
Uma fábula indígena a respeito da Borracha e da Árvore atravessa toda a narrativa de Angh. Segundo esta história, a Borracha pedia à Árvore, dia após dia, para dormir sob a sua sombra. Esta última, habituada a acolher pessoas apoiadas em seu tronco, aceitou. Com o costume, os pedidos nem eram mais necessários. Um dia, a Árvore acordou completamente coberta pela Borracha, que havia paralisado as suas raízes até matá-la. Em outras palavras: crie corvos, e eles arrancarão seus olhos, como diria o provérbio ocidental, e também o filme de Carlos Saura. O princípio é o mesmo: algumas violências ocorrem lentamente, sob forma de gentileza. Chegam até nós com um sorriso no rosto, e depois tomam tudo o que temos.
Este processo está no centro do longa-metragem escrito e dirigido pelo cineasta indígena Theja Rio, a partir do curta-metragem homônimo de 2021. A trama se inicia onde a maioria das jornadas terminaria: o Velho Líder de uma comunidade indígena, e seu filho pequeno, são os únicos habitantes a preservar as tradições ancestrais. Todos os demais vestem roupas de brancos, falam inglês e frequentam missas cristãs. Aprovam a derrubada de árvores para a construção de uma estrada que os conectará “com o resto do mundo”. Curam suas doenças com práticas hospitalares e, sobretudo, recusam-se a repetir a cerimônia de cortar a cabeça dos mortos para queimá-las e preservar os crânios num altar sagrado. Seguindo as regras do cristianismo, os indígenas convertidos preferem o enterro.
Um teor profundamente fatalista contamina a obra, como se qualquer forma de resistência fosse impossível. O homem simplesmente aceita a sua sina face à opressão crescente.
Logo, a jornada parte de um ponto de derrota evidente, e apenas agrava a situação a partir daí. Não se trata de acompanhar o lento processo de colonização cultural de seu povo — eles já estão plenamente adaptados ao modo de vida alheio, e não demonstram nenhuma vontade de retornar ao estilo dos antepassados. Angh (Anglong Konyak) não tem como, ou contra quem, lutar: o que ele poderia fazer, sozinho, contra todos os demais, e contra o poderoso pastor, que oferece ajuda em tom amistoso? Pior do que isso, ele começa a perder o filho pequeno, cada vez mais seduzido pela perspectiva de brincar com as outras crianças. O menino emudecido, cumprindo as ordens do pai sem real motivação, encanta-se com o rádio, a comida europeia, as camisetas, as igrejas.
O ponto de vista permanece junto ao homem resistente, de olhar expressivo e dignidade intacta. Evidentemente amoroso, ele também executa com pragmatismo os rituais necessários, sobretudo envolvendo a morte. É exatamente contra esta rigidez moral que o pré-adolescente se rebela. Ora, a única alternativa disponível consiste no apelo desta esmagadora maioria batista, que insiste em convidá-lo, sem gritos nem reprimendas. Apenas um convite de convívio social e escapatória à solidão. Como resistir? Neste contexto, compreende-se que a direção se situe junto ao líder, observando com indignação a disseminação da catequese por todo o território.
Em simultâneo, um sentimento de impotência se apodera do protagonista, e do filme na totalidade. O drama jamais recorre a soluções milagrosas para instaurar uma conclusão otimista, muito pelo contrário. Angh utiliza artifícios desesperados, tais quais literalmente trancar o filho em casa. Não adianta. A luta soa impossível, inviável. Um teor profundamente fatalista contamina a obra, como se qualquer forma de resistência fosse impossível. O homem simplesmente aceita a sua sina face à opressão crescente. A árvore consente com a tomada da borracha; o dono do corvo entrega seu próprio olho ao animal. Talvez o aspecto mais incômodo, e também questionável do belíssimo projeto, resida neste aparente conformismo. Não há formas de combate, nem mesmo simbólico ou sonhado. A derrota é certa, implacável. Um letreiro no final nos alerta que “Nagalândia é o estado mais Batista do mundo”, em referência à região da Índia na fronteira com a Birmânia.
Devido a este fator, e à recusa do cineasta em caracterizar os invasores como figuras malignas e perversas, Angh aparenta acatar com relativa docilidade o aculturamento deste povo originário. “É um filme oficialmente cristão, não é?”, perguntava um espectador confuso, na saída da sessão da 50ª Mostra de São Paulo. A dúvida se torna perigosamente plausível, face ao retrato bastante cortês destes brancos que oferecem comida, jogos, roupas, aparelhos domésticos, e ainda cuidam das crianças indígenas doentes em caso de necessidade. Quem aprisiona o pequeno Amao numa jaula, de maneira animalesca, é o protagonista. Na tentativa de não demonizar o “outro lado”, o discurso o tolera até demais, a ponto de abrir brechas para uma interpretação de condescendência.


Diante de tamanhos conflitos morais, sobressai no longa-metragem o primoroso trabalho estético. A filmagem em película favorece a impressão de um tempo passado (a trama se situa em 1962), sem exagerar na granulação a ponto de chamar atenção para si própria. As composições em planos fixos, valorizando tanto os rostos quanto espaços, é primorosa na utilização da profundidade de campo, das luzes e das cores. Enquanto isso, a montagem mostra-se bastante ágil para uma iniciativa que privilegia a contemplação e o silêncio. A homogeneidade das atuações e a abertura muito crua ao realismo mágico (uma excepcional sequência de sonho, onde os desejos mais profundos de Angh se realizam) oferecem um verdadeiro banquete aos sentidos.
O mesmo vale para o respeitoso tratamento do ritual mortuário. Rio aposta numa linguagem frontal e explícita de cabeças sendo cortadas, no entanto, encontra ângulos e maneiras de tornar este ato tão naturalista quanto encoberto por certo mistério. A cabeça é cortada durante um plano aéreo, enquanto a morte do animal ocorre num espaço extraquadro, durante um plano-sequência espetacular. Em outras palavras, tanto visual quanto sonoramente, Angh transparece um domínio ímpar da linguagem cinematográfica. É uma pena que tamanha gentileza com seus agressores ainda deixe um sentimento amargo por tolerar, parcialmente, aquele que nos aniquilam. Há um meio do caminho muito importante a estabelecer entre a denúncia fervorosa e a aceitação passiva de nosso “fim iminente, como se a nossa relevância estivesse diminuindo a cada momento”, nas palavras do líder.




