Revoada: Versão Steampunk (2025)

Os cangaceiros biônicos

título original (ano)
Revoada: Versão Steampunk (2025)
país
Brasil
linguagem
Animação
duração
81 minutos
direção
Ducca Rios
vozes originais
Hector Gomes, Isabele Ricard, Ricardo Rossato, Jorge Baia, Marcelo Pirigo, Mauricio Duarte, Rafael Shubert
visto em
49ª Mostra de São Paulo (2025)

A quem reclame de falta de originalidade nos ditos “filmes de cangaço”, o diretor Ducca Rios oferece uma versão certamente inusitada deste movimento. Neste longa-metragem de animação, ele imagina os bandidos em versões biônicas: para cada perna ou olho perdido em combate, substituem-se os membros com peças mecânicas que os permitem continuar lutando. Já a temida Volante é composta inteiramente por robôs ferozes, dispostos a trocar tiros e lasers contra seus adversários. Neste deserto tecnológico, os lagartos são robôs-espiões, e a fortaleza dos poderosos serve como nave espacial.

Chame-se de retrofuturismo, ou cyberfuturismo, como preferir. De qualquer modo, esta opção serve a refletir a desumanização das batalhas. Nas palavras do herói Lua Nova, “A humanidade acabou. Ninguém é mais homem; é tudo máquina”. Por isso, mesmo ferido mortalmente com veneno de cobra, o protagonista recusa-se a ganhar um segundo braço mecânico, além do olho artificial. Esta seria a diferença essencial entre a violência dos bandos organizados e aquela do Estado: os combatentes do sertão saberiam onde traçar o limite para preservar certa decência. Do outro lado, haveria somente perversidade.

Isso porque o longa-metragem apresenta uma versão amplamente favorável do cangaço. Desde o letreiro inicial, explica as iniciativas dos bandidos como uma resposta justificável à opressão dos coronéis. No final, Lua Nova exclama: “Vocês nunca vão acabar com o cangaço! Cangaço é resistência!”. O projeto certamente os acompanha neste raciocínio, posicionando o olhar junto ao grupo, que enfrenta adversários profundamente cruéis. Mesmo que os protagonistas comandem estupros contra senhoras idosas, e cortem uma infinidade de cabeças pelo caminho, ainda são vistos como legítimos em suas ações. Olho por olho, dente por dente.

Uma obra arrojada na brincadeira com o imaginário do banditismo, embora, no esqueleto desse mergulho histórico, ainda se encontre um saudosismo pouco questionador.

Logo, se existe uma primeira reticência na animação, ela diz respeito à romantização da violência. Os criadores evitam problematizar os dilemas morais do cangaço — o sequestro e estupro de mulheres, as execuções encomendadas, os acordos escusos com os mesmos fazendeiros que pretendiam combater. Há diversas lacunas éticas na atividade destes homens e mulheres, porém, a ficção prefere uma jornada mais edulcorada. Lua Nova age em resposta à violência que sofreu durante a infância e, a partir deste momento, responde ataques com contra-ataques. A cada homem perdido, organiza nova revolta contra a Volante, e assim por diante, num sacrifício de evidente vocação suicida.

Outro indício da idealização do fenômeno diz respeito à própria construção do herói. Lua Nova é alto, musculoso, atlético, de pele branca e longas madeixas loiras, esvoaçantes. Quando se recorda o tipo físico de Lampião, Jesuíno Brilhante ou mesmo Lua Branca, percebe-se que estes bandidos mirrados estava bem distantes do ideal proposto pela animação, que aproxima o herói de um He-Man brasileiro. Há personagens negros em todo o elenco, porém, reserva-se ao personagem central o biotipo estrangeiro do loiro-esbelto-de-olhos-claros que dificilmente se associaria à realidade da época. Estas liberdades resultam mais difíceis de aceitar do que olhos mecânicos e pernas de aço.

De qualquer modo, Revoada: Versão Steampunk surpreende pelo controle seguro da animação e da narrativa. Rios sustenta uma história ágil, de ritmo agradável, incluindo preciosas variações no estilo do desenho. Os eventuais “delírios” do personagem e da estética permitem a intromissão de traços ainda mais selvagens, “sujos”, que resultam nas sequências de maior criatividade da trama. O cineasta não demonstra medo da violência extrema, animando membros decepados, litros de sangue, vísceras expostas e outras barbaridades. O traço lúdico, que simplifica corpos e expressões, desperta um diálogo fértil com tantos acertos de conta. Embora se divirta muito com a carnificina (outro ponto de debate possível face ao projeto), o diretor possui ampla consciência do distanciamento que a linguagem animada lhe proporciona. Ele certamente explora, no desenho, acontecimentos e construções de personagens que o live action não permitiria.

Já o som chama atenção particular a si próprio. Luciano Silva privilegia amplamente os diálogos, em registro claro, e volume altíssimo em relação à trilha sonora. Já as belas canções de Lirinha constituem uma segunda preocupação dos criadores, que praticamente dispensam ruídos e demais sons ambientes. Há pouco trabalho de foley aqui. Modestos ruídos de passos ou riachos irrompem no interior de construções isoladas acusticamente, como se os personagens convivessem num universo hermético. Há falas demais, marcadas pela nitidez típica do estúdio, além da trilha em profusão, para um vácuo de sons “diretos”. Até na elaboração sonora, os autores preferem se afastar de uma eventual construção naturalista.

Por fim, esta versão da obra de José Umberto Dias se concentra em motivos clássicos da dramaturgia, exacerbados pela estética animada. Sacrifícios, vinganças, lutas pela honra e batalhas fratricidas em nome do amor de uma mulher ditam o tom de uma jornada de vícios e virtudes, com fundo shakespeariano clássico. Por trás do aspecto “punk” enunciado pelo título, pairam amores românticos e lutas por justiça social; traições entre amigos e emboscadas pelo sertão. Ironicamente, ao afastar sua linguagem do realismo, Rios aproxima-se bastante da essência do cinema de gênero, no caso, o faroeste — ou nordestern, como chamam alguns teóricos.

Resta uma obra arrojada na forma, e na brincadeira com o imaginário do banditismo. Em sua perpétua fascinação (moral e narrativa) pelo cangaço, o cinema brasileiro se presta a reinventar formas e abordagens capazes de representar tamanho interesse pela violência do oprimido contra a violência do opressor. Rios certamente impressiona muito pela linguagem e pelas liberdades futuristas, embora, no esqueleto desse mergulho histórico, ainda se encontre um saudosismo pouco questionador. Os robôs e máquinas servem, curiosamente, a sublinhar a valentia, o poder de liderança e a força de homens que, algumas cenas atrás, estimulavam “estupros corretivos” contra suas adversárias. Talvez esteja na hora de combinar a ousadia da estética com a ousadia do discurso.

Revoada: Versão Steampunk (2025)
6
Nota 6/10

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