
As intenções desta comédia são bastante defensáveis. Partindo do texto de Tati Bernardi, o diretor Arthur Fontes deseja sublinhar o machismo nos relacionamentos e no ambiente de trabalho. O filme aponta para a ausência de lideranças femininas no mundo empresarial, para a conivência dos “esquerdomachos”, e para o silêncio a respeito do prazer e da sexualidade das mulheres. Em outras palavras, o longa-metragem se pretende empoderador e feminista, dando voz a uma heroína comum, de classe média, no dia em que finalmente se cansa das amarras sociais e decide mandar todos os opressores às favas.
O problema começa na maneira como esta demonstração de progressismo opera na tela. Primeiro, Uma Mulher Sem Filtro acredita, a exemplo de tantas comédias a respeito da classe média e das classes populares, que o exagero seja sinônimo de humor. Por isso, quanto mais estridente, redundante e caricatural, mais engraçado seria o resultado. Trata-se de uma falácia óbvia, que não impede tantos diretores de pedirem aos atores para acentuarem os traços, aumentarem o tom da voz, e expandirem os gestos corporais. O cartaz, com uma careta acentuada de Fabiula Nascimento, diz bastante do tipo de comicidade buscado pelos criadores.
Uma Mulher de Filtro adoraria que o machismo desaparecesse, mas não tem ideia de como isso poderia acontecer. Por isso, propõe uma fábula inofensiva, tão politicamente relevante quanto a decisão de Bia de latir contra os cachorros que latem para ela.
Por isso, não basta que a protagonista Bia esteja um pouco cansada. É preciso que tudo indique a sua estafa, cena após cena. O marido (Emílio Dantas) é um artista acomodado; o enteado não ajuda na casa; a amiga não a escuta quando ela fala, e o chefe não se preocupa com sua contribuição para a revista feminina onde trabalha. Já a vizinha faz festas altíssimas durante a madrugada, e que, aparentemente, incomodam somente a pobre heroína. A Internet não funciona, a água quente foi cortada. Há trânsito na rua e cachorros latindo nos portões. O roteiro estima que, quanto mais grave for a situação da mulher, mais motivos ela teria para procurar uma mudança — sugerindo em paralelo que, numa vida verossímil, de incômodos moderados, a necessidade de transformações não se justificaria.
O princípio do acúmulo e da gradação sempre esteve na base destas comédias populares, no entanto, surpreende a dificuldade do cineasta e da montagem em imprimirem tal sensação. As cenas se acumulam, enquanto Fabiula Nascimento faz o possível para construir a irritação longe do excesso. Em contrapartida, as sequências parecem não se comunicar uma com a outra, nem aumentarem em termo de intensidade. Talvez por isso seja necessário incluir, em pós-produção, um efeito de tremedeira, ornado com halos coloridos, para sugerir um nervosismo que a mise en scène não imprime em termos de enquadramento e fotografia.
A construção do mundo ao redor da jornalista cansada tampouco ajuda. Surpreende a maneira como o som de Laura Zimmerman e Denilson Campos imerge Bia num mundo-bolha. Ela trabalha no escritório mais silencioso do mundo, dirige num trânsito sem barulhos reais e percorre galerias comerciais hermeticamente isoladas, porque o desenho de som privilegia o silêncio artificial do mundo-estúdio ou, em chave simetricamente oposta, a barulheira absurda da festa na vizinha — porém, nada entre os dois. Já a direção de arte opera na reafirmação dos estereótipos mínimos de cada personagem: a irmã que unicamente gosta de gatos (Júlia Rabello) possui quadros do animal por todos os lados, a guru espiritual Deusa Xana (Polly Marinho) trabalha num salão de massagem cuja porta tem formato de vagina.
Em paralelo, o diretor se apoia unicamente nos diálogos para imprimir comicidade: nada no enquadramento, na duração dos planos ou na fricção entre imagem e som produz alguma forma de comicidade. Os atores são reduzidos a rostos, em planos e contraplanos básicos, ou planos de conjunto conforme conversam em frente aos carros e portões de prédios. Mesmo a trilha sonora opera na chave da obviedade: “Baby, às vezes eu me sinto tão crazy”, afirma a canção, enquanto outra letra menciona um “bicho solto” uma vez que Bia, agora liberada, passa a latir para cachorros. A ideia de mulheres histéricas, malucas e incontroláveis nunca passa longe desta pretensa homenagem ao gênero feminino. Uma vez emancipadas graças à magia (tão secreta quanto difundida) da Deusa Xana, todas se tornam desbocadas, algo que o roteiro confunde com assertividade.
Isso porque Bia insulta o chefe, e recebe elogios pelo comportamento. Depois, agride outra chefe, e ganha uma promoção. Ameaça a vizinha barulhenta, e se torna amiga dela. Revida contra uma motorista (que convenientemente cruza a rua na mesma hora que ela, todos os dias), e ganha o direito de passar primeiro. A mulher é magicamente recompensada pelo rompante de ira, como se o fato de se impor produzisse um retorno imediato de valoração e apreço. Dois homens a disputam de imediato, quanto mais ela os odeie. Estão vendo, mulheres? Basta gritar contra seus desafetos e todos te entenderão! Diga tudo o que pensa pelas ruas, e o machismo acabará! Começa o matriarcado!


Obviamente, o gesto constitui uma metáfora — ninguém está realmente sugerindo uma revolução feminina baseada no bate-boca. No entanto, a simplicidade desta analogia não esconde a falta de reflexão a respeito das origens deste machismo que o filme tanto denuncia. Uma Mulher Sem Filtro parte de uma constatação tão válida quanto óbvia (as mulheres são tratadas injustamente em sociedade), porém, não tem ideia de onde o problema surgiria e, muito menos, de como enfrentá-lo. Por isso, prefere soluções mágicas, a partir das quais tudo literalmente se conserta e a opressão feminina desaparece num estalar de dedos. A ingenuidade desta leitura beira o conservadorismo, no sentido de estimar que caberia unicamente à boa vontade das mulheres acabar com o machismo. Nenhuma mudança estrutural, política ou institucional se faz necessária.
A ambiguidade deste frágil discurso social pode ser resumida na postura ambígua em relação aos celulares e redes sociais. Por um lado, o filme deseja criticar nossa dependência de telefones e da mídia, mas por outro, sugere que influenciadoras de maquiagem podem, sim, ser excelentes pessoas que alertam a respeito dos relacionamentos e magicamente (uma vez mais) oferecem empregos, promoções e mimos às pessoas que as insultam. Tati Bernardi morde, mas também assopra esta mão fundamental ao seu percurso de escritora. Já Arthur Pontes filma de maneira bastante patética o orgasmo feminino que supostamente homenageia. Algo semelhante ocorre com as relações de gênero. Uma Mulher de Filtro adoraria que o machismo desaparecesse, mas não tem ideia de como isso poderia acontecer. Por isso, propõe uma fábula inofensiva, tão politicamente relevante quanto a decisão de Bia de latir contra os cachorros que latem para ela.




