
A princípio, o ritmo vertiginoso de Good Luck, Have Fun, Don’t Die pode ser interpretado como algo positivo: finalmente, uma história original, que abraça sem concessões os excessos e a originalidade, fugindo às franquias e marcas conhecidas! Afinal, nesta trama, um homem adentra uma lanchonete qualquer e declara ter vindo do futuro, no intuito de recrutar as pessoas que vão ajudá-lo a salvar o planeta de uma criança prestes a inventar a mais perversa Inteligência Artificial. Ele ameaça os clientes com a explosão de uma bomba, caso não cooperem. E esclarece: já visitou este cenário 117 vezes, porém, nunca obteve sucesso em seus planos. Quem sabe esta é a noite de sorte?
Sam Rockwell se revela o homem ideal para este papel. O grande ator, versátil tanto no humor físico quanto no trabalho com texto, tem provado sua capacidade excepcional de lidar com longas tiradas e monólogos (a exemplo de White Lotus). Aqui, ele abre a aventura com uma fala meio cordial, meio ameaçadora. Demonstra a arrogância de quem já conhece bem os frequentadores e, portanto, antecipa cada passo que tomarão, mas também o desespero por recordar os inúmeros fracassos que conduzem ao fim da humanidade. A mistura de presente banal e futuro especial, de microcosmo (“Eu só queria comer uma torta”, repete uma mulher) e macrocosmo (o apocalipse), mostra-se bastante promissora.
Devido ao humor e à fragmentação, além do senso de absurdo combinado a dilemas sociopolíticos, não há dúvida de que Good Luck, Have Fun, Don’t Die deseja se posicionar como o próximo Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo.
O início, de fato, cumpre com as altas expectativas da empreitada. Uma vez escolhidos os atrapalhados parceiros de viagem, esclarecem-se os reais perigos enfrentados pela sociedade do século XXI: adolescentes zumbificados com seus telefones celulares, a clonagem infringindo valores éticos fundamentais, os tiroteios nas escolas norte-americanas, a criminalidade nas ruas. O diretor Gore Verbinski e o roteirista Matthew Robinson tentam combinar os principais problemas contemporâneos (por uma perspectiva estadunidense de classe média) até criarem um painel dos responsáveis pelo atual estado das coisas. Aposta-se num mecanismo pop bastante conhecido: a reciclagem de temas, o sincretismo, o ritmo veloz, a capacidade autocondescendente de rir de nossa própria tragédia.
Além disso, há referências até demais a outros filmes, séries e narrativas conhecidas. As crianças transformadas em armas mortais, dentro de uma narrativa segmentada pela perspectiva de cada personagem, remetem diretamente ao recente A Hora do Mal (2025). A possibilidade de uma pessoa clonada pela ciência, repetindo anúncios de produtos, reproduz o mote de um episódio recente da série Black Mirror. Já os monstros encontrados pelo caminho também se referem a criaturas vistas em outras tramas — para não entrar em detalhes que constituiriam spoilers. Devido ao humor e à fragmentação, além do senso de absurdo combinado a dilemas sociopolíticos, não há dúvida de que Good Luck, Have Fun, Don’t Die deseja se posicionar como o próximo Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo.
Em contrapartida, o novo projeto não consegue sustentar suas qualidades. Primeiro, pela incômoda tendência a se livrar de todos os personagens negros, ou não-brancos, até reservar o real protagonismo aos atores brancos. Em meio a uma dinâmica de flashbacks, segundo a qual os heróis têm suas histórias de origem apresentadas, apenas duas pessoas gordas e não-brancas são desprovidas de passado. Adivinhe, então, quais serão suprimidas no processo? O extermínio brutal de uma mulher negra, despertando nulo sentimento nos demais, mostra-se bastante perturbador. Os “eliminados” seguintes serão, sem surpresa, os colegas não-caucasianos. Depois de filmes igualmente problemáticos em termos étnicos e raciais, caso de O Cavaleiro Solitário (2013), Gore Verbinski deve ser acusado de racismo uma nova vez.
Segundo, o roteiro se perde, a ponto de nunca retornar aos eixos. A trama se abre, se multiplica, se bifurca, adotando uma quantidade impensável de quiproquós estimados necessários para reter a atenção do espectador (embora critique as redes sociais, o ritmo é claramente pensado para o espectador grudado ao telefone celular). Logo, ignora-se o motivo exato do recrutamento naquela lanchonete específica, as circunstâncias da descoberta do garotinho prestes a inventar a inteligência artificial, e inúmeros outros problemas de lógica (alguns deles, levantados pelos próprios membros da gangue). Na parte final, a história acena a três ou quatro finais, sem conseguir se decidir sobre a melhor forma de se despedir do espectador.
Isso porque, em terceiro lugar, o longa-metragem não possui uma visão clara a respeito dos temas que pretende criticar. Aqui, os viajantes do tempo, dispostos a sacrificar as suas vidas, não almejam prevenir a criação da Inteligência Artificial, apenas implementar um dispositivo capaz de torná-la mais segura. O desenvolvimento de clones soa engraçado, improvável (um casal encomenda uma filha gigantesca, muçulmana e racista, por diversão), mas não necessariamente condenável. Verbinski e Robinson divertem-se demais com o caos para refletirem acerca da origem do problema, sua possível solução ou alternativa. Preferem recorrer diretamente ao fim do mundo, enquanto inevitabilidade. Ora, de que forma 50% da população será destruída? Mistério.


Assim, em quarto e último lugar, Good Luck, Have Fun, Don’t Die nem mesmo se decide, esteticamente, a respeito do uso das ferramentas digitais que condena. Para representar o guru mirim da tecnologia, opta pelo imaginário de uma pilha de cabos e robôs analógicos — entretanto, criados digitalmente pela equipe de efeitos visuais. O protagonista atrapalhado veste-se como um sujeito em situação de rua, repleto de cacarecos presos ao corpo, porém, o eventual uso deste instrumento recorre à mais simples trucagem virtual. Os monstros que afetam esses personagens apaixonados pela tecnologia digital constituem, precisamente, um defeito do sistema informático.
Logo, o projeto se prova hábil em constatar problemas, assim como qualquer pessoa faria quando questionada a respeito dos principais entraves à sociedade de hoje. Entretanto, revela-se incapaz de propor uma reflexão a partir dos mesmos. O caráter fatalista, e ao mesmo tempo blasé em relação ao fim do mundo, resume esta abordagem para a qual o apocalipse constitui, sobretudo, uma gigantesca diversão. Logo, por que solucioná-lo em definitivo? Não se espanta que uma personagem manifeste tendências suicidas, e se anime com a simulação de várias formas de morte, ao passo que um casal se oferece ao martírio com um sorriso nos lábios, alegre com a morte conjunta. Nada mais importa — vamos todos morrer mesmo. Afinal, de que adianta nos esforçarmos? Boa sorte e divirta-se.




