Brother.
Aí, durante a montagem, a gente sentiu falta de mais alguma coisa que não personalizasse tanto no Vinícius. Por mais que seja complexa a experiência ali, ainda é um filme com muita ficção, e a gente sentia que faltava alguma coisa que romanizasse menos. Enfim, não acho que a primeira parte do filme seja romantizada, mas faltava alguma outra coisa. Então o Jessé me escreveu. Eu conheci o Jessé três anos antes, e ficamos amigos. Ele já tinha visto fotos da filmagem, e disse: “Eu estou passando por isso, e queria estar no filme”. Isso foi perfeito para o que a gente queria. O depoimento dele já mostra outro estágio da relação com a droga, que é o estágio da adição. Além disso, tem um corte racial também, em oposição à primeira parte. Foi o destino.

O livro de Clarice Lispector acompanha o filme inteiro, incluindo citações, a personagem em cena, e o próprio livro usado nas cenas de sexo. Enxerga A Paixão Segundo G.H.B. como uma adaptação?
Gustavo Vinagre: É engraçado que muitos dos meus filmes começam como desafios ou brincadeiras, antes da ideia: às vezes é o título, ou uma primeira imagem. Nesse caso, o Vinícius e eu já falávamos de fazer o filme há algum tempo. Ele fez a direção de arte do Deus Tem AIDS (2021), e ficava me provocando para a gente fazer um filme. Aí apareceu esse fundo do Visual AIDS, a gente se inscreveu juntos, e começamos a desenvolver a ideia. A gente falava muito dessa paixão que a droga traz, dessa ilusão de estar conectado com a pessoa. Imediatamente me veio à cabeça A Paixão Segundo G.H. — e depois, A Paixão Segundo G.H.B.
Começou como uma piada, mesmo. Eu tinha lido já o livro duas vezes, no vestibular, e depois na faculdade — eu cursei Letras, né? Mas era quase uma piada, a princípio, um ponto de partida. Mesmo assim, é louco perceber que os trechos do livro são lidos ali na hora, não são planejados. É interessante como as coisas vão casando com o que está acontecendo, e tem a ver com essa busca por algo, por uma transcendência — ou um anulamento, enfim.
Na verdade, a minha ideia original era simplesmente subverter o cânone dessa ideia de Clarice, como uma escritora de literatura feminina, que as pessoas citam nas redes sociais, às vezes inventando frases, quase de autoajuda. A proposta era, de repente, colocar Clarice dentro de um mundo super masculino, de uma suruba gay com drogas. Que fricção causaria esse experimento? Na verdade, hoje em dia me interessa muito pensar que as pessoas vão dar um Google no livro e vão cair nesse filme.

Você sempre fez filmes provocadores, mas desta vez, a droga se soma à representação do sexo. Como A Paixão Segundo G.H.B. tem sido recebido pelos festivais?
Gustavo Vinagre: Surpreendentemente, tem sido muito calorosa a recepção desse filme. As pessoas se emocionam muito. Eu tenho feito filmes com sexo há muito tempo, e isso sempre gerou um incômodo — mas não no caso desse filme. Talvez as coisas estejam mudando positivamente nesse sentido, mesmo que várias pesquisas digam que essa geração odeia fazer sexo, mas gosta de assistir. Não sei.
Em relação à experiência da droga, as pessoas estão muito mexidas com o tema. Desde a pandemia, aumentou muito o uso dessas drogas. Eu notei, em São Paulo, a quantidade de pessoas no Grindr que só querem transar com droga e mais droga. Estamos perdendo as pessoas, e as pessoas estão se perdendo. Estão perdendo seus sonhos, sua saúde mental, e esse tema começa a despertar uma preocupação maior. Nesse sentido, também percebo um interesse pelo filme, sabe?
Eu não esperava vender o filme para a Alemanha, Áustria e Suíça, com uma distribuidora de Berlim. Ele vai entrar em cartaz nos cinemas, e eu não esperava jamais que isso fosse acontecer. Mas também é sinal desses tempos. As pessoas estão começando a perceber que se trata de uma discussão muito importante.

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