
Poucos curtas-metragens conseguem captar tão bem a construção do desejo quanto Tião Personal Dancer. O filme inteiro se desenvolve através da lenta gradação do interesse de Reginaldo (Adolfo Moura) por Tião (Otto Caetano), um professor e dança contratado por casas de forró para dançar com os frequentadores.
O cuidadoso roteiro de Aristótelis Tothi e Bruno Victor saboreia esta jornada, sem pressa: começa no primeiro olhar, e então sugere a curiosidade, a fascinação, as insinuações silenciosas e via diálogo. Reginaldo deveria abordá-lo? Como? Seria correspondido? Existe espaço para a concretização do romance entre dois homens num meio majoritariamente heterossexual, no estado conservador de Goiás? É simbólico que um projeto inteiro se concentre na questão de amar e ser amado, desejar e ser correspondido, entre homens negros de mais de 50 anos. Nota-se o respeito e conhecimento por parte dos jovens autores quanto à vivência de seus personagens.
Por isso, o humor nunca ridiculariza o encantamento do cliente, nem o poder de sedução exercido pelo professor. Muito pelo contrário, a estética procura justificar esteticamente o tesão, enxergando o corpo do dançarino pelos olhos desejantes de Reginaldo. Logo, a belíssima fotografia de Larry Machado capta as trocas de olhares, o suor escorrendo pelo pescoço, os feixes de luzes obscurecendo parcialmente o rosto alheio. A montagem segura deliciosamente o instante em que as duas mãos se tocam no convite para a dança, plantando no espectador a dúvida em relação ao que acontecerá a seguir.
Aliás, Tothi demonstra impressionante domínio de ritmo e tom — nem criando pistas falsas para postergar a possível concretização do amor, nem acelerando o caminho até esta resposta, como se constituísse alguma obviedade. Permite a ambiguidade, a insegurança, o receio. Assim como nas coreografias da dança de salão, Reginaldo avança, mas depois recua e se sente envergonhado pela iniciativa; depois, Tião lhe oferece um cartão de visitas, mas então dança com inúmeras mulheres até finalmente dar atenção ao pretendente. Os dois homens conhecem o jogo, e se analisam quanto à próxima jogada alheia.
O final de Tião Personal Dancer levou o público do Sesc Glória, durante o Festival de Vitória, ao êxtase — nada mais apropriado, em se tratando de um filme a respeito do desejo. As pessoas aplaudiam, assobiavam, gritavam de felicidade. Algo semelhante havia acontecido na Mostra de Tiradentes. Raríssimas obras provocam tamanha adesão do público, sobretudo no caso de um romance entre membros de um grupo social subrepresentado pelo audiovisual. Este é um sinal de que o espectador realmente mergulhou na trama, torceu pelos personagens, acompanhou a aproximação entre os dois. Nem mesmo um ou outro trecho mais explicativo (o diálogo com a amiga dentro do carro) atrapalha um filme simultaneamente complexo e simples nesta tarefa de representar dois homens que se encontram e se gostam.




