Meu Pai e Eu (2025)

Um quase desconhecido

título original (ano)
Meu Pai e Eu (2025)
país
Brasil
linguagem
Documentário
duração
70 minutos
direção
Thiago Moulin
visto em
20º CineOP (2025)

( Tragicomédia da interpretação cinematográfica: o texto abaixo foi inteiramente escrito na compreensão de que o pai do cineasta Thiago Moulin cometeu suicídio. Após a publicação, o diretor entrou em contato para explicar que, na verdade, o pai não tirou a própria vida, e sim, o tio. Entretanto, ele me diz que a ambiguidade foi mantida de propósito no filme. Ao invés de fingir que o equívoco não ocorreu, mantenho a interpretação original, para se saber como o documentário foi lido em sua primeira análise. Acredito que a apreciação de ordem estética ainda se sustente).

O diretor Thiago Moulin deixa muito claro ao espectador os motivos que o levaram a fazer este documentário tão pessoal a respeito de seu pai, que cometeu suicídio. Ele explica que “procurava perdão” ao homem adicto e ausente; que tentava “aceitar este quase desconhecido”, distante dele e do irmão após o divórcio com a esposa e, em especial, que não pretendia “passar adiante o silêncio” com o nascimento de sua primeira filha. O cineasta desejava ser um pai muito diferente do que a figura paterna conhecida por ele na infância. 

De certa maneira, ele se molda por este homem, ainda que na condição de anti-exemplo. Assumindo o papel de narrador, o autor inclusive confessa certo “alívio” com o falecimento, porque Jorge Luiz Moulin Ribeiro o “constrangia”. Para a psicanálise, a iniciativa consiste numa homenagem, afinal, o filho dedica um filme inteiro ao pai, desenvolvido ao longo de mais de dez anos. Na história dos gêneros cinematográficos, em contrapartida, esta seria a anti-homenagem por excelência. Isso porque o discurso não se presta em momento nenhum a engrandecer o patriarca, a venerá-lo, a destacar os momentos mais valiosos de sua vida. Thiago aparenta querer desvendar o segredo do suicídio. O que leva alguém a tirar a própria vida?

A exposição das entranhas familiares se traduz num movimento tão gentil quanto afrontoso, tão terno quanto violento.

A pergunta consiste num gesto retórico, é claro. Nunca saberemos ao certo o que se passa na mente de um indivíduo disposto a tal ato. Pode-se especular, investigar, buscar relatos de pessoas próximas. É exatamente isso que o cineasta faz, cercando o homem “misterioso” com indícios capazes de esclarecê-lo minimamente. Que impacto a demissão do trabalho surtiu neste sujeito progressista, de vocação revolucionária? Como os deslocamentos entre cidades e países o tornaram mais solitário? De que modo os inúmeros escritos avulsos, em papéis soltos e guardanapos, prenunciavam a tragédia? Era possível evitar este desfecho? A possível culpa, muito comum nestes casos, aponta no horizonte, embora discretamente.

Moulin tem como trunfo simbólico a presença de uma mala, única posse herdada do pai, e que, por dificuldade de lidar com o tema, permaneceu fechada durante muitos anos. A abertura do baú familiar representa o procedimento do filme na totalidade. O artista convoca a mãe, o irmão, os tios e demais parentes para conversarem a respeito do homem recluso, viciado em álcool, que se mantinha à distância dos demais, embora enviasse cartas esporádicas. Em certa medida, o documentário se converte numa troca de correspondências com o pai ausente — uma espécie de carta respondida pelo filho, no tempo que lhe foi possível fazê-lo.

Trata-se de um filme terapêutico; um cinema do expurgo. A partir de um começo embrutecido e fatual (a descrição crua do corpo encontrado dias após a morte, devido ao mau cheiro) a narrativa se abre lentamente a lembranças, dúvidas, afetos. Torna-se mais carinhosa, e mesmo sentimental, culminando no choro do diretor, no centro do quadro, diante da câmera, enquadrado pela mãe à esquerda, e o irmão à direita. Talvez a obra tenha sido concebida para este único momento de catarse e expiação. O autor efetua seu processo de luto diante dos nossos olhos, razão pela qual o processo soa tão sincero e humilde. 

Este também é o motivo de nossa incômoda postura enquanto espectadores, como se estivéssemos lendo o diário de um desconhecido, ou invadindo sua galeria privada de fotos e vídeos no celular. Aquele movimento interno não nos pertence. Por se recusar a apresentar este homem (posto que ainda conhecemos pouquíssimo de Jorge Luiz ao final da sessão), somos colocados numa posição de voyeurs da dor alheia. Thiago se mostra generoso ao compartilhar este momento conosco, em expô-lo para nossos olhos, ampliado pela tela do cinema. Em contrapartida, por que ele estimava que isso precisaria ser tornado público, visto por terceiros? O elemento mais fascinante destes documentários em primeira pessoa, a respeito de familiares, ainda reside nas motivações de seus criadores, e nas expectativas quanto à comunicação e à possível universalidade da discussão.

Para além destas questões, Meu Pai e Eu também desperta questionamentos de ordem estética. A melhor elaboração conceitual do filme provém da utilização intradiegética de fotografias e cartas. Isso significa que o diretor preserva a materialidade das fotos, filmando-as enquanto as segura com as própria mão, ou dispostas sobre a mesa. Nada de digitalizar a imagem e ampliá-la ao tamanho máximo da tela: elas valem mais pela concretude do papel, por sua presença junto ao corpo dos familiares, do que pelo momento referenciado em cada registro. A filmagem das entrevistas, sempre em enquadramento over the shoulder, com o autor presente, também denota uma coesão estética raramente encontrada em projetos do gênero.

Em contrapartida, algumas escolhas enfraquecem o resultado. A direção de fotografia trabalha a partir de uma textura digital de qualidade muito baixa, quando a luz bastante contrastada diminui nuances e reduz o impacto das cores — algumas personagens aparecem pálidas, num mundo embranquecido e inóspito. No trecho em que se deseja expor partes mais extensas das cartas do pai, a filmagem se mostra vacilante: a câmera treme em excesso, enquanto o foco-e-desfoque intermitente transparece a dificuldade de se concentrar no teor da escrita. Prestamos mais atenção na cacofonia da imagem agitada do que nos belos textos do homem falecido.

Até por isso, a eventual legenda de uma carta produz novo ruído: afinal, considera-se que o texto é legível por si mesmo, ou não? A compreensão do espectador seria indispensável somente quanto os escritos mencionam diretamente o suicídio? A legenda de um texto com outro texto, na mesma língua, apenas demonstra a indecisão conceitual a partir de um material de arquivo tão valioso ao documentário. O mesmo vale para alguns trechos redundantes da narração em off: “Ele vira a cabeça por cima do ombro e parece olhar para mim”, descreve Thiago a respeito de uma fotografia do pai. Ora, nós sabemos disso: estamos vendo a mesma fotografia. Por que descrever aquilo que também podemos ver?

Já a montagem enfrenta desafios relacionados à escassez de material. As conversas com parentes são reduzidas à mínima gramática necessária: para cada conversa, um único plano, uma única câmera, do início ao fim. Assim, a edição não possui alternativas na hora de cortar as falas, precisando efetuar desconfortáveis “cortes internos”, quando se salta de um enquadramento para outro idêntico. O projeto careceria de mais imagens e construções (poéticas, alegóricas, metafóricas) capazes de fornecer alternativas à montagem. Paira a impressão de que, face à nobreza do tema e a importância do debate, se considerou dispensável maior esmero de linguagem e captação.

Ao menos, Meu Pai e Eu aparenta ser muito consciente de onde pode chegar com esta tentativa utópica de justificar o injustificável (o suicídio), e de desvendar uma pessoa que insistia em não se revelar por completo. Moulin procura reconstruir o pai, reencontrá-lo a partir dos indícios deixados — uma pilha de guardanapos, uma caixa com torradas na geladeira, etc. Ao final, o cineasta não aparenta efetuar esta obra para o pai, nem para o espectador, mas para si próprio. Cabe ao espectador determinar o valor destes filmes tão íntimos, fechados em si próprios, e cuja exposição das entranhas familiares se traduz num movimento tão gentil quanto afrontoso, tão terno quanto violento.

Meu Pai e Eu (2025)
6
Nota 6/10

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