Bowie: The Final Act (2025)

Melhores momentos

título original (ano)
Bowie: The Final Act (2025)
país
Reino Unido
linguagem
Documentário
duração
90 minutos
direção
Jonathan Stiasny
visto em
31º Festival É Tudo Verdade (2026)

Existe uma contradição fundamental em representar o sujeito mais radical possível com a estética menos radical possível. O diretor Jonathan Stiasny parte da tese de que David Bowie foi uma artista capaz de se reinventar inúmeras vezes ao longo das décadas, abraçando o risco e posicionando-se à frente do seu tempo (ele teria “previsto” a importância da Internet, por exemplo). Assim, convida diversos músicos e amigos do cantor britânico para relembrarem seus principais momentos pessoais e instantes de guinada profissional. 

O saudosismo dita esta rememoração, através de uma narrativa linear, cronológica e descritiva. Apesar do que o título pode sugerir, o longa-metragem não se concentra na fase final da carreira de seu protagonista. Pelo contrário, privilegia o roteiro em moldes Wikipédia ao voltar à infância, aos primeiros passos na música, os hits iniciais, os sucessivos álbuns. O término da carreira, com foco no show no Festival Glastonbury em 2000, aparece somente nos vinte minutos finais, novamente insistindo neste caráter premonitório e místico de Bowie — que teria pleno controle de sua morte, engendrando o álbum enquanto epígrafe e herança aos fãs. O fato de ter falecido logo após o lançamento de Blackstar também sugere que o cantor teria esperado este momento preciso para partir — uma tese questionável, posto que impossível de comprovar.

Existe uma contradição fundamental em representar o sujeito mais radical possível com a estética menos radical possível.

A temporalidade constitui o elemento mais curioso do longa-metragem. Por algum motivo, os montadores Neil Clarkson e Jess Illingworth optam por fazer diversas idas e vindas no tempo, pontuando os anos e lugares através de letreiros. No entanto, a cada vez que retornam aos anos 1960, 1970 e 1980, explicam-nos novamente, como se fosse o primeiro encontro com tais gerações. Falas genéricas a respeito do movimento hippie, da liberdade e das mudanças de costume visam dar conta de características geracionais mais amplas. Ao final, estes saltos e costuras não se completam, soando meramente redundantes. O discurso menciona estas passagens em grande quantidade, jamais em profundidade. 

Quanto ao conteúdo das falas, recorre-se a uma hagiografia habitual em filmes-homenagens. A ideia seria destacar unicamente as evidentes qualidades do biografado, minimizando os percalços na carreira. Assim, críticas negativas são descritas como impiedosas e desproporcionais; fracassos junto aos espectadores recebem a interpretação de liberdade, como se Bowie compusesse de fato para si mesmo, para o seu prazer, ignorando demandas dos produtores musicais da época. Sobre a escolha de demitir sua banda no palco, durante uma apresentação, afirma-se que o cantor, de fato, “não precisava de ninguém”. A respeito da tendência a fazer grandes amigos e abandoná-los em seguida, explica-se que tal movimento “era importante para ele”. Logo, como de costume, a genialidade aparenta desculpar e minimizar falhas de caráter.

Visualmente, Stiasny parte para as metáforas espaciais, bastante óbvias para o sujeito que cantou tantas músicas com este tema, e estrelou ficções científicas, a exemplo de O Homem que Caiu na Terra (1976) e Labirinto: A Magia do Tempo (1986). No entanto, ao invés de mergulhar nesta paixão astronômica e na carreira cinematográfica, aposta em simbologias elogiosas. Bowie seria como um buraco negro, dotado de centro gravitacional próprio, atraindo magneticamente todos ao redor. Carregaria a estranheza e o senso de fascinação dos alienígenas. Além disso, ele teria “desafiado os limites da compreensão do que é ser humano”.  Os entrevistados são convidados a responder apenas a respeito das lembranças mais saudosas junto ao herói: “Quem eu era para ele?”, repete um músico, esclarecendo o caráter retórico das perguntas elaboradas pela direção.

Rumo à conclusão, a montagem se presta a repetir fotografias e materiais de arquivo utilizados anteriormente, numa espécie de “melhores momentos”, ou um “arquivo confidencial”. O instante em que Bowie chacoalha a cabeça em desaprovação será empregado três ou quatro vezes, na forma de um sintoma da tristeza do personagem. A relação com estes arquivos se prova bastante simples, pontuada por uma busca em sinônimos de alegria ou tristeza, de contentamento ou preocupação. A direção procura explicar seu protagonista, ao invés de compreendê-lo em sua complexidade. Dirigindo-se a um espectador presumido pouco afeito a sutilezas ou ambiguidades, destrincha e simplifica o cantor ao gosto médio.

Assim, compreende-se que Bowie: The Final Act agrade aos fãs mais fervorosos do artista, graças ao prazer simples de vê-lo em cena, além dos bastidores, cantando, conversando, interagindo. Trata-se de uma persona fascinante, sem dúvida, entretanto, este seria um mérito do próprio britânico, ao invés do filme encarregado de representá-lo. Seguindo o formato de uma reportagem televisiva, de pouco senso autoral ou ponto de vista próprio, torna-se refém da grandiosidade do tema, e da amplitude temporal abordada. A investigação soa insuficiente, assim como o trabalho cinematográfico a partir dos materiais encontrados. Ao final da sessão, o sentimento de melancolia diz menos respeito à morte de um ícone do que à investida tímida e acanhada para um homem que exigiria uma obra de maior potência, risco e envergadura.

Bowie: The Final Act (2025)
5
Nota 5/10

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