Velhos Bandidos (2026)

As licenças da comédia popular

título original (ano)
Velhos Bandidos (2026)
país
Brasil
gênero
Comédia, Ação
duração
90 minutos
direção
Cláudio Torres
elenco
Fernanda Montenegro, Ary Fontoura, Bruna Marquezine, Vladimir Brichta, Lázaro Ramos, Reginaldo Faria, Vera Fischer, Teca Pereira, Hamilton Vaz Pereira, Tony Tornado, Laila Garin, Nathalia Timberg
visto em
Cinemas

É bem difícil levar a sério a trama de Velhos Bandidos — mesmo que, em certa medida, o próprio filme também não considere sua trama com tanta seriedade assim. O longa-metragem dirigido por Cláudio Torres se estabelece neste espaço delicado entre a comédia de assalto e a paródia da comédia de assalto, ou seja, entre o filme autônomo e a homenagem-sátira aos clássicos deste universo. Por isso, as incontáveis incongruências, absurdos e lacunas esperam se justificar pelo simples fato de constituírem mera diversão — e o entretenimento, presume-se, dispensa qualquer compromisso com o real. Caso consideremos a aventura fraca, ela não pretendia ser mais do que isso mesmo

Por isso, o universo narrativo é marcado por uma profunda artificialidade. Os personagens são apresentados na condição de arquétipos: a garota bela em trajes de Mulher Gato, o namorado motoqueiro e malandro (“Demorou, baby!”), os velhos ricos, etc. A fotografia coloridíssima e extremamente nítida de Andre Horta também provoca noites azuladas demais, além de luzes de lâmpada bastante laranjas, e assim por diante. Os cenários (casas, bancos, galpões abandonados, delegacias de polícia), com os quais os personagens raramente interagem de fato, assemelham-se a construções cenográficas — fundos pintados num tapume teatral.

Os diálogos acompanham o ritmo expositivo, simplificado, visando um espectador presumido desatento ou pouco astuto. O texto está repleto de falas em modo “eu sei, você também sabe”, quando os personagens explicam um ao outro informações de que ambos dispõem, somente para informar ao público. Deste modo, Marta (Fernanda Montenegro) pontua ao marido Rodolfo (Ary Fontoura) de que maneira a ladra Nancy (Bruna Marquezine) teria descoberto o casarão onde vivem. Adiante, chega a vez dele alertar à esposa que um tratamento médico “custa milhões de dólares, e nós não temos esse dinheiro” .(Ela está plenamente ciente das finanças de ambos). Depois de uma farsa obviamente apresentada, Nancy se vira ao namorado (interpretado por Vladimir Brichta), e repete: “Sid, é tudo mentira”

O filme se estabelece neste espaço delicado entre a comédia de assalto e a paródia da comédia de assalto. Mas estima que, para o público de hoje, qualquer quiproquó já está de bom tamanho.

Estamos, portanto, numa lógica do cinema moldado aos costumes do streaming, ao visionamento do indivíduo com o celular na mão, ou talvez prestando atenção em outros estímulos ao redor. Cada reviravolta será pontuada, traduzida, repetida. A contagem regressiva até o dia do roubo sugere a passagem do tempo na tela, enquanto letreiros apresentam em detalhes as habilidades especiais de cada parceiro idoso — personagens coadjuvantes estes que, ironicamente, não terão função nenhuma a seguir. O cofre do banco com suas barras de ouro empilhadas, e o raio laser cortando o aço remetem a um imaginário conhecido dos blockbusters norte-americanos, apesar de dispensarem a verossimilhança do funcionamento de um banco real. 

Os criadores demonstram a preocupação central em fazer com que a trama, os personagens e o contexto sejam assimilados de imediato, sem o mínimo esforço. Ignoremos o fato que a fita adesiva nunca parece realmente prender os dois assaltantes na casa; que a ligação de Marta à polícia jamais soe digna de crença; que a peruca de Nancy seja incrivelmente falsa; e que a decisão de abandonar os personagens coadjuvantes sedados no meio da rua, na calçada, jamais se justifique. Caso o espectador esteja disposto a procurar falhas e absurdos (todos eles facilmente corrigíveis com um mínimo de apuro lógico), encontrará uma lista interminável de problemas a apontar. 

Em consequência, volta-se à famosa questão: por que o público deveria se importar com a trama, se os próprios roteiristas (quatro pessoas!) não se importam tanto? O que leva uma produtora deste porte, dispondo de óbvios recursos financeiros e um elenco invejável, a depositar tamanho esforço em um projeto insuficientemente construído em termos de conflito, personagens e reviravoltas? Acredita-se que o público médio, hoje, precisa de algo simplificado e infantilizado para conseguir acompanhar, ou, então, que não mereça maiores esforços por parte da equipe criativa? Estima honrar Reginaldo Faria, Vera Fischer, Teca Pereira, Tony Tornado e outros grandes nomes com estas pequenas participações caricaturais? Pensa, de verdade, homenagear apessoas idosas através da chacota com o apetite sexual das mesmas?

“Jamais subestimem os velhos, até porque um dia vocês serão um de nós”. A mensagem traduzida nos diálogos é claríssima: Velhos Bandidos pretende constituir uma ode à idade avançada, mostrando que cidadãos desta idade ainda podem fazer sexo, planejar roubos, dar golpes, ganhar dinheiro. Ao mesmo tempo, faz piadas com a cougar disposta a seduzir um rapaz muito mais novo. (Ela não terá nenhum outro traço de personalidade além deste). O roteiro insinua que Marta e Rodolfo são ao mesmo tempo riquíssimos, mas também pobres demais para o devido cuidado médico. Devemos nos surpreender com seus planos criminosos, mas também nos apiedar diante da decisão deste casal sem filhos em adotar, simbolicamente, os pequenos ladrões.

Curiosamente, o texto leva tempo considerável para mostrar que nem a dupla Marta-Rodolfo, nem a dupla Nancy-Sid é realmente malvada, apenas levada a tais atos devido às circunstâncias. O filme declara que assaltos a banco são divertidíssimos, mas também errados e condenáveis. Defende que ladrões são admiráveis por sua esperteza, mas também pobres vítimas de uma sociedade desigual. Que ninguém tente reproduzir isso em casa, fique claro. (O discurso realmente não acredita na capacidade cognitiva de seu interlocutor). Pretende funcionar tanto na comédia e na ação quanto no drama de pessoas comuns correndo atrás de seus sonhos. Ainda abre brecha para a sequência, caso os resultados de bilheteria o permitam.

Por isso, esqueçamos a montagem lenta demais; a decupagem atrapalhada na troca de tiros; a prova do golpe em vídeo, enviada às vítimas, ou ainda a dinâmica atrapalhada na fuga do banco pós-roubo, quando até os figurantes soam mal dirigidos em suas atribuições. Uma cena simboliza bem o projeto na totalidade: ao aspirarem gás hilariante (embora nunca pareça que estão inalando nada de verdade), os protagonistas riem histericamente uns dos outros. Na sala de cinema, todos observavam, sérios e em silêncio, a diversão alheia. Não somos convidados a rir junto deles, pois desconhecemos os fatos que eles mencionam, e nos encontramos longe de suas inseguranças, seus traços de personalidade. Velhos Bandidos preocupa-se bastante em agradar, porém, nunca nos oferece uma história minimamente cuidadosa, ou digna de apreciação. Estima que, para o público de hoje, qualquer quiproquó já está de bom tamanho — afinal, a presença ilustre de Fernanda Montenegro, e pop de Bruna Marquezine, seriam motivações suficientes para a compra do ingresso.

Velhos Bandidos (2026)
4
Nota 4/10

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