
A Segunda Guerra Mundial acabou. Os nazistas foram vencidos, e a Dinamarca se reconstrói do trauma recente. No entanto, ao invés da comemoração pelas ruas, resta uma sede punitivista: “É hora de acertar as contas”, declara Christian (Carsten Bjørnlund), um rico viúvo. A sociedade busca não apenas revidar contra os colaboradores de Hitler, mas contra qualquer pessoa que tenha estabelecido contato com o regime. Isso inclui, é claro, as mulheres que se relacionaram com soldados nazistas. Elas são espancadas e desnudadas em praça pública. Têm os cabelos cortados, e o corpo pintado com uma suástica. Assim, gritam e choram para o prazer dos passantes. A violência não terminou.
Mulher Desconhecida se concentra neste período imediatamente após a guerra. Ao invés de retratar a destruição material às cidades, prefere os impactos psicológicos nos indivíduos. Entende, portanto, a agressão enquanto máquina que reproduz a si própria. Christian não enxerga problema nenhum no fato de ter estabelecido relações comerciais com o Terceiro Reich, e enriquecido através destes acordos. Afinal, caso recusasse, acredita que seria morto. No entanto, sua futura esposa Marie (Mathilde Arcel) esconde um relacionamento que a levou à expulsão de casa pelos familiares. Desde então, trabalhava como babá no vasto apartamento, até se apaixonar pelo patrão. Está prestes a ter sua vida “corrigida” pelo novo casamento, em uma cidade onde as pessoas desconhecem seu passado. Até o dia em que um encontro na rua ameaça revelar a verdade.
Um dilema moral impiedoso em suas atitudes, porém clemente até demais com o manual do bom gosto das produções internacionais.
A diretora May el-Toukhy coloca o espectador na perspectiva desta mulher. Apresentada inicialmente como tímida, educada e eficaz nos serviços domésticos, ela estaria longe de qualquer polêmica. Ajuda as demais empregadas, atende ao marido quando solicitada, e faz sexo sempre que ele demonstra interesse — apesar de possuir cicatrizes no útero que tornam as relações dolorosas. Este seria o custo para retomar o cargo de mulher “decente”, segundo o roteiro, para o qual é importante frisar que a união com Christian tampouco simboliza um bálsamo. A heroína está prestes a adquirir estabilidade financeira e econômica, apesar de não amar este homem. Trata-se de mero acordo, tais quais os trâmites comerciais deste proprietário de uma fábrica de luvas.
Logo, desconhecemos tudo aquilo que Marie também não entende. O desafeto do passado adentra a sua casa, mas ignoramos a conversa que teve com as demais trabalhadoras antes da chegada da protagonista. Uma suástica é pintada na porta do prédio, porém, desconhecemos o autor deste gesto — seria o perverso Karl (Thorbjørn Hedegaard), ou outra pessoa indignada pela história contada por ele? O noivo sai para a empresa durante muitas horas do dia, e nem sempre responde quando solicitado. A obra desenvolve desta forma uma atmosfera de angústia e paranoia. Enquanto prova o vestido de casamento (uma adaptação do traje utilizado pela falecida ex-esposa), Marie pressente a possibilidade de se tornar uma das bruxas torturadas em plena via pública. Portanto, embora as ruas se revelem um ambiente bastante hostil, a fortaleza doméstica tampouco oferece tranquilidade.
Para ilustrar o turbilhão interno da personagem, busca-se a estética do caos, traduzida em flashes relativamente desconexos da trama. Seriam sonhos, lembranças de Marie, flashbacks oniscientes? De qualquer modo, ocasionalmente, imagens de agressões e mortes se sobrepõem durante trama, tal qual um inconsciente coletivo. Paralelamente, a mulher pecadora, cujo segredo mal consegue ocultar, ostenta um luxuoso vestido vermelho no jantar onde todos portam as cores bege e cinzas habituais. Ela se destaca precisamente quando tenta passar despercebida. Adiante, a turba de homens ricos em torno de seu corpo, pedindo que retire as luvas para a apreciação do material, alude ao ataque que sofrerá de grupos parecidos, caso seja descoberta. Mesmo na elegância de um jantar fino, resta o assombro de um nazismo que aparenta não ter acabado de fato.
May el-Toukhy conduz tais horrores com rigidez e senso de composição clássicos. Junto ao diretor de fotografia Jasper Spanning, opta por composições fixas. Os atores param exatamente nos terços do enquadramento, ou diante de alguma janela, sendo cuidadosamente iluminados pela luz branca do exterior. Espelhos, batentes de portas e janelas são explorados de modo a estabelecer quadros-dentro-do-quadro, ou ainda para representar a distância entre Maria e Christian, dentro da casa que abrigará a ambos. Apesar de muito bem executada, esta cartilha fica presa a um academicismo severo. Existe simbologia mais evidente, e desgastada, do que o crime moral simbolizado pela mancha vermelha no tecido branco?


Ao menos, Mathilde Arcel sustenta um trabalho excelente de atuação. Ela foge da armadilha de demonstrar piedade por esta mulher, ou colocá-la em posição de mártir ou vítima da situação. Mesmo quando demonstra alguma ingenuidade — a oferta de propina antes mesmo de ser subornada —, ainda o faz com certo instinto de sobrevivência e proatividade. As grandes obras morais europeias que tomaram conta dos festivais de cinema no último ano (Fjord, Minotauro, Amor Possível) já compreendem a necessidade de não julgar moralmente seus personagens, nem tomar partido. Diferenciam-se entre si no tratamento estético, entre aqueles mais dispostos a se “sujar”, representando o grotesco via linguagem cinematográfica, e os polidos, que se recusam a permitir que a violência apontada impregne o tecido da realização.
Mulher Desconhecida permanece do lado destes trabalhos engomados. Soa como aquele vestido vermelho, novíssimo e chamativo, que teima em se adequar ao corpo sofredor e traumatizado da heroína. A peça de vestuário tenta ocultar, por uma beleza padronizada, as imperfeições de quem o veste. Por isso, Marie precisa se voltar, inclusive, contra uma mulher de quem gosta, e com quem se identifica, no intuito de salvar a própria pele — as bruxas queimam-se umas às outras. O resultado é um dilema moral impiedoso em suas atitudes, porém clemente até demais com o manual do bom gosto das produções internacionais de alto nível. Ele se dispõe a nos provocar intelectualmente, entretanto, jamais permite que o incômodo decorra da imagem e do som.




