Champagne: Uma Viagem de Pai e Filho (2026)

Minha querida doença

título original (ano)
Champagne (2026)
país
Holanda
gênero
Drama, Comédia
duração
90 minutos
direção
Tim Kamps
elenco
Leo Alkemade, Huub Stapel, Beppie Melissen, Jennifer Hoffman, Wouter Hendrickx, Ayana Doucouré
visto em
Cinemas

Certo nicho do cinema inspirador considera as doenças enquanto verdadeiras bênçãos aos personagens. Nada como um câncer repentino, em fase terminal, para que figuras sem rumo se concentrem no que realmente importa: a família, os amigos, o companheirismo. Por isso, os diretores dedicados a estes projetos tratam o diagnóstico como oportunidade perfeita para um recomeço, reatando com parentes distantes e colocando a rotina de volta nos eixos. Nada seria mais benéfico à vida do que a morte.

No caso, Maarten (Leo Alkemade) e Hans (Huub Stapel) são dois homens desajustados. O primeiro trabalha numa empresa de tecnologia, embora não se insera bem no universo corporativo. Ainda enfrenta dificuldades em fazer uma simples reunião online, e veste-se com roupas impróprias ao contexto empresarial. Já o pai idoso surpreende pelas atitudes desproporcionais: ele sai na rua com o rosto coberto de lama; esconde-se por horas num armário apertado (brincando com os netos) apesar de uma dor crônica no joelho; e anuncia a descoberta de um câncer como quem pede, à mesa, para lhe passarem o sal. “A boa notícia é que eu não tenho apneia”, ele comemora, em relação ao outro resultado da consulta médica.

Nunca entenderemos em detalhes a complexidade deste quadro, que o roteiro prefere ocultar do espectador. A narrativa dispensa as tradicionais visitas ao hospital ou clínicas, além das dores súbitas em decorrência do tumor, e a compreensão final da gravidade dos fatos. Pai e filho simplesmente decidem viajar, e assim o fazem. Pegam o carro e dirigem-se à região francesa onde poderão beber um ótimo champanhe. Não se trata de um desejo particular do homem doente, apenas uma desculpa para se colocarem em movimento. Ao final da trama, o espectador nem mesmo saberá onde se situa o tal câncer, ou o estágio em que se encontra. 

Um filme de câncer onde o câncer não importa tanto, ou ainda, um filme de doença que deixa a doença em segundo plano.

A ausência de dados, por um lado, permite que os personagens sejam representados para além de um corpo enfermo — Hans não se limita a um homem com câncer. Entretanto, por outro, torna a gravidade das circunstâncias quase fabulares, difíceis de acreditar. Na ausência de indícios palpáveis, podemos inclusive duvidar da declaração do senhor idoso, posto que ninguém corrobora a versão da doença anunciada com tamanha displicência. Curiosamente, a comédia dramática pretende constituir um filme de câncer onde o câncer não importa tanto, ou ainda, um filme de doença que deixa a doença em segundo plano. Trata-se de um equilíbrio delicado de atingir.

Por este motivo, desaparece o aspecto catártico das produções do gênero. Nada de grandes pedidos de perdão, discursos inspiradores a respeito do valor da vida, choros redentores, abraços reparadores. Pai e filho nunca foram distantes, brigados — em outras palavras, não havia motivo para reconciliação. Ambos são descritos na condição de homens médios, de moral razoável e méritos mínimos, razão pela qual tampouco precisam se redimir do que quer que seja. Hans jamais possui uma lista de coisas a fazer antes de morrer — pular de bungee jump, ver o pôr do sol num local específico, reencontrar amores da juventude. O texto dribla sabiamente os principais clichês do gênero.

A própria viagem constitui uma escapada simples, próxima do anticlimático. Pai e filho não possuem muito tema de conversa (e inclusive brincam com isso). Em consequência, param em restaurantes comuns, devoram um prato de qualidade duvidosa, e hospedam-se em hotéis medianos. Compram garrafas de champanhe pelo caminho, menos pelo gosto da bebida do que por uma atitude impulsiva — afinal, esta é a desculpa que deram a si próprios para dispararem a jornada. Adquirem garrafas que nem sempre bebem e, em sua maioria, acabam ofertando a terceiros. Entregam-se a tal senso de desapego que nada lhes importa de fato. Maarten e Hans nunca pensam em tornar estes dias algo especial, único, memorável. Partem num gesto impulsivo, e seguem por inércia. Ninguém demonstra pressa para voltar e, enquanto isso, o cotidiano é posto entre parêntese (o pai de família pensa pouco nos filhos pequenos durante a sua ausência).

O aspecto blasé aplicado ao subgênero tão comumente marcado pela moral e pelos bons sentimentos constitui a principal inventividade de Champagne: Uma Viagem de Pai e Filho. Mesmo o grande acontecimento do clímax, certamente muito previsível, é filmado em modo avesso aos sentimentos — o diretor Tim Kamps evita planos próximos, ao passo que dispensa lágrimas e trilha sonora melodramática. Logo, o espectador não se sente manipulado para chorar, a partir de uma obra que evita instrumentalizar a doença para finalidade de expurgo emocional ao espectador. A ternura evidente por estes homens foge à armadilha do paternalismo e da condescendência. O autor jamais aparenta querer nos ensinar algo a partir deste caso, em chave oposta a tantos projetos que se vendem como lições de vida.

Apesar da bela calibragem do aspecto emocional, o longa-metragem ostenta problemas facilmente evitáveis, sobretudo no que diz respeito à busca incessante por motivos cômicos em cada cena. O roteiro recorre a saídas improváveis, sejam elas mágicas (o sujeito alcoolizado cujo álcool não é detectado no teste do bafômetro), absurdas (o homem que, inesperadamente, começa a tirar fotos com som dentro de uma igreja, enquanto havia tirado fotos anteriormente em modo silencioso) ou excessivamente convenientes (o casal recém-casado, o homem em situação de rua que aparece para desfrutar dos champanhes). Diálogos relacionados ao creme vaginal da esposa, à avaliação de um restaurante ruim e à diferença entre um bife e uma lagosta são excessivamente longos e insistentes, no intuito de provocarem o riso a qualquer custo.

Em paralelo, o longa-metragem sofre de um estranho tratamento sonoro. Por algum motivo, isola-se tanto os ruídos ao fundo que as conversas entre os protagonistas aparentam se desenvolver em um mundo-bolha, em tom modificado por filtros digitais. Felizmente, a modesta construção de sons e imagens se torna menos grave graças à ótima construção dos atores — em particular, de Huub Stapel, muito confortável na fronteira entre a comédia e o drama. Os atores saboreiam diálogos apenas medianos, enquanto manuseiam com destreza o humor do desconforto, decorrente de silêncios inesperados e reações atípicas de terceiros. Ambos são dirigidos de modo a reagir discretamente a estímulos que, por conta própria, já constituem fonte de comicidade (o estojo de banheiro da esposa, a fuga para o bar, etc.).

Ao final, resta uma jornada em modo Carpe Diem, cuja previsibilidade se atenua graças ao comedimento em termos de tom e intensidade. Chegaremos exatamente ao destino prometido por qualquer aventura desta espécie, porém, por meio de caminhos levemente distintos do cancer movie, do buddy movie e do road movie padrões (o carro nem mesmo quebra à beira da estrada, veja só). Ainda impera um subtexto básico da valores e virtudes: valorize seus pais, mande às favas as empresas aproveitadoras, seja a melhor pessoa possível. Entretanto, Kamps parece estar plenamente consciente de não trasmitir ao espectador uma mensagem inovadora, valiosa ou profunda. Parte considerável do sucesso desta empreitada modesta consiste em reconhecer o quão modesta ela realmente é.

Champagne: Uma Viagem de Pai e Filho (2026)
6
Nota 6/10

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