
Alguns filmes são oferecidos como presentes aos seus personagens. Partem de figuras tristes, solitárias, vivendo dias repetitivos e insossos. Então, constrói-se a narrativa em torno do dia em que tudo isso mudou, graças a alguma descoberta possibilitando a reparação de traumas. Em oposição ao cinema do cotidiano, este grupo de obras privilegia o excepcional, a exceção à regra. Trata-se, portanto, de uma compreensão clássica da dramaturgia enquanto construção progressiva rumo ao conflito, ponto de virada e resolução.
O Homem Mais Feliz do Mundo se insere nesta categoria, retratando o dia mais importante na vida de Asja (Jelena Kordic Kuret) e Zoran (Adnan Omerovic). Os dois se inscrevem num simples evento de namoro, onde devem encontrar um par romântico mediante a resposta a algumas perguntas banais: Qual a sua cor preferida? Sua estação preferida? Seu momento preferido do dia? Lentamente, começam a falar da infância, dos medos, da relação com a morte. Parte considerável dos participantes deste workshop possui recordações dolorosas envolvendo a Guerra Civil Iugoslava, no início da década de 1990. Asja e Zoran percebem, então, que seus traumas convergem ao mesmo episódio do conflito.
Revelar mais do que isso provavelmente seria considerado um spoiler. Basta dizer que o destino de ambos estava selado, como se precisassem, mais cedo ou mais tarde, se reencontrar e acertar as contas pelo que viveram. Embora a trama inteira se passe no centro de convenções de um hotel, ao longo de um único dia, o projeto sustenta uma aparência de faroeste, com inimigos afrontando-se num aguardado duelo ao pôr do sol. Logo, a diretora Teona Strugar Mitevska cria um filme para seus protagonistas, claramente pensado no intuito de curá-los. Os organizadores do evento, e os demais solteiros inscritos no programa, não passam de pano de fundo ao dilema da dupla central. O mundo ao redor não lhe interessa de fato.
Uma evidente artificialidade permeia toda a experiência — para o bem ou para o mal. Restam dois bons personagens, defendidos com competência por seus intérpretes.
Esta pode ser uma premissa conveniente demais para um filme de guerra, no qual a contextualização político-histórica soa mais importante do que nunca. Ora, a cineasta pressupõe que seu espectador conheça o mínimo a respeito deste episódio, e que a eventual ignorância seja suprida pela condição arquetípica de algozes e vítimas. (Seu público-alvo são claramente os espectadores macedônios, sérvios e bósnios, ao invés do restante do planeta). Sim, soa improvável que ambos se cruzassem numa perspectiva de amor romântico, e que a confissão de segredos íntimos decorresse de sugestões naturais dos mediadores do programa. Existe um toque de destino, forçando ambos a se abrirem e confrontarem o ódio de um pelo outro durante uma tarde prevista ao amor.
Logo, uma evidente artificialidade permeia toda a experiência — para o bem ou para o mal. Um elemento incômodo na obra diz respeito à sua indecisão quanto à tarde de encontros que ocupa a história inteira. A diretora nunca sabe se ridiculariza a premissa do speed dating ou se conduz com seriedade; se sente piedade dos inscritos, ou os julga dignos de risos. Os uniformes cor de rosa, as campainhas pressionadas no fim de cada resposta, e as logomarcas de coração espalhadas pelo salão transmitem uma impressão de escárnio. No entanto, a iluminação estranhamente escura e o caráter taciturno das pessoas ali presentes sugerem que devam ser consideradas com um pouco de carinho.
Outros estranhamentos decorrem do ringue construído para Asja e Zoran: se estão descontentes, irrompendo em sucessivos ataques de fúria durante as perguntas, por que não partem? O Homem Mais Feliz do Mundo sustenta a perturbação típica de tragicomédias da clausura (Deus da Carnificina, Quem Tem Medo de Virginia Woolf?), que reside na incapacidade de justificar o retorno constante de seus protagonistas acuados, irritados, humilhados. Eles tomam um minuto de pausa no banheiro, e voltam. Saem para um cigarro, mas voltam. Ameaçam-se e, mesmo assim, voltam. Não seria absurdo apontar certa perversidade neste huis clos psicológico, que consiste em mantê-los presos face a uma dor extrema porque a diretora o deseja assim. Aproximam-se, deste modo, de ratos presos a um teste de laboratório.
Se o dispositivo carece de verossimilhança e dinamismo, ao menos as atuações elevam o resultado. Jelena Kordic Kuret sustenta uma aparência infantil e ingênua a princípio, apesar das respostas francas a cada pergunta. Modificando pouco de sua postura corporal, ela encontra maneiras de expressar a raiva, e liberar-se numa dança em meio a adolescentes — em outra sequência improvável, oferecida para ela, porém, conferindo um bem-vindo respiro à tarde claustrofóbica. Já Adnan Omerovic oscila entre o algoz arrependido e a vítima de suas próprias ações, entregando-se de bom grado ao calvário em esforço para apaziguar a consciência. Ambos se mostram mais complexos do que o maniqueísmo exigiria em tais situações.


É uma pena que figuras tão interessantes estejam cercadas por estereótipos, presos a uma única característica cada: a garota curiosa demais, a mulher afrontosa e cínica, o idoso conciliador, a mediadora esnobe. Mesmo o início do longa-metragem (uma sugestão de suicídio, com a imagem curiosamente espremida num formato quadrado) prova-se demasiadamente óbvia em seu intuito de evocar sentimentos de culpa e desenhar um estado de fragilidade mental. Mitevska não se mostra muito afeita a sutilezas — vide a cena com Zoran fazendo o gesto da arma com as mãos, e tremendo ao limite da convulsão ao ser liberado de amarras. Constrói-se uma metáfora tão eficiente, em termos de reparação para ambos, quanto óbvia (mesmo didática), em quesitos narrativos.
A indefinição de tons é coroada pelo próprio título, movido por uma ironia simples, mais exagerada do que melancólica. Esta frase se justifica em uma conversa rápida, embora nos guie para um teor autoparódico que nunca se concretiza enquanto tal. A cineasta deseja abordar com seriedade as lembranças da guerra dentro de um evento patético; mergulhando duas figuras introvertidas e machucadas num mar de bufões. Além disso, prende-os num espaço que se ressignifica pouco para a duração de um longa-metragem. Mesmo assim, por trás de tantas conveniências de roteiro e facilidades de mise en scène, restam dois bons personagens, defendidos com competência por seus intérpretes, e mais dignos do que o palco extravagante onde são inseridos.




