
Quando era criança, a diretora Flávia Castro viveu durante meses na embaixada da Argentina no Chile, aguardando um meio seguro de sair do país tomado pela ditadura de Pinochet. Em As Vitrines, ela retrata este período, situado em 1973, pela perspectiva de uma criança. De que maneira os pequenos poderiam compreender a pressão política, os tiros, as execuções? Como percebiam as noções de clausura e a liberdade, dormindo amontoados no chão de um edifício institucional? Sobretudo, que marca este período deixou em suas vidas?
Espertamente, o roteiro não se dedica a explicar, didaticamente, a chegada da extrema-direita ao poder. A jornada se inicia com o momento em que a família tenta entrar na embaixada, e se estende até as despedidas de novos amigos e parentes simbólicos. O longa-metragem reinventa a noção de família a partir desta convivência, quanto os adultos cuidam dos filhos dos outros, e todos cozinham para si, dividindo recursos e racionando o tempo de banho. Nesta organização relativamente horizontal, resgata-se, ainda que provisoriamente, uma noção de comunidade. O grupo dança, canta, joga xadrez. Os adultos tratam os pequenos com surpreendente autonomia, deixando que explorem suas próprias fantasias do mundo lá fora.
As crianças constituem um verdadeiro achado. É dificílimo encontrar jovens atores com tamanha maturidade para um projeto deste porte e, sobretudo, tão bem dirigidos.
O drama parte deste curioso sentimento de tensão a partir de uma espera indefinida. Tudo pode acontecer aos refugiados, a cada momento — e, de fato, mortes e desaparecimentos chacoalham a noção de segurança no interior da casa. Em contrapartida, até que os vistos sejam obtidos, adultos e crianças aguardam. Logo, combina-se o senso de urgência com a estranha sensação de nada a fazer. Compreende-se quando, no final, uma garota se recusa a partir com os pais. Para ela, a convivência improvisada poderia se estender, tal qual um acampamento de férias com colegas de diversas nacionalidades, explorando novos jogos, primeiras paixões e experiências inéditas com o álcool.
Castro demonstra uma condução bastante segura deste período. Ela evita converter sua galeria coral de protagonistas em heróis ou vítimas. O olhar da direção nem se apieda sobre eles, nem os converte em guerrilheiros de uma causa. Ao posicionar a câmera entre pátio e cômodos, subindo e descendo escadas, passando do jardim à cozinha, permite que o nosso olhar também se encontre em pé de igualdade com cada núcleo familiar. Já a perspectiva infantil, avessa aos detalhes geopolíticos da época, dispensa a necessidade de profundas contextualizações históricas: aquilo que as crianças não compreendem, o filme tampouco se estima responsável por esmiuçar.
Felizmente, as crianças constituem um verdadeiro achado. Gael Nórdio está excelente em cena, esbanjando naturalidade nas provocações com outras crianças. Ele possui traquejo semelhante em português e espanhol, interagindo com atores adultos de igual para igual. Frente à ótima Helena O’Donnell, garante instantes que parecem improvisados ou, pelo menos, movidos por razoável grau de espontaneidade diante das câmeras. A chegada da excelente atriz que interpreta a pequena Lola contribui a um grupo excepcional de crianças. É dificílimo encontrar jovens atores com tamanha maturidade para um projeto deste porte e, sobretudo, tão bem dirigidos para as necessidades do roteiro.
É certo que, a princípio, o roteiro parece instrumentalizar Pedro enquanto motor de conflito num local relativamente pacífico. Assim que chega, o menino aproxima-se demais da cerca, deixa cair comida no chão, quebra copos. No entanto, ele logo encontra seu lugar e deixa de constituir um motivo artificial de tensão, integrando-se ao meio. A ausência do pai presente (um homem que pouco se ocupa da própria criança, esquecendo-se dele durante mais de um dia) soa mais perturbadora do que as atividades do menino, que explora os cômodos da casa e brinca com as amigas. O texto tanto oferece ao garoto instantes deliciosos de cumplicidade com adultos (via jogos de xadrez e conversas com o militante de braço machucado) quanto lhe retira o mínimo afeto do pai. As relações são mais complexas do que aparentam à primeira vista.
Em paralelo, estranha-se a escolha da canção Porque te Vas, de Jeanette, enquanto tema recorrente. Sem dúvida, a letra e o tem melancólico condizem muito bem com a situação dos pequenos. No entanto, a música será sempre associada ao clássico Cría Cuervos (1976), de Carlos Saura, que já explorava a gravação em diversos instantes. O filme espanhol também trazia uma garotinha órfã, de nome Ana (Torrent, no caso), vestida com um pulôver vermelho, e confrontada à morte, sob fundo de repressão estatal. A referência é tão próxima e semelhante à criação de Saura que soa menos como uma homenagem do que um plágio.
Outros elementos de estranheza podem ser questionados, caso da câmera na mão que ocasionalmente treme em demasia, ou de certas composições enrijecidas, artificiais — caso dos atores cuidadosamente posando para o enquadramento, conforme observam a primeira leva sair da embaixada com os vistos em mãos. Os rostos que evitam se sobrepor uns aos outros relembram o formalismo assumido do quadro Os Operários, de Tarsila do Amaral. Felizmente, para cada estranheza do gênero, o drama está repleto de sequências de puro encantamento, caso das noites de xadrez, das tiradas das crianças (“Eu tenho meus contatos”), e dos vidros escondendo preciosidades na terra, que provavelmente justificam o título.


As Vitrines se demarca pelo tom agridoce dos amplos jardins vazios, onde ocasionalmente algum adulto recolhe brinquedos jogados, ou deixa uma bola de futebol cair na piscina. Trata-se de cenas tão alegres quanto tristes, tão marcantes quanto fortuitas. Castro aplica a uma lembrança pessoal, de forte simbolismo político, um olhar sagaz de cronista, ao invés de historiadora ou professora. Ela se atém a sensações e sentimentos, a memórias afetivas e lacunas (o sumiço e reaparecimento do garoto). Trata-se de uma obra muito mais sensível, no sentido estrito do termo, do que fatual — uma raridade para a reconstituição “de época” a respeito de ditaduras.
A cineasta não apenas retrata a história de pessoas reais, mas filma com elas, junto delas, a partir do que tenham a lhe oferecer. Ninguém soa como exemplo de uma causa, tampouco porta-voz de uma ideologia ou movimento. Diversos diretores se felicitam que seus longas-metragens sejam exibidos em sala de aula, enquanto instrumentos didáticos para ensinar as crianças a respeito de um tema que ultrapassa a narrativa. Este orgulho pode ser visto com certo estranhamento: há motivo de contentamento quando uma obra de arte se encaixa melhor na sala de aula do que na sala de cinema? Ora, As Vitrines retrata seu período histórico de maneira humanizada e orgânica. Não se imagina que o belo drama de Flávia Castro encontre como habitat natural as aulas de história — e, talvez, este seja um dos principais elogios que se possa fazer à criação.




