
À primeira vista, Caso 137 aparenta corresponder a um suspense policial do subgênero true crime, ou seja, correspondendo à fascinação pelos bastidores da resolução de um crime real. No caso, trata-se dos fatos ocorridos em 2018, durante o ápice do movimento dos Coletes Amarelos na França. Depois de um intenso dia de protesto, um adolescente foi atingido com uma bala de borracha na cabeça, provocando um traumatismo craniano grave. Uma vez no chão, imobilizado e sangrando, ainda levou chutes dos policiais que efetuaram os disparos. Os autores do crime, captados em imagens, negam os fatos, e ainda se consideram as vítimas desta história, por trabalharem excessivamente, sem o devido preparo para lidar com multidões.
Stéphanie Bertrand (Léa Drucker), investigadora encarregada de avaliar o abuso de força, poderia facilmente corresponder a uma heroína padrão. Seguindo a lógica tradicional de Hollywood, ela seria implacável, astuta, destemida. Trabalharia mesmo sem precisar, além de suas horas habituais, negligenciando a vida privada em nome da verdade, e de um senso inviolável de transparência. Terminaria demonstrando sua crença na justiça, sempre eficaz, ainda que tardia. Muitos projetos de cunho idealista utilizam uma exceção para sugerir a regra, ou para insistir no perfeito funcionamento das instituições em tempos de crise.
No fundo, está em xeque a própria noção de justiça. Caso 137 é um filme amargo a respeito da falência da imagem enquanto prova de verdade.
Ora, o longa-metragem francês escapa a praticamente todos os clichês esperados dele. Em primeiro lugar, adota um posicionamento de claro viés progressista, permanecendo ao lado das vítimas contra os policiais truculentos, e bem instruídos por seus advogados durante os interrogatórios. Contrariamente a toda um arsenal ideológico norte-americano, destinado a apresentar uma polícia corajosa e bem-intencionada (séries como CSI, Chicago P.D., 9-1-1 e afins), este filme aponta o dedo à organização, criticando nominalmente o presidente Emmanuel Macron pelo viés punitivista das forças da lei. Estamos, portanto, diante de um posicionamento crítico evidente.
Em segundo lugar, Stéphanie não corresponde à heroína virtuosa. Nunca se solicita à mulher que abra mão da vida privada para desempenhar efetivamente as suas tarefas. Logo, ela se mostra uma mãe presente ao filho adolescente, cuidando razoavelmente bem das tarefas domésticas. Mesmo a figura do gatinho perdido, que talvez contribuísse a humanizá-la, jamais lhe desperta um senso materno suplementar. Ela visita a mãe idosa, faz compras, enfim, equilibra uma rotina comum. Isso significa que a polícia lhe ocupa a mera função de trabalho cotidiano, ao invés de uma vocação. Todas as suas descobertas relacionadas ao episódio do garoto ferido se devem tanto à sua astúcia quanto àquela de uma equipe igualmente interessada que a cerca. Mesmo assim, dentro deste grupo, há espaço para divergências quanto à melhor maneira de agir.
Em terceiro lugar, ignora-se o sentimentalismo esperado da busca por justiça. A protagonista não chora, não grita, nem perde a razão em decorrência de seus esforços em perseguir os agressores. Ela se esforça, porém, uma vez contrariada, reconhece as limitações de seus gestos. Graças ao viés frio e realista, os criadores permitem que a lei falhe, e que a impunidade perpetue, servindo de demonstração às lacunas do sistema. Brilhantemente interpretada por Léa Drucker, a investigadora representa uma mulher calejada por este tipo de ofício, e movida por princípios sólidos, ainda que incapaz de se chocar diante das pressões externas. O filme se posiciona junto a protagonistas de moral nobre, porém, vencidos pelo sistema. A heroína não perde o sono à noite devido a este embate.
O diretor Dominik Moll, a partir de um roteiro que ele co-escreve com Gilles Marchand, busca uma espécie de mergulho cerebral através dos fatos e processos. Concentra-se menos na finalidade (culpabilidade ou absolvição) do que no extenuante jogo de regras rumo a um veredito. Por isso, dedica tempo considerável a demonstrar a redação de arquivos, dossiês, formulários e demais burocracias. Ressalta a lentidão dos trâmites, as autorizações que nunca chegam, as brechas jurídicas para arrastar um processo ou envolver pessoas poderosas na balança. Coloca os defensores extremados da polícia de um lado (o marido, a nova companheira dele) assim como os atacantes ferrenhos de outro lado (a família da vítima, os cúmplices, a testemunha negra de um crime cometido contra brancos), apenas para que a protagonista se situe entre os dois, acalmando ambas as partes. Questões raciais, de classe social e especificidades da política francesa se embrenham de maneira orgânica à jornada.
Ainda se nota um senso de elegância em meio ao pragmatismo da condução. Moll transparece o prazer das composições fixas, distantes, mais observadoras do que intervencionistas. Apesar de alguns planos e contraplanos protocolares, durante os depoimentos dos acusados, encontra-se espaço para focar uma vida meramente funcional, bege e acinzentada, para a heroína. Seja na direção de arte (o cenário da casa, os figurinos, o penteado), seja na iluminação, evita-se o contraste profundo favorecendo o cansaço ou a impressão de uma luta de extremos. Caso 137 sugere que este episódio teria seu simbolismo, entretanto, estaria longe de constituir uma exceção. Algo na normalidade das acusações, e na tranquilidade de sua condução, nos garante que tais abusos acontecem com frequência — sendo esta uma parte essencial de seu posicionamento crítico.


Talvez alguns elementos resultem mais frágeis do que os demais — por exemplo, a utilização dos vídeos de gatinhos enquanto sinônimo imediato demais de alienação e fuga da realidade opressora. O questionamento do filho, a respeito da má fama dos policiais, também soa acessório para um personagem que sempre viveu cercado por mãe e pai policiais, ainda que a resposta de Stéphanie esteja longe de qualquer discurso inspirador. Aos poucos, é a própria mulher que se pega em contradição, notando as fragilidades de uma instituição da qual faz parte (instantes em que a presença de Guslagie Malanda se torna essencial), em nome da defesa de dois adolescentes com os quais nem sequer simpatiza.
No fundo, está em xeque a própria noção de justiça, o funcionamento das leis tais quais as conhecemos, assim como a imagem pública se sobrepondo ao valor das provas. Este seria, por fim, um filme amargo a respeito da falência da imagem enquanto prova de verdade. No mundo de fake news e Inteligência Artificial, vence a disputa de narrativas — quem conta o discurso mais atraente ao povo. Moll capta muito bem o zeitgeist da década através deste projeto discretamente niilista, ansioso por acreditar em algo e sustentar algum otimismo, no entanto, sem saber exatamente de onde retirá-lo.



