As Correntes (2025)

As duas mortes de Catalina

título original (ano)
Las Corrientes (2025)
país
Argentina, Suíça
gênero
Drama
duração
104 minutos
direção
Milagros Mumenthaler
elenco
Isabel Aimé Gonzalez-Sola, Esteban Bigliardi, Claudia Sánchez, Ernestina Gatti, Jazmín Carballo, Patricia Mouzo, Susana Saulquin
visto em
Cinemas

Leva bastante tempo até o espectador decifrar o comportamento de Catalina (Isabel Aimé González-Sola). Em uma viagem, ela recebe um troféu por seu trabalho como artista. Tira fotos, sorri com todos. Entretanto, algo nesta pose nos parece falso. No banheiro do centro de convenções, joga o prêmio na lixeira. Sai pelas ruas, caminhando a esmo. Atravessa uma ponte e se joga nas águas. Ela seria, então, suicida? Uma pessoa que contemplava a finitude há tempos? Nada disso. A ideia de morrer nunca tinha lhe passado pela cabeça. Agiu num impulso, devido a uma atração irresistível pelo rio abaixo. Arrependeu-se, voltou, e manteve em silêncio sua experiência de quase-morte na Suíça. De volta a Buenos Aires, o marido e a filha nem suspeitam do que aconteceu.

Por isso, a mulher precisa manter certa aparência de naturalidade, embora algo claramente tenha se transformado dentro dela. As Correntes coloca o espectador numa curiosa postura de cumplicidade e voyeurismo. Apenas nós enxergamos o instante exato em que a protagonista se joga nas águas. Somos os únicos a enxergar, dia após dia, seu desconforto crescente, conforme acompanha o marido em jantares de negócio, ou desempenha de maneira protocolar as funções da maternidade. Depois de uma sequência de abertura tão forte, somos condicionados a enxergar um desespero (ou dor, ou desconforto) em todas as cenas — posto que Catalina ocupa a integralidade das imagens. Somente o espectador, impotente, presencia a implosão da heroína.

Existe um verdadeiro terreno de batalha por trás da mulher que, aos olhos da maioria, leva uma vida perfeita. Aí reside o verdadeiro paradoxo.

A atuação de Isabel Aimé González-Sola contribui bastante à aparência de suspense deste drama. Teria sido conveniente para uma atriz vaidosa reforçar certa vitimização, ou ainda, apontar a uma vilania, a um transtorno exagerado da personagem em crise. Ora, a protagonista sustenta um pragmatismo inabalável, além da expressão austera, funcional. Ela possui plena consciência do que viveu, e da fobia impedindo-a de tomar banho. Por isso, aceitar se anestesiar para uma colega lavá-la enquanto está inconsciente. Ocasionalmente, consulta um psicólogo. O roteiro se foca menos no sofrimento dela do que na luta para ocultá-lo de terceiros. Catalina lida bem com suas tumultos internos, porém, detestaria que o resto do mundo os detectasse. Por isso, o espectador se converte num intruso, um espião — o detentor de um segredo que não podemos compartilhar.

O projeto também se beneficia de uma poesia longe das convenções, ou de uma depreciativa “delicadeza feminina”. A diretora e roteirista Milagros Mumenthaler se mostra implacável na sequência de acontecimentos, evitando a sentimentalidade e as saídas fáceis. As alternativas para lavar os cabelos ou se manter fora de casa (onde não se sente mais confortável) mostram-se violentas, ainda que plenamente conscientes por parte da personagem central. Catalina é uma mulher de ação, inclusive anestesiando-se até se aproximar da morte uma segunda vez. (Psicólogos e psicanalistas certamente avaliariam este comportamento autodestrutivo enquanto sintoma de algo grave — o “acidente” não teria acontecido duas vezes seguidas).

A estética acompanha esta rigidez da pretensa normalidade forjada pela protagonista. Os planos são fixos, rigidamente pensados em termos de composição, de transparências e reflexos. O olhar da diretora nunca se mostra piedoso ou condescendente. Nem Mumenthaler, nem o público é convidado a observá-la enquanto vítima das circunstâncias — afinal, trata-se de uma figura consagrada profissionalmente, querida pelo marido, levando uma rotina confortável em seu apartamento de luxo. O descontentamento possui origens que o roteiro jamais entrega ao nosso olhar, talvez para evitar o determinismo das relações de causa e consequência. Assim, não podemos dizer que Catalina tenta se matar por causa de algo específico. Nunca saberemos. Parte considerável de sua psique permanece opaca aos nossos olhos.

Isso vale, igualmente, para recursos mais experimentais, dentro de uma estrutura narrativa clássica. Após diversas tentativas de Pedro (Esteban Bigliardi) em descobrir o que acontece à sua esposa, a montagem nos introduz um episódio à parte. Pode-se falar em um interlúdio, como uma fuga da vida opressora da mulher. De repente, um farol ilumina todos os personagens coadjuvantes que havíamos visto até então, de relance, no percurso de Catalina. Eles são atingidos pelo mesmo “sol”, como se também obtivessem seu instante de esclarecimento inesperado, em público. Mais uma vez, o espectador será o único a perceber esta magia tão individual quanto coletiva, entre o naturalismo (afinal, trata-se da luz de um farol comum) e a fantasia (a ideia que o feixe possa atravessar precisamente as figuras apresentadas nas cenas anteriores). 

Por fim, As Correntes aparenta encontrar uma forma curiosa de emancipação feminina. Depois do trauma na Suíça, que rompe com sua vida burocrática, a artista plástica percebe, intimamente, seu desgosto com a vida de mãe e de esposa. Lavar os cabelos equivaleria, neste contexto, a consentir ao que esperam dela (muito elogiada, precisamente, pelos penteados). A fobia se converte numa recusa em desempenhar este papel, em fingir uma felicidade inexistente. Existe um verdadeiro terreno de batalha por trás da mulher que, aos olhos da maioria, leva uma vida perfeita. Aí reside o verdadeiro paradoxo, e a tensão constante deste longa-metragem: o embate entre liberdade e rebeldia, entre descobrir novos prazeres relacionados a duas proximidades com a morte.

Até no final, o roteiro encontra uma saída inteligente para nem converter Catalina numa megera indiferente, nem conformá-la ao espaço doméstico, de forma passiva. A alternativa precisava ser lúdica, fruto de um lirismo nada óbvio, e passível de inúmeras interpretações — como quase tudo nestes 104 minutos de narrativa. A cena concebida pela cineasta significa estar dentro e fora de casa ao mesmo tempo, sufocada e respirando, protegida e banhada nas águas. Mumenthaler conclui seu ousado retrato num terreno limítrofe, sugerindo transformações para rumos inesperados. Catalina inicia sua jornada com atitudes abruptas, e e termina por meio de decisões ainda menos evidentes. Paira a bem-vinda noção de um filme concebido não para nos agradar e nos divertir, mas para colocar o espectador em xeque diante de nossa posição face à dor alheia. Somos convidados, ativamente, a acompanhá-la sem julgamentos morais. Assim podemos decidir, silenciosamente, para onde os dias seguintes a levarão.

As Correntes (2025)
8
Nota 8/10

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