Dildotectônica (2023)

"O sexo em cilindro"

título original (ano)
Dildotectônica (2023)
país
Portugal
linguagem
Documentário, Drama
duração
15 minutos
direção
Tomás Paula Marques
visto em
9ª Mostra Quelly (2025)

Um filme a respeito da criação de brinquedos eróticos, envolvendo a utilização de vibradores por freiras do século XVIII, pode sugerir uma aparência de escândalo. Ora, em Dildotectônica, a diretora Tomás Paula Marques adota um caminho radicalmente avesso a qualquer forma de sensacionalismo. Pelo contrário, desenvolve um documentário com aparência de fábula melancólica, ancorado na documentação historiográfica (ou na dificuldade de encontrá-la).

No caso, Rebeca é uma ceramista interessada em criar, manualmente, dildos pensados para a estimulação do prazer feminino. Vários aspectos deste objeto tradicional a incomodam: o formato fálico simulando o pênis; a produção repleta de materiais e produtos artificiais; o caráter industrial da produção. Por isso, ela se desafia a romper com estes pressupostos. Como seria um dildo elaborado por uma mulher, e pensado para elas? De que maneira poderia explorar cores não-naturalistas e formatos distintos, a partir de uma produção artesanal? 

Ao invés de um enésimo documentário sugerindo uma prova de verdade, este projeto se concentra na atestação de vazios referentes às vivências LGBTQIA+. 

No processo de pesquisa, ela descobre a história de Josefa. Esta mulher religiosa de séculos atrás teria utilizado um dildo de cerâmica, tanto em solitário quanto na companhia de Maria, colega de convento com quem se relacionou. O episódio fascina Rebeca (assim como à diretora, por extensão) devido ao raro documento acerca da sexualidade feminina nestes tempos — sobretudo, no contexto de um ambiente cristão. Apesar da violência dos registros, o texto produzido pelos Inquisidores serve como indício da masturbação praticada por Josefa com ajuda do objeto caseiro.

A narrativa constitui, portanto, um convite à reflexão. Ao reconstruir dildos contemporâneos em cerâmica, Rebeca tenta se comunicar com este gesto de autonomia feminina existente há décadas. O objeto se torna, portanto, um fio invisível conectando a artista à religiosa. A verdadeira protagonista seria a mulher invisível, desaparecida dos registros e da comunidade, provavelmente devido à fuga, visando escapar ao olhar alheio e evitar a condenação à morte. Josefa teria fugido para ser livre. Na ausência de desenhos ou pinturas imortalizado o rosto desta mulher, o espectador pode imaginá-la como quiser, com os traços que desejar. A lacuna oferecida ao espectador para projetar seus próprios desejos constitui um elemento fundamental ao curta-metragem dedicado à representação do prazer.

Dildotectônica efetua uma série de escolhas estéticas pensadas para conectar o presente e o passado, borrando temporalidades específicas. A diretora parte de uma captação em película, na qual a granulação da imagem nos afasta do pressuposto de nitidez digital comum aos filmes atuais. Em seguida, dissocia quase por completo o som da imagem. Enquanto a narradora em off evoca seu percurso de criação e pesquisa histórica, o registro visual opta ora por associações livres com a natureza, ora por uma recriação lúdica dos fatos, sem real pretensão de verossimilhança. Por fim, propõe belas canções em estilo e tom sacros, cujas letras evocam o orgasmo feminino e a doçura do “sexo em cilindro”. Assim, a musicalidade de antigamente encontra uma composição possível somente nos nossos dias.  

De qualquer modo, jamais escutamos uma única palavra sair da boca de Rebeca — ela mesma, transformada numa entidade fantasmática, filmada à distância, sem detalhes. Marques evita romantizá-la por sua busca, transformando a ceramista numa forma de heroína. O olhar da direção se posiciona à distância da artista e de seus registros, observando com tanto interesse quanto ceticismo as informações transmitidas. Ao invés de um enésimo documentário sugerindo uma prova de verdade, ou uma revelação de segredos, este projeto se concentra justamente na atestação de vazios referentes às vivências LGBTQIA+. 

Em conclusão, o filme se interessa menos pelo que ocorreu, de fato, com Josefa e seu dildo de cerâmica, do que pela evocação de uma figura que, em sua época, lutou contra o patriarcado, e escapou à condenação — até onde se saiba. O curta-metragem prefere lançar perguntas a fornecer respostas. Assume uma saudável vocação de ponto de partida para uma discussão, em oposição a nos oferecer ensinamentos prontos. Neste sentido, estabelece um diálogo honesto e horizontal com o espectador.

Dildotectônica (2023)
8
Nota 8/10

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.