Surda (2025)

A estética da empatia

título original (ano)
Sorda (2025)
país
Espanha
gênero
Drama
duração
99 minutos
direção
Eva Libertad
elenco
Miriam Garlo, Álvaro Cervantes, Elena Irureta, Joaquín Notario
visto em
1ª Mostra Farol (2026)

Ángela (Miriam Garlo) atravessa sua primeira gravidez. Ela se questiona sobre o nome da criança, a melhor maneira de criá-la, a saúde do bebê. Divide as dúvidas com os amigos, os pais idosos, o marido. Este seria um drama convencional a respeito dos conflitos da maternidade, exceto por um fator fundamental: Ángela é surda. Como sugere o título direto e brusco, a heroína tem sua experiência de vida pautada pela deficiência. Embora não se reduza a isso — ela possui um trabalho estável como ceramista, além de um bom círculo de amigos —, ainda sofre com o preconceitos e inadequações de um mundo não concebido para uma pessoa como ela.

Alguns dilemas soam inevitáveis: durante o parto, a paciente é privada de informações fundamentais à sua saúde e àquela da criança, posto que os médicos desconhecem a língua de sinais. Ela não escuta os choros do bebê. Ao socializar na creche e no parquinho, Ángela se vê privada de comunicação com as outras mães. Perto do amigos ouvintes do marido, sente-se deslocada, abandonada. O principal conflito, no entanto, diz respeito à relação da pequena Ona com os sons: a bebê será surda como a mãe, ou ouvinte, como o pai? Todos ao redor torcem para que a garota escute, é claro. Já a protagonista, em silêncio, deseja uma filha com quem possa se comunicar de igual para igual, e que a compreenda intimamente. Mesmo que não o confesse, deseja uma menina surda como ela.

Surda se destaca pela complexidade humana, pelo roteiro excelente, pelas grandes atuações. O filme constitui um avanço considerável no pensamento imagético e sonoro da deficiência. 

O projeto surpreende pela profunda intimidade com o tema. Miriam Garlo, uma atriz surda, transparece uma naturalidade impressionante em cena, evitando qualquer forma de idealização ou martírio. Diversos questionamentos, alheios ao espectador ouvinte, são expostos de modo orgânico dentro da trama, que evita se converter num catálogo de dificuldades. Isso porque a surdez se mistura a obstáculos universais a pais de primeira viagem: as divergências quanto à educação, a vida sexual do casal, o desgaste devido à falta de sono. 

A edição de Marta Velasco mostra-se primorosa, com seus saltos temporais que evitam alarde, e suspendem crises antes de chegarem ao ápice. Assim, Ángela avista no bar um grupo de pessoas ouvintes que ridicularizam a turma de amigos surdos, por gesticularem em sinais. Se este fosse um drama hollywoodiano, chegaríamos à briga, à catarse, ao profundo impacto emocional deste trauma. Ora, aqui, a edição interrompe o confronto antes de se materializar. Algo semelhante ocorre nos demais atritos com o marido, com os pais idosos, e durante uma festa de aniversário. A diretora Eva Libertad compreende a importância de deixar ao espectador completar lacunas, imaginar diferentes desfechos — em outras palavras, projetar-se neste mundo, indo de encontro ao filme, ao invés de esperar que o filme o contemple. 

Em paralelo, nem a esposa, nem o marido se mostram impecáveis em suas condutas. São pais amorosos e verossímeis, embora fiquem cansados, desentendam-se, em embates que permitem ao público compreender o ponto de vista de cada um. Evitam-se, desta maneira, o maniqueísmo e a simplificação narrativa. Ángela constitui uma heroína no sentido estrutural da trama (é ela quem conduz a história, por seu ponto de vista, ocupando a quase totalidade das cenas), no entanto, foge ao heroísmo em sua acepção moral de valentia, coragem, determinação, etc. Toma decisões extremas, reage no calor do momento, conforme se esperaria de qualquer pessoa em uma situação limítrofe.

Sorda (no original) representa, assim, uma segunda dificuldade de adaptação para uma pessoa que havia encontrado seu espaço na sociedade ouvinte. De repente, a protagonista se vê mais uma vez deslocada, perdida num contexto pouco preparado a ela, e sem interesse em mudar. Pedem que ela utilize o incômodo aparelho auditivo, que ela leia lábios, que deixe o marido cuidar de toda a comunicação em nome do casal. Embora a sociedade contemporânea não seja vilanizada, ela transparece o desinteresse generalizado em compreender a dificuldade de Ángela, e de outras mães em situação semelhante. A maternidade sublinha a dominação de um mundo ouvinte, que estima ter problemas demais para se importar com a dificuldade particular de algumas pessoas desconhecidas, e minoritárias (em vários sentidos do termo). Por isso, inclusive, a necessidade frequente da personagem em encontrar-se com os amigos surdos.

Uma prova da maturidade do projeto reside no enfoque à tentativa opressora de “normalidade” por parte de Ángela. Ela sorri às outras mães da creche, que conversam com ela de modo a ignorar sua deficiência. Acena aos amigos do marido, que falam ao mesmo tempo, impedindo a sua compreensão. Finge não se preocupar com o alívio dos pais idosos, e do próprio marido, ao descobrirem que Ona escuta perfeitamente — mas então ser surdo seria um calvário indesejável? O que isso diz a respeito da própria mãe da criança? A narrativa se concentra mais no desgaste progressivo desta personagem, esforçando-se para seguir a sua vida, do que na explosão diante de uma dificuldade específica. O rosto profundamente expressivo da atriz, incomodada em sucessivos eventos sociais, comunica muito mais do que qualquer diálogo expositivo o faria.

Assim, o drama espanhol pode ser lido enquanto um tratado sobre a empatia — não no sentido virtuoso da palavra, solicitando piedade ou compaixão por Ángela, de modo condescendente. A relação empática se traduz na tentativa de recriar, simbolicamente, a experiência de uma pessoa com deficiência. Por isso, o quase inevitável recurso às cenas completamente silenciosas, proporcionando ao espectador uma imersão metonímica na percepção da protagonista. Ao retirar o som por completo, ou reproduzir os chiados altos e perturbadores do aparelho auditivo, Libertad simula, por alguns minutos, um estado distinto de apreciação do mundo. A busca pela subjetividade desta mulher passa, necessariamente, pelo emprego de ferramentas estéticas (sonoras, inclusive) capazes de representá-la.

Por isso, a discreta música sem orquestração, em instantes pontuais, assim como a sequência da casa noturna, revelando a importância da percussão e das frequências sonoras na vida dela e dos amigos. Surda também se conclui muitíssimo bem. Embora não se encaminhe para um desfecho específico (a trama poderia continuar ad infinitum, se o desejasse), escolhe um instante aparentemente pequeno, silencioso (é claro), no qual a mãe se comunica em profundidade com a filha. Neste momento, a sociedade ao redor está ausente, assim como o desgaste com o marido — existem apenas mãe e filha, identificando-se, percebendo uma à outra. O espectador é convidado a testemunhar esta interação secreta, que nunca terá o mesmo valor quando compartilhada com terceiros. 

Um pequeno porém nesta obra tão sensível seria o receio de que a importância do tema devore a construção estética. Surda se destaca pela complexidade humana, pelo roteiro excelente, pelas grandes atuações — inclusive de Álvaro Cervantes. Em contrapartida, mostra-se mais tímido na composição dos quadros, no uso expressivo de luz, e mesmo no desenho sonoro. Opta por um naturalismo padrão, dentro das regras tradicionais do realismo social (ainda tão apreciado e valorizado em festivais internacionais), no qual há pouca aspereza, ousadia, ou metáforas destinadas a condensar a gravidade das situações, ou o esgotamento desta mãe. 

Logo, a obra sustenta certa polidez e elegância na conduta, que não necessariamente traduz toda a violência existente nestas relações entre surdos e ouvintes. Mesmo assim, mergulha no universo de PCDs com uma dedicação e respeito ímpares. Em se tratando de uma cinematografia ainda recente (há poucos filmes elaborados acerca do tema, com pessoas surdas de fato, e, menos ainda, por pessoas surdas), o longa-metragem constitui um avanço considerável no pensamento imagético e sonoro da deficiência. 

Surda (2025)
8
Nota 8/10

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