Folha Seca (2025)

Cinema 8-bit

título original (ano)
Xmeli Potoli (2025)
país
Alemanha, Geórgia
gênero
Drama
duração
186 minutos
direção
Alexandre Koberidze
elenco
David Koberidze, Otar Nijaradze
visto em
49ª Mostra de São Paulo (2025)

O primeiro elemento de impacto em Folha Seca, que domina a integralidade da experiência, diz respeito à textura da imagem. O diretor georgiano Alexandre Koberidze utiliza uma captação digital de baixíssima qualidade — propositadamente. Mesmo os telefones celulares básicos dos nossos dias captariam vídeo em melhor definição do que aquela escolhida pelo autor (e também diretor de fotografia). Ora, ele se diverte em transformar o tradicional road movie de contemplação da natureza num festival de pixels, rompendo com as expectativas tradicionais do cinema profissional. 

Caso a textura fosse discretamente descolada da média, talvez soasse como deficiência na captação, ou algo parecido. Neste caso — e para quem já acompanhou trabalhos anteriores do cineasta, caso de What Do We See When We Look at the Sky? —, fica evidente a vontade de transformar a indefinição da imagem num jogo, rumo aos contornos do cinema experimental. Extrai-se humor do simples fato de se admirar um elevado marrom na planície verde, sem saber se aquilo corresponde a um cachorro, uma vaca, ou somente um monte de terra. O não-ver (ou não-compreender de imediato o que se vê) se torna divertidíssimo para o autor. Ao invés de oferecer a ver, ele prefere propor algo a sentir, para que o espectador participe na revelação do mistério inerente a cada imagem.

Embora a provocação da imagem pixelizada desperte curiosidade, ela logo se esgota. Koberidze insiste em oferecer imagens semelhantes, em interações parecidas.

Logo, a picardia da baixa qualidade soa intrigante — a princípio, pelo menos. O cineasta apresenta todas as suas cartas ao espectador de imediato. Ele introduz a presença de um narrador em off, de estilo literário e onisciente, descrevendo pensamentos dos personagens, e também explicando que “Levan, como muitos outros nesse filme, é invisível”. Isso significa que o protagonista Irakli (interpretado por David Koberidze, pai do diretor) interage, em diversas ocasiões, com espaços vazios. Conforme o homem busca pela filha desaparecida (após deixar uma carta, avisando sobre o desejo de sumir), ele escuta vozes que respondem às suas perguntas, oriundas de paisagens sem corpos. Se já mal distinguimos os seres humanos da natureza, devido à baixa nitidez, por que não literalmente investir na retirada dos atores de cena?

A escolha reforça a comicidade da empreitada, e despertou boas risadas durante a exibição na 49ª Mostra de São Paulo. Os atores interpretam seus papéis com comprometimento, ainda que parte considerável do elenco não esteja visível. Mesmo assim, as interações serão as mesmas durante 186 minutos, dedicados a um conflito único. Irakli pega o carro, vai até algum campo de futebol (pois a filha é fotógrafa esportiva), e pergunta às pessoas se viram esta mulher. Todos respondem que não. Ele (e Levan, o sidekick invisível) pegam o carro, dirigem-se ao vilarejo seguinte, e repetem o procedimento de novo, e de novo, e de novo.

Pode-se falar em uma obra de desaparecimentos. A filha Lisa some, assim como somem os personagens com quem o herói interage. Some igualmente a definição da imagem, a noção de contornos, e somem as paisagens, compreendidas enquanto beleza a admirar. Em paralelo, desaparece a noção de que uma narrativa fictícia precisa ser condicionada por sucessivos conflitos e guinadas rumo a um clímax e um desfecho. A trama apresentada neste projeto caberia facilmente num longa-metragem de 80 minutos (ou menos). Entretanto, Koberidze deseja precisamente romper com tais expectativas. Ele procura uma espécie de mínimo denominador comum da narratividade: quais são os elementos básicosque uma ficção precisaria ter para funcionar junto ao público? Para interessá-lo?

Embora a provocação desperte curiosidade, ela logo se esgota. Em 2023, Hong Sang-soo filmou Na Água, um longa-metragem fora de foco. O efeito cômico era semelhante: os personagens apontavam para uma mancha amarela na parede, e se admiravam com a beleza daquela suposta flor. Entretanto, o recurso variava em intensidade do desfoque, e claramente representava um estado de espírito do protagonista. A brincadeira se encerrava em curtos 61 minutos, por ter atingido seu objetivo. Entretanto, no equivalente georgiano, Koberidze insiste em oferecer imagens semelhantes, em interações parecidas. Há incontáveis cenas de cachorros, gatos, vacas, cavalos, árvores, e mesmo do personagem central admirando o horizonte, a esmo.

O tédio constitui um objetivo, e também uma espécie de teste de nosso engajamento e imersão. O estilo jamais se desenvolve — algo necessário para uma proposta experimental propriamente dita. Uma vez acostumados os olhos à granulação, acompanhamos cenas similares, numa estrutura dividida em duas partes sem motivo aparente (posto que são idênticas em ritmo e ações). Ocasionalmente, o diretor acena a possibilidades de transformar a estética, quando propõe um zoom-in na paisagem pixelizada (caso em que se converte numa abstração completa), ou quando filma o mundo através do vidro ensaboado do carro. Ora, trata-se de instantes curtos, de impacto nulo no restante da trama.

Folha Seca ainda chega ao momento em que, precisando oferecer alguma forma de desfecho ao quiproquó da filha ausente, resolve-se de maneira abrupta e convencional. Entram em cena narrações em off e cartas providenciais, deixadas ao pai, explicando tudo aquilo que ele (e o espectador) precisava saber. Há recurso mais desgastado, nos dramas familiares, do que a conclusão com uma voz off explicando os objetivos, os sentimentos, e apontando para os caminhos dos personagens num futuro pós-trama? Para uma obra tão disposta a romper com pressupostos (estéticos e narrativos), este desfecho recorre a um golpe mágico do destino — ou, então, uma comprovação que o imbróglio do pai preocupado constitui mera desculpa para colocar este homem em movimento e instaurar sua rebeldia digital. 

Fica claro que a manipulação dos grãos, das texturas e das impressões constitui o verdadeiro foco do longa-metragem, que precisou recorrer a algum fiapo de conflito para sustentar as andanças, e oferecer a mínima motivação ao road movie. Algumas críticas chegaram a apontar o retrato de um país abandonado, invisibilizado, numa metáfora política da Geórgia contemporânea. A interpretação soa excessiva, despropositada — uma vontade muito grande de atribuir sentidos profundos à malícia da direção, para justificar nosso engajamento e dedicação, enquanto espectadores, durante mais de três horas. 

Infelizmente, Koberidze parece ter pouco a dizer a respeito do estado de seu país, do cinema nacional, do cinema experimental, ou mesmo das relações familiares. Ele propõe este jogo porque pode fazê-lo, e porque o status de autor provocador, de enfant terrible das produções independentes, ainda o permite — a obra foi selecionada no prestigioso Festival de Locarno, por exemplo. Devido a este contexto institucional, somos condicionados a procurar uma intricada rede de significados, além de um valor inegável, na proposta que talvez corresponda apenas à provocação de um diretor, rindo da nossa insistência em enxergar, num pixel, mais do que um simples pixel.

Folha Seca (2025)
4
Nota 4/10

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