Good Luck, Have Fun, Don’t Die (2025)

O mundo morreu; viva o mundo

título original (ano)
Good Luck, Have Fun, Don’t Die (2025)
país
Alemanha, EUA
gênero
Comédia, Ficção Científica, Fantasia
duração
134 minutos
direção
Gore Verbinski
elenco
Sam Rockwell, Juno Temple, Haley Lu Richardson, Zazie Beetz, Michael Peña, Asim Chaudry
visto em
76º Festival de Berlim (2026)

A princípio, o ritmo vertiginoso de Good Luck, Have Fun, Don’t Die pode ser interpretado como algo positivo: finalmente, uma história original, que abraça sem concessões os excessos e a originalidade, fugindo às franquias e marcas conhecidas! Afinal, nesta trama, um homem adentra uma lanchonete qualquer e declara ter vindo do futuro, no intuito de recrutar as pessoas que vão ajudá-lo a salvar o planeta de uma criança prestes a inventar a mais perversa Inteligência Artificial. Ele ameaça os clientes com a explosão de uma bomba, caso não cooperem. E esclarece: já visitou este cenário 117 vezes, porém, nunca obteve sucesso em seus planos. Quem sabe esta é a noite de sorte?

Sam Rockwell se revela o homem ideal para este papel. O grande ator, versátil tanto no humor físico quanto no trabalho com texto, tem provado sua capacidade excepcional de lidar com longas tiradas e monólogos (a exemplo de White Lotus). Aqui, ele abre a aventura com uma fala meio cordial, meio ameaçadora. Demonstra a arrogância de quem já conhece bem os frequentadores e, portanto, antecipa cada passo que tomarão, mas também o desespero por recordar os inúmeros fracassos que conduzem ao fim da humanidade. A mistura de presente banal e futuro especial, de microcosmo (“Eu só queria comer uma torta”, repete uma mulher) e macrocosmo (o apocalipse), mostra-se bastante promissora.

Devido ao humor e à fragmentação, além do senso de absurdo combinado a dilemas sociopolíticos, não há dúvida de que Good Luck, Have Fun, Don’t Die deseja se posicionar como o próximo Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo.

O início, de fato, cumpre com as altas expectativas da empreitada. Uma vez escolhidos os atrapalhados parceiros de viagem, esclarecem-se os reais perigos enfrentados pela sociedade do século XXI: adolescentes zumbificados com seus telefones celulares, a clonagem infringindo valores éticos fundamentais, os tiroteios nas escolas norte-americanas, a criminalidade nas ruas. O diretor Gore Verbinski e o roteirista Matthew Robinson tentam combinar os principais problemas contemporâneos (por uma perspectiva estadunidense de classe média) até criarem um painel dos responsáveis pelo atual estado das coisas. Aposta-se num mecanismo pop bastante conhecido: a reciclagem de temas, o sincretismo, o ritmo veloz, a capacidade autocondescendente de rir de nossa própria tragédia.

Além disso, há referências até demais a outros filmes, séries e narrativas conhecidas. As crianças transformadas em armas mortais, dentro de uma narrativa segmentada pela perspectiva de cada personagem, remetem diretamente ao recente A Hora do Mal (2025). A possibilidade de uma pessoa clonada pela ciência, repetindo anúncios de produtos, reproduz o mote de um episódio recente da série Black Mirror. Já os monstros encontrados pelo caminho também se referem a criaturas vistas em outras tramas — para não entrar em detalhes que constituiriam spoilers. Devido ao humor e à fragmentação, além do senso de absurdo combinado a dilemas sociopolíticos, não há dúvida de que Good Luck, Have Fun, Don’t Die deseja se posicionar como o próximo Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo.

Em contrapartida, o novo projeto não consegue sustentar suas qualidades. Primeiro, pela incômoda tendência a se livrar de todos os personagens negros, ou não-brancos, até reservar o real protagonismo aos atores brancos. Em meio a uma dinâmica de flashbacks, segundo a qual os heróis têm suas histórias de origem apresentadas, apenas duas pessoas gordas e não-brancas são desprovidas de passado. Adivinhe, então, quais serão suprimidas no processo? O extermínio brutal de uma mulher negra, despertando nulo sentimento nos demais, mostra-se bastante perturbador. Os “eliminados” seguintes serão, sem surpresa, os colegas não-caucasianos. Depois de filmes igualmente problemáticos em termos étnicos e raciais, caso de O Cavaleiro Solitário (2013), Gore Verbinski deve ser acusado de racismo uma nova vez.

Segundo, o roteiro se perde, a ponto de nunca retornar aos eixos. A trama se abre, se multiplica, se bifurca, adotando uma quantidade impensável de quiproquós estimados necessários para reter a atenção do espectador (embora critique as redes sociais, o ritmo é claramente pensado para o espectador grudado ao telefone celular). Logo, ignora-se o motivo exato do recrutamento naquela lanchonete específica, as circunstâncias da descoberta do garotinho prestes a inventar a inteligência artificial, e inúmeros outros problemas de lógica (alguns deles, levantados pelos próprios membros da gangue). Na parte final, a história acena a três ou quatro finais, sem conseguir se decidir sobre a melhor forma de se despedir do espectador.

Isso porque, em terceiro lugar, o longa-metragem não possui uma visão clara a respeito dos temas que pretende criticar. Aqui, os viajantes do tempo, dispostos a sacrificar as suas vidas, não almejam prevenir a criação da Inteligência Artificial, apenas implementar um dispositivo capaz de torná-la mais segura. O desenvolvimento de clones soa engraçado, improvável (um casal encomenda uma filha gigantesca, muçulmana e racista, por diversão), mas não necessariamente condenável. Verbinski e Robinson divertem-se demais com o caos para refletirem acerca da origem do problema, sua possível solução ou alternativa. Preferem recorrer diretamente ao fim do mundo, enquanto inevitabilidade. Ora, de que forma 50% da população será destruída? Mistério.

Assim, em quarto e último lugar, Good Luck, Have Fun, Don’t Die nem mesmo se decide, esteticamente, a respeito do uso das ferramentas digitais que condena. Para representar o guru mirim da tecnologia, opta pelo imaginário de uma pilha de cabos e robôs analógicos — entretanto, criados digitalmente pela equipe de efeitos visuais. O protagonista atrapalhado veste-se como um sujeito em situação de rua, repleto de cacarecos presos ao corpo, porém, o eventual uso deste instrumento recorre à mais simples trucagem virtual. Os monstros que afetam esses personagens apaixonados pela tecnologia digital constituem, precisamente, um defeito do sistema informático.

Logo, o projeto se prova hábil em constatar problemas, assim como qualquer pessoa faria quando questionada a respeito dos principais entraves à sociedade de hoje. Entretanto, revela-se incapaz de propor uma reflexão a partir dos mesmos. O caráter fatalista, e ao mesmo tempo blasé em relação ao fim do mundo, resume esta abordagem para a qual o apocalipse constitui, sobretudo, uma gigantesca diversão. Logo, por que solucioná-lo em definitivo? Não se espanta que uma personagem manifeste tendências suicidas, e se anime com a simulação de várias formas de morte, ao passo que um casal se oferece ao martírio com um sorriso nos lábios, alegre com a morte conjunta. Nada mais importa — vamos todos morrer mesmo. Afinal, de que adianta nos esforçarmos? Boa sorte e divirta-se.

Good Luck, Have Fun, Don’t Die (2025)
4
Nota 4/10

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